Toda vitória tem um início

Tradição da Unicamp com esportes paralímpicos contribuiu para a consolidação do esporte adaptado

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Projetos de extensão universitária e eventos esportivos contribuem para o desenvolvimento do esporte paralímpico (fotos: Antonio Scarpinetti)


A tradição da Unicamp na promoção dos esportes para pessoas com deficiência teve início com uma iniciativa simples: oferecer uma disciplina aberta a qualquer aluno interessado em atividades físicas. O projeto foi iniciado pelo professor José Luiz Rodrigues, da FEF. Assim surgiu a disciplina “Educação Física ao Alcance de Todos”, em 1987. No início, não era direcionada a pessoas com deficiência, mas a procura na Universidade chamou a atenção para o potencial que existia ali. 

"A primeira pessoa que apareceu para fazer inscrição na disciplina foi uma aluna cadeirante, do curso de Ciências Sociais. Ela dizia: 'adoraria praticar atividades físicas, mas na escola eu era dispensada'. Garanti que lá ela teria espaço", lembra José Luiz. Outros alunos com deficiência se uniram ao grupo e participaram de atividades que começaram como brincadeiras, passando à recreação conduzida, até adquirirem o formato do esporte.  

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Unicamp foi sede de importantes eventos científicos dedicados às atividades físicas adaptadas (foto: Antonio Scarpinetti)


Outros professores da FEF passaram a desenvolver projetos de atividades adaptadas. Além de José Luiz, Edison Duarte, Ana Isabel Figueiredo, Paulo Ferreira de Araújo e José Júlio Gavião de Almeida buscaram novos conhecimentos na área para viabilizar oportunidades esportivas a pessoas com deficiência e ensinar aos alunos de Educação Física a trabalhar com esse público.

"Quando estudei Educação Física, o curso tinha um caráter tecnicista, algo comum na época. Até o início dos anos 1990, a maioria dos professores tinha esse tipo de formação", relata Júlio Gavião. Entre novas abordagens teóricas e práticas esportivas, alunos e professores ampliaram as possibilidades de atuação profissional e incluíram mais pessoas na vida da Universidade. “Em minhas aulas eu dizia que, na medida em que você se prepara para trabalhar com pessoas com deficiência, você está pronto para trabalhar com qualquer pessoa", reflete José Luiz. 

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Pesquisas realizadas pela Unicamp dão bases para a formação de novos treinadores e atletas (foto: Antonio Scarpinetti)


A partir de 1990, durante a gestão do professor Ademir Gebara à frente da FEF, uma reorganização da faculdade tornou possível criar o Departamento de Estudos da Atividade Física Adaptada (Deafa), uma iniciativa pioneira entre as universidades do país. Isso impulsionou a oferta de disciplinas, cursos de especialização e uma linha de pesquisa nos cursos de mestrado e doutorado da unidade. "Nossa faculdade foi a primeira a oferecer toda uma formação voltada ao esporte adaptado, da graduação ao doutorado”, sintetiza Edison Duarte. 

Outro aspecto determinante foram os projetos de extensão oferecidos à comunidade. Além de trazerem pessoas com deficiência para a Universidade e proporcionar aos alunos experiências diferentes daquelas da sala de aula, as modalidades adaptadas ganharam forma e hoje estão presentes nos Jogos Paralímpicos. Também houve um importante fomento a competições esportivas em parceria com entidades como o Comitê Paralímpico e a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV). Em 1998, docentes e alunos participaram ativamente na organização do primeiro Campeonato Mundial de Futebol de 5, que, por problemas de mau tempo, foi transferido do campus de Barão Geraldo  para a cidade de Paulínia. 

O mesmo ocorreu com a formação de paratletas no país. "Hoje temos aproximadamente 120 esgrimistas em cadeira de rodas no Brasil. Para efeito de comparação, o Canadá tem menos de 50. Nos Jogos Olímpicos, o Brasil nunca ganhou uma medalha nessa modalidade. Já nos Paralímpicos, conquistamos uma medalha de ouro em Londres, em 2012, e uma de prata em Tóquio. Tudo isso nasceu dentro da Unicamp", pontua Edison Duarte. 

"A Universidade dá saltos enormes quando vai para fora de seus muros, levando  conhecimento”, reflete Júlio Gavião. “O mesmo ocorre quando traz conhecimentos e experiências que estão do lado de fora”. A tradição em formar profissionais com habilidades técnicas e sensibilidade necessária para promover a inclusão fez com que o esporte paralímpico e a ciência rompessem fronteiras, chegando a diversas regiões do país e da América Latina. 

