Quando o ambiente não tem nome, por Mia Couto

Por Fabiana Barbi*

Mia Couto palestrou para a comunidade da Unicamp, em evento organizado pelo Nepam – Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais, em março de 2021. Em sua fala, ele que já foi jornalista e professor, e é também biólogo, abordou a questão da sustentabilidade, mudanças climáticas, antropocentrismo, simbiose, nossa própria identidade enquanto seres humanos, diversidade e a pandemia da Covid-19.

Destacamos aqui alguns trechos da sua falam que pode ser conferida na íntegra no Canal do Nepam no Youtube.

Sincretismo orgânico entre ambiente, sociedade, cultura e pessoas

 “O Brasil é outra pátria minha, que fui inventando mesmo antes de conhecer”. A segunda vez que o escritor esteve no Brasil foi na ocasião da Eco 92, no Rio de Janeiro, quando a questão do ambiente “girava a volta de uma palavra-chave, que era o desenvolvimento sustentável, quando esse termo da sustentabilidade foi inaugurado. De tanto ser usado, ficou saturado e quase vazio”.

E é a partir das palavras, que Mia Couto inicia suas considerações. Como escritor, ele indaga: “Como a linguagem, as palavras, traduzem aquilo que nós pensamos ser uma representação fiel da realidade?” E pondera que muitas vezes “as palavras andam a sabor de coisas que são agendas de momento, são vazadas, esvaziadas daquilo que era a sua primeira intenção”.

O escritor relembra um episódio de quando era professor na universidade e, numa aula prática com jovens estudantes, foram visitar um rio a 200 km da cidade de Maputo para ver o que já era uma preocupação central no âmbito da questão ambiental, mais uma palavra-chave, as mudanças climáticas: “Foram as trágicas cheias de 2000, quando quase um milhar de pessoas morreu e quase meio milhão tiveram que ser deslocadas dos seus lugares originais. Eu queria que naquele contato que tivessem com o rio, aqueles jovens olhassem para o rio não como uma coisa, não como um componente da geografia mas que percebessem o rio como uma entidade viva, como uma criatura que não existe apenas entre duas margens, apenas entre uma foz e uma nascente. Mas que partilhassem daquilo que é visão mais orgânica, que é visão das cosmogonias rurais de Moçambique. Por exemplo, as pessoas que contatamos ao longo da margem, ainda chamam o rio Limpopo pelo seu nome antigo Nonga ya nhimba, que quer dizer ‘o rio que engravida’. Para além dessa dimensão poética que em encantou, também há ali uma sabedoria sedimentada, uma percepção que foi construída ao longo do tempo, desse comportamento sazonal de um rio. Não é uma anormalidade. É assim que o rio nasceu, é assim que o rio vive, com esta periodicidade de inundações, foi assim que construiu aquele imenso vale.

Portanto, o assunto das alterações climáticas tem de ser visto como alguma coisa que não é completamente nova. Não estamos descobrindo uma coisa que era completamente ignorada. Essas pessoas tinham essa percepção, construíram todo o seu convívio com esta sazonalidade. Tem uma casa que se chama casa do chão, e em cima, a casa no planalto, que se chama a casa do alto. Há uma sabedoria que está viva, como está viva a língua daquela região, daquele povo.

Persiste essa sabedoria, as pessoas percebem pela chegada de certo tipo de pássaros, pela invasão de certo tipo de formigas aladas, percebem que estão perante a aproximação de um evento extremo. Essa percepção está traduzida numa língua que é diferente porque consta realmente de uma filosofia distinta. Não há palavra para dizer coisas que nós pensamos que são conceitos universais. Por exemplo, não existe palavra específica para dizer ambiente, palavra para dizer clima nas línguas moçambicanas de origem bantu.

Nós visitamos aquela aldeia no mês de novembro. E os meses nesta região são designados pela lua. Aquele mês tem um nome bonito que é a lua das cabras, que é o tempo que as cabras ficam grávidas. Há depois o mês que toma o nome da lua do vento, há diferentes luas conforme as estações que se vão sucedendo.

O fato de não haver palavra para dizer clima (ou palavra para dizer ambiente) não significa minoridade. Significa outra ideia, outra percepção em que não há essa distinção que foi criada nas filosofias europeias em que se separou aquilo que era cultura, aquilo que era sociedade e natureza. Há uma percepção, como no caso do clima, de que as chuvas são comandadas pelos deuses. Em algumas línguas do centro de Moçambique os médiuns, os xamãs, são chamados de vura, é o nome que se dá à chuva. Quer dizer, a chuva é uma espécie de linguagem, uma conversa entre deuses, é o modo como os mortos falam com os vivos. Esse diálogo é permanente e é desse equilíbrio entre essas esferas que foram apartadas noutras filosofias que se consegue uma harmonia social, uma estabilidade dentro da vida das pessoas.

