Audiodescrição: Imagem colorida de uma gota de água projetando uma planta no fundo.

A coluna Ambiente e Sociedade é um espaço de discussão crítica e analítica sobre as questões ambientais contemporâneas, dando ênfase às problemáticas concernentes às transformações para sociedades sustentáveis. Dentre outros, são abordados temas como mudanças climáticas, políticas públicas ambientais, biodiversidade, degradação ambiental urbana e rural, energia e ambiente, Antropoceno, movimentos ambientalistas, desenvolvimento e sustentabilidade, agricultura sustentável e formação de quadros na área.

Na curva do rio...

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O Rio Itaquaí deságua no Javari, afluente do Solimões, local próximo a cidades no entorno da tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. A região do Alto Solimões compreende os municípios de Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte.

Todos os pesquisadores que trabalham ou já trabalharam na região sabem que cartéis de drogas mantêm um Estado paralelo no Alto Solimões, na Amazônia. É um Brasil onde existe uma organização que impõe regras próprias às comunidades ribeirinhas, indígenas e trabalhadores locais e onde pesquisadores, jornalistas e indigenistas sofrem forte influência de grupos ligados a atividades ilícitas e ao crime organizado nas margens do Rio Itaquaí e arredores. Trata-se de mega esquema de transporte de armas, drogas, de pesca e caça ilegais e lavagem de dinheiro que conformam um sistema complexo em plena atividade pelos rios, florestas e cidades, que tem impacto na economia e sociedades da região.

Foi da comunidade de São Rafael que Pereira e Phillips partiram no último dia 5 de junho em direção a Atalaia do Norte, até não serem mais vistos.

Sem controle do fisco, o dinheiro dos cartéis se mistura ao de negócios constituídos para dar aparência de legalidade aos esquemas que aliciam comerciantes, atravessadores, pescadores, garimpeiros, caçadores e políticos locais.

Todos sabem também que os assassinatos, as emboscadas e a guerra civil correm soltos na região. O que parece peculiar nesse caso não é a barbárie, pois esta dá o tom das relações sociais por ali e são conhecidas e difundidas como retrato da barganha de poder local e regional. O que nos revolta especialmente é a queda das cortinas que enevoavam a cena dramática que permanecia distante aos olhares dos habitantes de outras regiões do país e do mundo. Desta vez mataram e esquartejaram um indigenista conhecido de todos e um jornalista estrangeiro. A importância de ambos colocou o crime e a força dos assassinos no centro do drama nacional e internacional.

A impunidade e a dança da irresponsabilidade das instituições e organizações governamentais que deveriam ser as guardiãs daqueles que trabalham e defendem os cidadãos locais foram jogadas na cara na nação brasileira.

A própria Funai, que deveria velar pela segurança de aldeias e do trabalho em terras indígenas, sofreu um desmonte, como tinha anunciado o Presidente da República durante a campanha eleitoral de 2018: “se depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena”. Além de corte de recursos e do enfraquecimento da legislação de proteção de terras indígenas, Bolsonaro tentou subordinar a Funai aos interesses do agronegócio abrigados no Ministério da Agricultura, o que só não ocorreu graças as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Foi igualmente revelador que o delegado da Polícia Federal e atual Presidente da Funai já tivesse declarado sua vocação para “dar tapa na cara de vagabundo” e desclassificado a viagem de Bruno e Dom, considerada “temerária” e “sem autorização”

Pesquisadores trabalham nessa e em outras regiões pouco habitadas da Amazônia brasileira. Ora sozinhos, ora acompanhados por alunos, alunas, colaboradores e colaboradoras, eles alugam barcos, contratam a tripulação e viajam sem grandes temores por todas essas bandas, sentindo-se protegidos pelas instituições que representam, como universidades públicas e agências de financiamento. Contam também com a proteção e abrigo que proporcionam os sujeitos da pesquisa. Mesmo caminhando e navegando por áreas de conflito, que eram seu objeto de investigação, eles não experimentavam em outros tempos, em momento algum, a sensação de estar em uma terra sem leis.

Alguma coisa mudou e não foi pouca coisa. A transformação na Amazônia foi drástica, foi algo que estilhaçou as relações sociais locais e regionais. E as relações dela com o mundo.

Se estiver correto o um líder indígena quando afirmou que “a Natureza é o espelho de Deus”, é de supor que Ele não esteja feliz com a imagem refletida na natureza da Amazônia.

Onde estavam todos meu Deus? Talvez indo atrás de outras faunas, em outras curvas de rio.


 

LÚCIA DA COSTA FERREIRA é pesquisadora do Nepam e professora dos programas de doutorados em Ambiente e Sociedade e em Ciências Sociais da Unicamp. Coordenadora da equipe brasileira do projeto Transformações para sustentabilidade na mineração de ouro de pequena escala na Amazônia brasileira: uma perspectiva multi-ator e transregional (FAPESP Processo nº 2018/50033-6), do Programa Conjunto de Pesquisa Belmont Forum /NORFACE Joint Research Program on Transformations to Sustainability e Transformations to Sustainability. E-mail: luciacf@unicamp.br.

ROBERTO PEREIRA GUIMARÃES é Ph.D em Ciência Política, autor, entre outros, de The ecopolitics of development in the third world e The inequality predicament: report on the world social situation. Atuou como coordenador técnico nas Conferências Rio-92, Rio+5 e Rio+10d, desempenha atualmente as funções de presidente do Comité Director de IfE - Initiative for Equality (UN ECOSOC Consultative Status). E-mail: robertoguimaraes@hotmail.com.

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