A Unicamp e a América Latina


Ilustra: luppa Silva A posição da Unicamp entre as universidades latino-americanas no ranking da Times Higher Education (THE) foi celebrada pela comunidade interna como reconhecimento dos esforços coletivos para a construção de uma universidade de referência no continente e no mundo. Passada a celebração e, para além das conquistas obtidas, fica a tarefa de se pensar quais os novos desafios e quais os compromissos da Unicamp com a América Latina.

A Unicamp recebeu e recebe muitos pesquisadores e estudantes dos países vizinhos. A internacionalização ocorre primordialmente com o trânsito e cooperações entre universidades que enfrentam desafios similares e inseridas em países com experiências culturais, sociais e políticas aproximadas. Em 1891, José Martí escreveu o ensaio Nuestra América no qual ele abordava a necessidade de que as elites e as universidades conhecessem os povos que compõem a sua realidade. A criatividade e as questões deveriam surgir a partir dos problemas efetivos da população e das sociedades, “sem vendas, nem disfarces; pois aquele que, por vontade ou esquecimento, deixa de lado uma parte da verdade, tomba, afinal, vítima da  verdade que lhe faltou”, segundo Martí.

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Ángel Rama, Antonio Candido, Antonio Cornejo Polar e Beatriz Sarlo

O desafio de se construir uma cultura universitária na América Latina foi retomado pelo manifesto dos estudantes de Córdoba, em 1918. A Reforma Universitária de Córdoba nos legou a defesa da autonomia universitária, a mudança no processo de ensino e de docência e a democratização da universidade, tanto em sua gestão como na garantia da permanência de estudantes de todos os grupos sociais.

Os que se dedicaram a pensar o lugar da universidade na América Latina não foram poucos. A juventude que ingressa no ensino superior representa grupos detentores do potencial de mudança. O argentino José Ingenieros (1877-1925) considerava que a juventude era a protagonista das transformações culturais para a construção de uma identidade que estava por ser construída nos planos ético, cultural, social, econômico e filosófico. Para ele, a universidade deveria acompanhar tal debate, distanciando-se de um modelo europeu e adquirindo feições próprias.


O entrelaçamento entre a Unicamp e a América Latina

Talvez muitos integrantes do atual quadro da Unicamp desconheçam a importância fundamental de professores e pesquisadores latino-americanos que vieram para a Unicamp em seus primeiros anos. Nas diferentes áreas de conhecimento há contribuições de vizinhos que, muitas vezes, fugindo das perseguições políticas das ditaduras locais encontraram, paradoxalmente, espaço na Unicamp dos tempos de Zeferino Vaz.

Dois relevantes encontros para o cenário intelectual latino-americano ocorreram na Unicamp. Em janeiro de 1980 e em julho de 1983, alguns dos pensadores mais importantes do continente como o uruguaio Ángel Rama e o peruano Antonio Cornejo Polar, a convite de Antonio Candido, reuniram-se no IEL para discutir a literatura latino-americana.  Dentre os maiores trabalhos de Rama, para além de sua obra de crítico literário, destaca-se o exitoso projeto da Biblioteca Ayacucho, que reuniu as principais obras de literatos, ensaístas e pensadores da América Latina. A argentina Beatriz Sarlo, editora da revista Punto de Vista, participou do evento de 1980 e publicou entrevistas com Rama e Candido, a partir do evento de Campinas, explorando pontos de vista sobre “unidade e conflito”, dependência cultural e outras questões que expressariam “um debate importante convocado no Brasil” no campo das letras e das humanidades.

Nos anos mais recentes, de forma pulverizada, cresceu o intercâmbio em outras áreas e são muitos os docentes, pesquisadores e estudantes que integram grupos de pesquisa em parceria com universidades e centros de pesquisa do exterior, além dos programas de mobilidade estudantil e de docentes. A internacionalização, pelos aspectos culturais, econômicos e geográficos, ocorre, sobretudo, entre latino-americanos.


Desafios comuns das sociedades latino-americanas

A América Latina entrou no século XX prenhe de expectativas de futuro. No contexto dos centenários das independências houve uma efervescência de episódios e questões que expunham a necessidade de construir caminhos e promover a emancipação dos países. A Revolução Mexicana (1910-1917), a Reforma de Córdoba (1918) e a Semana de Arte Moderna (1922), no Brasil, são exemplos dos deslocamentos vividos àquela época. Um século depois, muitos dos desafios continuam presentes e as universidades ocupam um papel central para identificar questões e propor soluções.

A integração latino-americana, como questão política e cultural, deveria ser assumida como uma tarefa central das universidades. A circulação do conhecimento e as cooperações culturais, científicas e tecnológicas são fundamentais para promover a autonomia do continente e almejar a emancipação dos países, sociedades e indivíduos.

A Unicamp deveria construir um Centro de Estudos Latino-americanos multidisciplinar reconhecendo algumas premissas como a defesa da democracia e dos direitos humanos,  o respeito às diversidades epistemológicas e culturais, o papel da ciência e da tecnologia como indutoras do desenvolvimento dos países, a questão da sustentabilidade e da biodiversidade, o combate ao analfabetismo e o aprimoramento da educação básica, os temas de saúde pública e o combate às enfermidades, o planejamento urbano e os desafios de cidades inteligentes e sustentáveis, além da produção artística e audiovisual.

Os processos de integração regional são inevitáveis e as universidades latino-americanas deveriam consolidar seus vínculos e compartilhar experiências, sobretudo em instantes de crise como o que vivemos na América Latina. Ações prioritárias nas áreas de energia, biocombustíveis, urbanismo, educação, ensino de línguas, artes e história são alguns dos tantos exemplos de cooperação e temas que um Centro de Estudos poderia priorizar e com referências para além da comunidade interna. A integração latino-americana, mais do que entre estados, deveria ser também entre as sociedades.

Muitas experiências individuais se perdem quando não somos capazes de pensar ou construir uma rede que congregue os esforços institucionais e particulares na produção dos conhecimentos e saberes. A Unicamp, com a ousadia que lhe é característica, não pode acomodar-se diante dos resultados obtidos, mas propor-se a continuar sendo referência entre as universidades latino-americanas e atraindo pessoas e projetos que nos imponham novos desafios e estimulem a produção acadêmica, cultural e científica.

As universidades são capazes de imaginar o futuro, com a juventude e as experiências que elas congregam. Pensar o futuro e propor soluções, de acordo com as nossas experiências e a realidade de latino-americanos, são tarefas para as quais temos que caminhar.

Nesse sentido, retomo as palavras de José Martí, em 30/01/1891, para nos inspirar nesse imenso desafio.

Conhecer é resolver. Conhecer o país e governá-lo conforme o conhecimento é o único modo de livrá-lo de tiranias.  A universidade europeia deve dar lugar à universidade americana. A história da América, dos incas para cá, deve ser ensinada minuciosamente, mesmo que não se ensine a dos arcontes da Grécia. A nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa. Nos é mais necessária (...).  Enxerte-se em nossas repúblicas o mundo; mas o tronco terá que ser o de nossas repúblicas. E cale-se o pedante vencido; pois não há pátria na qual o homem possa ter mais orgulho do que em nossas doloridas repúblicas americanas.