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"Em poucos traços" é uma coluna assinada por Alexandre Soares Carneiro, professor assistente doutor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL).

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É possível ensinar o ensaio?

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Jean Starobinski questionou a possibilidade de se definir essa forma singular. Para caracterizá-la, investigou os usos da palavra desde a época em que Montaigne, batizando seu livro como Ensaios (1580), inaugurou o gênero. Tentativa e exame são algumas das acepções identificadas, traduzindo as noções antagônicas de “experimento preliminar” e “verificação exigente”. Haveria ainda o surpreendente sentido de enxame, que faz pensar na pluralidade verbal e de ideias instituída por esse tipo de escrita. Essa mutabilidade do ensaísmo se reflete em seus desdobramentos, que podem ir da coletânea de aforismos ao poema em prosa, da crônica ao estudo acadêmico, do perfil jornalístico ao prólogo e outras expressões da crítica.

Minha descoberta do ensaio se deu por meio de autores que, dedicando-se à reflexão sobre a literatura, produziram, eles mesmos, textos com valor literário. Na forma de abordar uma obra havia algo atraente e, ao mesmo tempo, útil para o entendimento dos seus traços essenciais — justamente, seus aspectos formais. Dir-se-ia um contágio entre sujeito e objeto, implicando admiração e estímulo. Isso motivaria uma escrita compatível com a qualidade artística da obra tratada, junto ao esforço de trazer à luz alguns de seus segredos. O resultado seria uma decodificação inicial, permitindo ao leitor uma interação mais proveitosa com a obra; uma compreensão aprimorada e o prazer de sua redescoberta — prodesse et delectare.

Vem-me à lembrança o texto de Antonio Candido intitulado “A vida ao rés do chão”, prefácio a uma coletânea de cronistas brasileiros do século XX, que li ainda no Ensino Médio. Além de elucidar com acuidade aspectos da crônica (gênero que remonta ao “ensaio familiar” britânico), o crítico nos oferece uma percepção bastante pessoal dos autores apresentados. Os escritos aparentemente despretensiosos de Braga, Sabino, Drummond e outros ganhavam novas camadas e davam ensejo a associações surpreendentes. A sensação se repetiu com textos de Alexandre Eulálio (sobre Helena Morley), Augusto Meyer (Machado de Assis), Paulo Rónai (Jorge de Lima) e Drummond (Pedro Nava). Ensaístas dessa espécie iluminam nossa literatura e ilustram nossa prosa.

Tal exigência estética e intelectual convivia, paradoxalmente, com uma abordagem mais distensa, comparada às visões teóricas apresentadas na universidade. Naqueles autores, eu identificava o convite a uma discussão embasada, mas sem pretensões científicas ou doutrinárias. No século XVIII, Hume estabelecia seu projeto ensaístico tendo por modelo uma conversação erudita, porém polida, com pitadas de galanteria. Na antiguidade e no renascimento, o lazer estudioso, convivial, nutria gêneros como o diálogo e a carta. O vínculo do ensaio com a conversação ecoa em coletâneas de ensaio importantes, do Table Talk de Hazlitt à Discusión de Borges e à Conversa de livraria de Drummond. 

No contexto do ensino da literatura brasileira, o estudo do ensaio ampliaria o corpus de textos literários, agregando (ao lado da crônica, já bem assimilada) a prosa não ficcional de autores reconhecidos, de Alencar a Nelson Rodrigues, passando por Machado, Bandeira, Drummond e Rosa, muitos deles discutindo a produção própria ou alheia. Seria possível incorporar, a esse corpus escolar, ensaístas de alcance internacional como Bacon, Addison, Lamb, Chesterton, Orwell, Emerson, Borges, explorando a história do gênero a partir de seus momentos altos. Alguns capítulos de Montaigne me parecem igualmente compatíveis com o Ensino Médio.

Já a produção textual na escola poderia absorver da experiência ensaística alguns ensinamentos. Por exemplo, a consciência da elaboração não apenas conceitual mas também literária implicada em textos de reflexão; a relevância de aproximar-se do leitor em um registro franco, amistoso e vívido. O espírito da conversação autorizaria, quem sabe, uma entrada mais pessoal na discussão sobre objetos culturais, equilibrando as análises especializadas com a apreciação livre das obras. A experiência de ler e escrever ensaios, na vertente aqui vislumbrada, valorizaria um impulso de experimentação intelectual e imaginativa; estimularia, assim, uma certa consciência autoral e abalaria a supremacia da dissertação, tornada artificial por seu vínculo com os vestibulares.

As dificuldades são muitas, como verifico ao propor esse tipo de atividade a estudantes universitários. A cada semestre, tento aprimorar as explicações prévias sobre o gênero, antecipando-me a alguns equívocos comuns. Um deles é a confusão entre a voz pessoal e o egocentrismo. A licença para uma abordagem idiossincrática pode desencadear elucubrações vagas e sem impacto. Um exercício importante é encontrar, em meio a devaneios, núcleos passíveis de desenvolvimento, ancorando a escrita a objetos bem circunscritos — uma obra, um autor, etc. —, no espírito dos ensaístas mencionados. Recorrendo a uma citação, costumo lembrar que, no ensaio, a pessoalidade “não é uma subjetividade entregue a si mesma, mas uma interioridade em busca de sabedoria” (como diz Fumaroli sobre as cartas de Sêneca).

Outra orientação necessária diz respeito ao viés problematizador frequente na abordagem ensaística. Ele não é a denúncia de males da sociedade, desses que reclamam respostas contundentes, dedutíveis dos lugares-comuns do bom-mocismo juvenil característico das redações pré-universitárias. Comenta Merleau-Ponty sobre os Ensaios de Montaigne: não se trata de resolver o problema do homem, mas de descrever o homem como problema. A problematização ensaística remete à investigação filosófica de cunho cético (de skepsis: pesquisa, exame). Um problema, mesmo socialmente urgente, é encarado pelo ensaísta como questão intelectual. Diante de sua complexidade, qualquer solução tem o valor de hipótese, a ser pesada ao lado de outras, mantendo-se a consciência da “trágica potência do erro” (valendo-me novamente de Fumaroli).

Caberia atribuir essas dificuldades ao declínio de uma cultura da conversação, com suas características de clareza, franqueza e pertinência (e humor)? De resto, o amadurecimento reflexivo depende de um repertório de leitura incomum entre jovens. Mas é preferível que ele erre, e se recupere, com seus próprios recursos, indiferente a fórmulas que prometem segurança; e apegando-se aos objetos, como um amador, no sentido etimológico da palavra. No caminho, formará seu próprio cabedal, pois a skepsis pressupõe a pesquisa contínua dos tópicos dignos de serem investigados. Aos poucos, quem sabe, ele se livrará também de um vocabulário pesadamente acadêmico, desnecessário nas interações normais. É o que nos sugere a leitura de eruditos como Daniel Arasse, Antoine Compagnon, Anthony Grafton e tantos outros.

Esse texto é um artigo de opinião e não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.

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