Não queria que esse episódio fosse entendido no quadro de uma África que só existe quando se apresenta de forma exótica e folclórica, uma entidade única e pitoresca. Existem muitas Áfricas e uma grande parte do continente constrói-se no quadro da mesma modernidade que existe no mundo. O que eu quero dizer é que há um ensinamento das culturas mais antigas de Moçambique que não apenas estão vivas, mas que continuam sendo dominantes. O português não é a língua dominante em Moçambique, apesar de ser a língua nacional. Estão vivas mais de 25 línguas, que são as mais faladas no cotidiano do país.

Quero dizer isto porque me parece sofisticada essa filosofia que olha de modo sincrético e orgânico o meio ambiente, a sociedade, a cultura e as pessoas. É importante no momento em que há uma grande tendência de retirar o ambiente dos assuntos sociais e retirar as pessoas do ambiente, como se fosse a crise ambiental se resolvesse de uma forma técnica ou por ação de especialistas, ou de conferências internacionais. Como se o desiquilíbrio ambiental global tivesse que ter soluções puramente ambientais. Todos sabem que para resolver os desequilíbrios ambientais é preciso mexer na economia, tomar medidas políticas, mexer em tudo”.

Simbiose

Mia Couto revela que escolheu ser biólogo, aos 35 anos, exatamente porque a biologia tem uma abordagem “radical em termos daquilo que pode oferecer para o pensamento mais lato, as rupturas que sugere no modo como nos pensamos, o questionamento do nosso mundo. Por exemplo, o próprio conceito de ecologia como o estudo de uma casa que é nossa, mas que não nos pertence, que é uma casa coletiva com paredes vivas e partilhadas. Essa casa foi apropriada como sendo a casa da espécie humana que recebe os “outros”. O que quer dizer que o potencial subversivo da ecologia foi rapidamente recuperado e anulado. E os movimentos chamados de ecologistas voltam a centrar na espécie humana o que seria o sentido de posse, de administradores. O discurso ecologista é agora centrado no ser humano, porque sugere que os que estragaram o planeta vão ser os salvadores do planeta. A biologia introduziu conceitos que podem ajudar a mudar radicalmente a nossa visão de quem somos e nossa relação com os outros. A simbiose é hoje entendida como sendo um dos principais motores para a evolução biológica. Isto é, foi revista a ideia de que a competição era o único motor da chamada evolução e que legitimava a ideia de que os fortes vencem e os mais fracos são excluídos. De fato, muitos seres vivos e nós próprios conseguimos sobreviver porque fomos capazes de estabelecer relações de reciprocidade, de ajuda mútua”.

Diversidade da nossa própria identidade

Numa fala densa, Mia Couto afirma quenós não somos puramente humanos”. “Cada ser humano é composto por células não humanas e a maior parte delas são vírus, bactérias, que perfazem quase 70% das nossas células. Isso é sabido, mas parece não ter grande repercussão. Se esta diversidade de identidades for ensinada nas escolas desde os mais novos, é muito difícil que um menino, uma menina, andem depois à procura de uma qualquer pureza humana, seja ela racial, cultural ou genética. A biodiversidade não é um assunto exterior, algo que diga respeito à luta dos ecologistas. Os jovens que aprendam a olhar para si mesmos como uma mistura de identidades dificilmente serão adultos fascistas, racistas ou que defendam identidades puras ou totais”.

Covid-19 e a visão da vida

Para completar sua fala inicial, Mia Couto aborda a Covid-19:“O vírus que provocou esta pandemia nos obriga a rever alguma coisa que é antropocêntrica. Mesmo aqueles que combatem a favor de um meio ambiente mais equilibrado, reproduzem uma visão estreita da Vida como se os processos vitais ocorressem na dimensão do visível, dos oceanos, das florestas, dos ecossistemas, dos habitats. Na verdade, desde há alguns anos com Lynn Margulis e com James Lovelock, se percebe da importância daquilo que é o invisível. É na escala microscópica que residem os grandes mecanismos biológicos, as grandes fábricas da vida. Foram os vírus e as bactérias que inventaram tudo aquilo que são os motores que fazem com que a vida continue a estar viva ainda hoje. Portanto, é preciso que tenhamos uma visão mais alargada  do que é vida”.


Mia Couto, escritor moçambicano nascido em Beira, em 1955, tem exercitado, na lapidação da palavra, a arte de “reencantar” o mundo. Com mais de trinta livros, entre prosa e poesia, recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Seu romance “Terra Sonâmbula” é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.


Fabiana Barbi é pesquisadora de pós-doutorado no Nepam (Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais), participa do Laboratório LabGec (Social Dimensions of Global Environmental Changes in the Global South) e integra a rede de pesquisadores do Earth System Governance Project.