Anvisa aprova vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos

Essa é uma notícia maravilhosa para esse fim de ano. Como cidadão brasileiro, cientista e pai, fico muito feliz com a decisão da Anvisa em aprovar no dia 16/12/2021, a aplicação da vacina da Pfizer/BioNTech para crianças na faixa etária de 5 a 11 anos. Participaram dessa decisão a área técnica da Anvisa, especialistas das Sociedades Brasileiras de Infectologia (SBI), de Imunologia (SBI), de Pediatria (SBP) e de Pneumonia e Tisiologia (SBPT). O anúncio da avaliação técnica por parte da Anvisa pode ser conferido pelo YouTube

A dose foi desenvolvida especialmente para crianças, tem o mesmo princípio ativo, mas é 1/3 menor, com 10 microgramas (concentração de mRNA é 0,1 mg/mL). A dose para pessoas com 12 anos ou mais tem 30 microgramas (concentração de mRNA é 0,5 mg/mL). A vacina será aplicada no esquema de duas doses no intervalo de 21 dias. Com essa dosagem e com base em evidências científicas, a vacina mostrou ótimo perfil de segurança e eficácia, alta reatogenicidade e elevada produção de anticorpos. Essa versão pediátrica vem em um frasco com tampa laranja para distingui-lo das tampas de cor roxa, usadas em pacientes com 12 anos ou mais, evitando confusão e erros na administração da vacina. Os frascos para crianças contêm número maior de doses (10 doses para crianças de 5 a 11 anos e seis doses para pessoas com 12 anos ou mais). A vacina pode ficar armazenada por mais tempo na temperatura de 2 a 8 graus Celsius (cerca de 10 semanas após o descongelamento). As crianças de 5 a 11 anos serão incluídas na bula da vacina da Pfizer, que já tem registro definitivo no Brasil.

Dados do dia 15/12/2021, mostram que 160.374.514 milhões de pessoas (75,18% da população brasileira) tomaram a primeira dose e 140.781.302 milhões de pessoas (66% da população) tomaram a segunda dose + dose única da vacina da Janssen desde o dia 17/01/2021. A dose de reforço foi aplicada em 21.694.778 milhões de pessoas (10,17% da população), números que vão aumentar até o final de dezembro de 2021.

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A vacinação das cerca de 22 milhões de crianças nessa faixa etária (segundo estimativas do IBGE, mas números divergem entre fontes) permitirá que o Brasil alcance uma cobertura vacinal completa próxima de 90% ou ultrapasse isso até o Carnaval de 2022.

Nós vamos vencer o vírus e seus aliados negacionistas que bradam contra as vacinas. Eles vão reclamar ferozmente nas redes sociais contra a aprovação da vacinação em crianças, mas felizmente, muitos deles estão indo se vacinar escondidinhos.

No cenário preocupante, com o surgimento da Ômicrom e a chegada das festas de fim de ano, seria maravilhoso ter nossas crianças nessa faixa etária vacinadas com a primeira dose imediatamente. Mas, infelizmente teremos que aguardar possivelmente até o mês de janeiro, pois não temos doses dessa vacina pediátrica no País. É urgente que o Ministério da Saúde adquira as doses pediátricas. Mais uma vez, somos vítimas da falta de planejamento de quem deveria estar zelando pela saúde da nossa população.

Em novembro, a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) aprovou a aplicação da vacina Pfizer-BioNTech para crianças de 5 a 11 anos. Pouco tempo depois, em 15/12/2021, vários países europeus iniciaram a vacinação. Essa medida é absolutamente necessária para ajudar a combater o avanço da Ômicrom e manter as escolas abertas por lá.

Vamos torcer para que a vacina CoronaVac também seja aprovada para crianças e adolescentes de 3 a 17 anos aqui no Brasil. A CoronaVac é uma ótima vacina para essa faixa etária. A Anvisa recebeu no dia 15/12/2021, o pedido do Instituto Butantan de indicação da CoronaVac para crianças e adolescentes e tem até o dia 15/01/2022 para se manifestar. A CoronaVac está sendo usada de forma emergencial no Brasil para pessoas com 18 anos de idade ou mais desde o dia 17/01/2021.

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Variante Ômicrom avança rapidamente

A variante Ômicrom se espalha rapidamente, já foi encontrada em 77 países e deve estar circulando em praticamente todos os países e territórios, segundo a OMS. Na Europa, a variante está dobrando o número de casos a cada três dias, o que sugere que será a nova variante predominante em meados de janeiro. No Brasil, felizmente, com a boa aceitação de vacinas pela população, podemos torcer e esperar para que o número de internações não seja alto. 

