América Latina e(m) seus labirintos

Ilustra: luppa SilvaA América Latina é a terra das impossibilidades infinitas, segundo o escritor Alejo Carpentier (1904-1980). O território onde a realidade e a fantasia se entrecruzam vive um momento de peculiares e desagradáveis surpresas.  As notícias que chegam dos diversos países que compõem a América Latina nos remetem a uma série de crises econômicas, processos políticos e sociais violentos que ameaçam pequenas conquistas ou que reacendem os temores de práticas autoritárias e ditatoriais. Os países latino-americanos vivem, como em várias sugestões da literatura e do ensaísmo político, em seus labirintos. A imagem do labirinto é emblemática de um continente que se perde em si mesmo e não encontra uma saída para alguns impasses que persistem por séculos.

O México está conflagrado pelas disputas com o narcotráfico e pela absurda ideia de um muro nas fronteiras feito pelos Estados Unidos. Na América Central, o ex-líder revolucionário sandinista, Daniel Ortega, governa como um antigo caudilho que concentra poderes, persegue a oposição e adota as práticas das ditaduras que combateu no passado. Na Venezuela, a decadência do governo de Nicolas Maduro, é acompanhada do acirramento da crise política, com a prisão de opositores e o assassinato de mais de 70 pessoas em manifestações políticas nos últimos meses. Na Argentina, o governo de Macri está envolvido em obscuros casos de ocultação de dinheiro em paraísos fiscais, além da ineficiência dos ajustes econômicos que ampliam o desemprego e, num tema sensível para a comunidade universitária, promovem um desastroso desmonte na área da ciência e tecnologia. No Chile, a crise econômica e os escândalos de corrupção minam a popularidade de Bachelet. No Paraguai, as tentativas de arranjos políticos despertaram a ira da população que incendiou o Congresso Nacional.

A lista poderia prosseguir para confirmar a ideia de caos generalizado e a constatação do desencanto em um continente tradicionalmente marcado por dores e esperanças de superação.

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Caixões na fronteira EUA-México: lembrando aqueles que não conseguiram fazer a travessia

As questões, por certo, não sinalizam um quadro simples. Mas a metáfora dos labirintos expressa, por exemplo, em Borges, García Márquez e Octavio Ianni, indica mais do que a existência de sociedades aprisionadas em si mesmas. Indica que há uma questão de descobertas internas, de fragmentações e de histórias que não são compartilhadas ou reconhecidas por grupos e indivíduos. Identificar-se num labirinto não é o mesmo que estar condenado a uma trama insolúvel. Mas é, antes de tudo, a possibilidade de buscar a superação de discursos fatalistas que retiram das pessoas a condição de agenciamento de suas próprias histórias.

As crises atuais na América Latina dialogam com questões estruturais e com a incompreensão sobre saberes e histórias de povos e de sociedades muito diversificadas. As construções identitárias marcadas pelo fracasso e pelo peso do legado colonial ibérico são um modo de minar soluções criativas e práticas de acolhimento existentes nas diversas partes da região. As crises e os modelos labirínticos são, sobretudo, dos Estados, das elites que as gerenciam, dos vínculos de dependência explícitos em relação a modelos externos e, sobretudo, por um sentimento dos grupos dirigentes que insistem em ignorar ou reconhecer a pluralidade de histórias, experiências e resistências dos povos desse continente com mais de 625 milhões de habitantes.

O Brasil, resistente a se ver como parte da experiência latino-americana, interpreta que o restante da América Latina é um todo homogêneo que fala espanhol, que tem grande presença de culturas indígenas, tem ciclos políticos instáveis e que assiste telenovelas melodramáticas. A América é muito mais que isso. As identidades são construídas a partir de um imaginário que nega diferenças étnicas, sociais, culturais e de gênero e projeta algumas semelhanças. Na busca de elementos que buscamos incorporar ou negar, realizamos fragmentações e junções que descontextualizam as referências histórico-culturais que as produziram.

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Nas ruas de Caracas, capital venezuelana: acirramento da crise, com mortes e prisões de opositores |  Foto: Reprodução | Google Images

Na América Latina esse processo é marcado por longos silêncios e uniformizações. O termo “latino”, por exemplo, é uma invenção que enaltece as heranças da tradição europeia e obscurece a participação dos nativos deste continente e dos africanos trazidos para estas terras. Cria-se uma filiação que remonta às origens romanas e que pouco dizem sobre a América. Hoje, o adjetivo “latino” está associado ao subdesenvolvimento econômico e às precárias instituições democráticas apontadas pela Cepal partir da década de 1950, como demonstrou o professor Héctor Bruit, que ensinou na Unicamp até o seu falecimento, em 2007.

Mas, como pretendemos refletir em nossas colunas, a América é muito mais que isso. A América hispânica não é apenas um universo de fracassos ou de exotismos. Ela é um terreno de convivências que tensionam modelos e que buscam se reinventar diante de sonhos e aspirações que nem sempre são explicitados. A visão de instabilidade, que comumente se atribui à América, é um julgamento feito por lentes que desconhecem as matizes e articulações de um continente com muitas mazelas e potencialidades.

Para não mantermos uma visão estereotipada sobre a latinidade é fundamental que ampliemos nossos conhecimentos sobre processos históricos, inserindo discussões e informações de países que têm uma história que merece ser estudada e que estão em nosso cotidiano. A Unicamp, anualmente, recebe grupos de estudantes dos países vizinhos na graduação e na pós-graduação. As políticas de internacionalização estão diretamente relacionadas com os demais latino-americanos.

As questões da América Latina, portanto, devem ser explicitadas e demonstradas na força de sua cultura, no desenvolvimento das ciências e saberes, nas dinâmicas de sua história e suas contradições.  A saída dos labirintos, se for um desejo das sociedades e povos, só poderá ocorrer quando se puder olhar diante do espelho e saber reconhecer-se para além de modelos impostos externamente. Como na música do grupo Calle 13, que acompanha este texto inaugural, somos “Un pueblo sin piernas, pero que camina”.

Em tempos de integração caótica e de estranhamentos fica a advertência: é muito difícil pensar em qualquer forma de integração pautada no desconhecimento e no desmerecimento! E quiçá os labirintos nos estimulem, tal como na referência do universo literário, a pensar caminhos que não sejam intransponíveis.