Da Unicamp para o mundo

Foi com o incentivo da mãe, que havia cursado um mestrado em Letras na Unicamp, que Marília Magno saiu de Belém para ser aluna de especialização em Ortopedia e Traumatologia na Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Formada em Fisioterapia, ela teve a oportunidade de atuar junto a pessoas com deficiência como voluntária em competições paradesportivas. 

"Aquele mundo esportivo me encantou, decidi estudar algo relacionado à área. Para minha surpresa, descobri que a Unicamp era um berço do esporte para pessoas com deficiência e da atividade física adaptada", conta. Marília passou a se envolver com os projetos da Faculdade e a atuar como voluntária em eventos promovidos pelo Comitê Paralímpico. Em 2008, ingressou no mestrado em Educação Física. "Consegui vincular a vivência do esporte com a pesquisa, desenvolvi uma trajetória de estudos das lesões esportivas no esporte paralímpico". 

O envolvimento com as atividades da pós-graduação levaram Marília para destinos que foram além do roteiro Belém-Campinas. Durante a organização de um congresso de atividades físicas adaptadas, surgiu o convite para aprofundar seus estudos na Universidade de Bath, na Inglaterra. O período não poderia ter sido mais propício para a doutoranda: logo após a conclusão do estágio na universidade, ela integrou o quadro de profissionais que atuaram nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, junto à Associação Paralímpica Britânica. 

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Marília Magno: "Consegui vincular a vivência do esporte com a pesquisa". Pesquisadora desenvolveu parte do doutorado em Londres e participou dos Jogos Paralímpicos de 2012 (fotos: acervo pessoal)

Marília é hoje docente da Faculdade de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal do Pará (UFPA). Além de compartilhar com seus alunos as experiências proporcionadas pela Unicamp, ela levou consigo o espírito de pioneirismo. Em parceria com um colega de pós-graduação da FEF, Anselmo de Athayde Silva, organizou o primeiro programa de pós-graduação em Ciências do Movimento Humano da região Norte, incluindo nele uma linha de pesquisa voltada a pessoas com deficiência. Também desenvolve projetos com o objetivo de aproximar a UPFA do esporte paralímpico regional, de forma a se adequar à realidade amazônica. 

"A Unicamp nos faz ter esse olhar. Desde o período como aluna especial, me encantava chegar na FEF e ter aulas de rugby e esgrima em cadeira de rodas, e ver que quem realizava tudo isso eram os alunos. Os professores estavam lá como coordenadores, mas eram os alunos que montavam e aplicavam os treinos”, ressalta Marília. Ela espera poder replicar no Pará o aprendizado obtido na Unicamp: "Não consigo pensar no desenvolvimento de boas pesquisas desvinculadas da extensão". 

Cristián Luarte também pode levar a vivência com o esporte paralímpico para outras regiões, neste caso da América do Sul. Em seu doutorado na FEF, ele contou com o apoio de docentes da Unicamp para criar a primeira pós-graduação em atividades físicas e esportes adaptados no Chile. Graças à iniciativa, a Universidade San Sebástian, na cidade de Concepción, tornou-se um centro de formação de profissionais de Educação Física dedicados ao trabalho com pessoas com deficiência. 

"Pouco a pouco, fomos dando um impulso para o desenvolvimento desta área, e elaboramos diretrizes para a formação de novos profissionais no país. Hoje já temos uma boa quantidade de pessoas formadas desenvolvendo trabalhos importantes", explica Cristián. Assim como no Brasil, o projeto também busca estreitar laços com instituições de apoio à pessoas com deficiência, como o Teletón Chile e o governo da Região Administrativa de Bío-Bío, onde a universidade está localizada.  

Cristián ressalta que o aprendizado na Unicamp o estimulou a criar pontes entre os países latino-americanos, na busca por integrar o continente por meio da inclusão: “Alguns de nossos alunos já integram o Comitê Paralímpico Chileno e estão vinculados também a outros comitês, como o brasileiro. No último ano, tivemos um grupo de egressos que também passaram pela Unicamp, com quem formamos a Federação Sul-Americana de Atividade Física Adaptada, que pretende incluir todos os países da América do Sul".

Diante dos exemplos que ilustram a tradição da Unicamp em impulsionar o esporte paralímpico brasileiro e sul-americano, o diretor-associado da FEF, professor Odilon Roble, analisa a vocação da unidade de formar pessoas capacitadas e com sensibilidade para a inclusão: “O Departamento de Atividade Física Adaptada tem uma relação histórica com o esporte adaptado, formou vários atletas, deu suporte técnico a competições, foi um celeiro de formação de treinadores. Temos excelência e vocação na formação de pessoas". 

Imagem de capa JU-online

Esporte paralímpico brasileiro