Mas não vamos barrar o avanço da Ômicrom apenas com vacinas. É fundamental seguir adotando as medidas não farmacológicas como o uso de máscaras, os hábitos de distanciamento físico e higiene das mãos, evitando aglomerações, principalmente em locais fechados e com pouca ventilação, além de adoção de procedimentos de testagem e sequenciamento genético para monitorar o aparecimento de novas variantes.

Dados ainda preliminares, mostram que a Ômicrom é mais transmissível que a variante Delta, mas causa quadros clínicos menos graves. Mesmo assim, o avanço rápido preocupa e, portanto, não podemos tomar conclusões precipitadas, pois ainda não sabemos o efeito da nova variante em populações mais idosas e nos imunossuprimidos. A Ômicrom infecta pessoas convalescentes, recuperadas de infecções por outras variantes e infecta também pessoas vacinadas, como não havíamos observado anteriormente para as outras variantes de preocupação. É urgente vacinar todas e todos o mais rápido possível, incluindo as populações mais vulneráveis nos países de baixa renda. A OMS vem alertando constantemente sobre as baixas taxas de vacinação em países de baixa renda. A expectativa é que apenas no segundo semestre de 2024, países do continente africano tenham cerca de 70% de suas populações vacinadas. Não dá para esperar tanto...

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Todos que estiverem elegíveis para tomar as doses de reforço, que o façam imediatamente. Uma dose de qualquer uma das vacinas contra a covid-19, seja a primeira dose, a segunda ou a dose de reforço é o nosso melhor presente de Natal em 2021. Cada dose adicional de qualquer uma das vacinas contra a covid-19 estimula o nosso sistema imunológico e desencadeia um processo de evolução dos anticorpos neutralizantes (e dos não neutralizantes), produzindo anticorpos que se ligam mais fortemente na proteína S do vírus, por um processo conhecido como maturação de afinidade, além da produção de resposta de proteção celular através de células citotóxicas.

Outra boa notícia é que pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) isolaram a cepa da variante Ômicron do Sars-CoV-2, o que permitirá que outros laboratórios no país possam detectar a disseminação da Ômicron e avaliar a eficácia das vacinas em uso contra a nova cepa. Leia mais aqui (https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-da-usp-isolam-variante-omicron-do-sars-cov-2/37552/).

Em tempo, a Fiocruz lançou uma cartilha para as festividades de fim de ano, com orientações baseadas na ciência. Leia mais sobre o assunto

A Pfizer e a BioNTech anunciaram que duas doses de sua vacina de RNA mensageiro perde um pouco da eficácia, pois produzem menor quantidade de anticorpos neutralizantes contra a Ômicron, mas que uma terceira dose recupera a capacidade neutralizante e aumenta consideravelmente a produção de anticorpos, após ensaios realizados em laboratório. Mas nós sabemos que a resposta de células citotóxicas também é muito importante. Um estudo divulgado na África do Sul sugere que após duas doses, a eficácia da vacina da Pfizer-BioNTech caiu para 33% para evitar a infecção contra a variante Ômicron, mas mostrou eficácia de 70% contra hospitalizações e casos mais graves. Queda semelhante foi observada para a vacina da AstraZeneca. Tanto para a vacina da Pfizer como para a da AstraZeneca, a eficácia para proteção de infecções sintomáticas ficou em torno de 70%. Altas taxas de eficácia e proteção contra a Ômicron são alcançadas com uma terceira dose ou dose de reforço.

Em virtude da vacinação contra a covid-19, os indicadores epidemiológicos no Brasil são bons. O Boletim divulgado pelo projeto VigiVac da Fiocruz mostra que todas as vacinas contra a covid-19 usadas no Brasil (CoronaVac, AstraZeneca, Janssen e Pfizer) têm alta efetividade e conferem grande redução do risco de infecção, internações e óbitos por covid-19. Mais informações. Isso é ciência salvando vidas.

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STF aprova o passaporte vacinal

Embora ainda com algumas incógnitas, outra boa notícia para quem defende a vida, a ciência e as vacinas: o Superior Tribunal Federal (STF) atendeu a uma liminar do Ministro Luís Roberto Barroso e determinou a obrigatoriedade do passaporte de vacina para viajantes que vierem do exterior para o Brasil. Eles só poderão entrar no país com o comprovante de vacinação com qualquer um dos imunizantes aprovados pela Anvisa. Segundo o STF, o viajante que chegar ao Brasil poderá ser dispensado de apresentar comprovante de vacinação apenas por motivos médicos, questões humanitárias ou se o país de origem não contar com vacinas contra a covid-19. Essa dispensa por motivos médicos me preocupa, considerando a quantidade de médicos negacionistas e antivacinas que podem emitir certificados falsos. Acompanhem o que acontece na França.

O STF estabeleceu que para os brasileiros e estrangeiros que residem no Brasil e viajarem para o exterior após o dia 14/12/2021 e que não apresentarem comprovante de vacinação ao retornar, deverão ter teste negativo de covid-19 e ficar em quarentena por cinco dias. Quem viajou antes do dia 14/12/2021 precisa apresentar teste negativo de covid-19 ao retornar ao Brasil.

É uma decisão a ser comemorada. Não é por reciprocidade, só porque outros países exigem a vacinação e outras medidas sanitárias para cruzar suas fronteiras. O Brasil não pode se tornar um destino para os não vacinados, para que os negacionistas e antivacinas venham aqui fazer turismo. É por isso que exigir apenas o teste negativo ou quarentena de cinco dias não é suficiente. É crucial fazer o teste e estar vacinado. Essa decisão respeita a recomendação da Anvisa e as mais de 617 mil pessoas que perderam a vida para a covid-19 no Brasil. Respeitar a liberdade é respeitar o coletivo, para que como Nação, possamos sair da pandemia. Ninguém tem direito de sair por aí infectando outras pessoas, só porque defende uma bandeira política e não quer se vacinar.

Nós não podemos aceitar que o Brasil permita a entrada de pessoas não vacinadas vindas de outros países. Nós lutamos internamente contra um movimento antivacinas criminoso, contra o negacionismo científico, contra os pseudocientistas, contra médicos que não seguem a ciência, contra alguns pseudojornalistas e ex-atletas, políticos e líderes religiosos, contra os defensores da farsa do kit covid para tratamento precoce, contra os defensores da ozonioterapia e outras falsas terapias contra a covid-19. Para a segurança de nossa população, é fundamental exigir o passaporte de vacinação e testar quem entra no país, para evitar a criação de cadeias de transmissão internas. O STF tomou a decisão correta para proteger a nossa população, exigindo a obrigatoriedade da vacinação. Essa é uma medida que visa a defesa de posições e políticas sanitárias embasadas na ciência para proteger o cidadão brasileiro.

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Paxlovid, a pílula da Pfizer contra a Covid-19

A farmacêutica americana Pfizer anunciou estudos clínicos com 2.246 adultos, que confirmaram que o candidato clínico para uso oral, o antiviral chamado de Paxlovid™ (PF-07321332; ritonavir), reduz em 89% o risco de hospitalização ou morte em adultos de alto risco infectados pela covid-19, em comparação com o grupo placebo e tem eficácia mesmo contra a nova variante Ômicron. O Paxlovid™ contém duas substâncias: ritonavir e nirmatrelvir. O nirmatrelvir atua bloqueando a enzima protease 3CL do Sars-CoV-2, inibindo a replicação do vírus em nossas células, enquanto o ritonavir é usado para diminuir a velocidade de metabolismo do nirmatrelvir. A administração envolveria uma dose de 300 mg de nirmatrelvir e 100 mg de ritonavir, duas vezes por dia no período de cinco dias.

Os dados foram compartilhados com a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA para a Autorização de Uso de Emergência (EUA). Essa pode vir a ser uma alternativa a mais na luta contra o vírus, mas de forma alguma o medicamento vai substituir as vacinas, pois será usado apenas em pessoas já infectadas pelo vírus.

Para finalizar 2021...

Com o início da aplicação de vacinas contra a covid-19, o ano de 2021 trouxe esperança para o Brasil. Mas nós vamos precisar continuar lutando. Os charlatães vão continuar firmes e unidos criando fake news assassinas dizendo que vacinas estão causando efeitos adversos graves e matando pessoas.

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Com o início da vacinação de nossas crianças de 5 a 11 anos, precisamos nos preparar para outra onda criminosa de desinformação e mentiras assassinas que os adeptos do movimento antivacinas vão criar, espalhando medo entre pais e mães, por meio de notícias falsas sobre mortes e efeitos adversos em crianças, sem relação causal com vacinas. Ao defenderem uma bandeira política antivacinas, criticando as medidas não farmacológicas, eles são os melhores aliados que o vírus poderia encontrar. No entanto, eles não têm nenhuma proposta para nos tirar desta grave crise sanitária. Eles são cruéis, defendendo o medo e o ódio. Mas a sociedade brasileira conta com um exército do bem, para defender as vacinas e a vida. Vamos nos vacinar! Cada pessoa vacinada nos deixa mais perto do fim da pandemia.

Observação: Os artigos publicados não traduzem a opinião do Jornal da Unicamp. Sua publicação tem como objetivo estimular o debate de ideias no âmbito científico, cultural e social.

Assista ao vídeo: Porque precisamos vacinar nossas crianças. Óbitos na faixa etária 0 a 19 anos por covid19