‘Inferno e Paradiso’: do iconográfico ao literário

Obra retrata representações do Juízo Final na pintura toscana do século XIV

Entre as três imagens recobradas pela memória ao se pensar iconograficamente em Cristianismo figuram, usualmente, o Apocalipse, a Ressureição e o Juízo Final. O impalpável imaterialismo que costura essas imagens, rascunhado e concretizado no que se convencionou chamar Renascimento, é pauta principal da obra da professora do Instituto de Artes da Uerj Tamara Quírico, que, após defender a sua tese de doutorado sobre o tema,  a adaptou a uma linguagem mais palatável nessa prática edição da Editora da Unicamp. Assim, em Inferno e Paradiso: As representações do Juízo Final na pintura toscana do século XIV, entramos em contato com 33 obras que, através do diálogo íntimo com fenômenos literários, naturais, populares e até de saúde pública, relativos ao período e à região em que foram compostos, ditaram a iconografia de todo o Ocidente por séculos.

Não existe uma passagem do Novo ou do Velho Testamento especialmente dedicada ao relato do Juízo Final como ocorre com o Apocalipse, por exemplo, o que minguou suas fontes interpretativas.  Por conta dessa ausência de escritos, os artistas que se dedicaram a esse retrato iniciaram o trabalho apenas no século IX, para só no XIII obterem destaque. Baseavam-se, de início, no repertório oferecido por temas análogos – Apocalipse – ou que perpassavam por aquele suscitado no Julgamento – como a Paixão de Cristo e a Ressureição. Os quatro animais flanqueando o Cristo, o trono no qual ele está sentado, o local em que está o livro da vida e da morte, o arco-íris em torno dele, a presença da Arma Christi e dos estigmas são exemplos de imagens que figuram o Apocalipse e foram amplamente utilizadas no início dessas produções artísticas.

O tema passou a ter seus próprios elementos iconográficos apenas no século XIII, um centenário antes de sua primeira grande revolução: o ciclo do Trionfo dela Morte do Composanto de Pisa, provavelmente executado por Buonamico Buffalmacco. Neste, os gestos do Cristo Juiz demonstravam maior assertividade a respeito dos danados e dos escolhidos, diferentemente da imparcialidade de Cristo até então. Com efeito, nessa versão encontramos Cristo totalmente voltado para a sua esquerda, com seu braço direito levantado na direção dos condenados, quase como se os quisesse castigar fisicamente, enquanto a mão esquerda abre o quinto estigma no peito, deixando claro que, após tanto penar pela humanidade, só ele seria capaz de julgá-la.

Quírico “borda” uma colcha composta por mosaicos, murais e afrescos dos quais Buffalmacco e Giotto fizeram parte, remontando o imaginário da escatologia medieval e pondo à prova a teoria que coloca a grande enchente de Arno ou a Peste Negra como influências na visão reinante do Juízo Final. A autora dialoga ainda com o fenômeno cultural da Commedia de Dante e com a influência das filosofias dominicanas e franciscanas nas reconfigurações posteriores, ao longo do século XIV, das representações do Juízo. Traçando uma possível amizade entre Giotto e Dante por meio da qual as obras de ambos se retroalimentavam, a autora elucida tanto ícones explicitamente dantescos, que fariam parte do imaginário iconográfico posterior do Inferno, quanto detalhes do mosaico atribuído a Coppo di Marcovaldo no teto do Batistério de San Giovanni, influentes na composição infernal do autor renascentista.

Ao se debruçar sobre o porquê de a cultura franciscana exercer tamanho poder nas representações, a ponto de frades franciscanos sempre serem identificados entre os eleitos, e frades de outras ordens estarem somados aos danados, a pesquisadora nos entrega detalhes sortidos de uma realidade ainda enigmática: foi no período de popularização dos sermões incitando a penitência e a mendicância, redigidos por ordens dominicanas e franciscanas, que a arte e a literatura viram-se no dever de conversar com a massa iletrada que frequentava as sabatinas, celebrando a penitência, a virtude, a maldade e a punição em um detalhamento das punições infernais.

Em Inferno e Paradiso, Tamara Quírico demonstra o amadurecimento e a relevância de uma pesquisa semeada desde a sua graduação. Ainda assim, por mais fluida e despretensiosa que a leitura do livro seja, seu acesso é limitado à maioria da população. Infelizmente, tanto o reduzido espaço na grande imprensa para uma efetiva divulgação desse e de outros estudos de pós-graduação quanto a carência de meios de divulgaçã­o alternativos que escrevam sobre o tema sem academicismos corroboram a mistificação da pesquisa universitária, seus participantes e a efetividade de seu produto final.


ReproduçãoSERVIÇO

Título: Inferno e Paradiso - As representações do Juízo Final na pintura toscana do século XIV

Autor: Tamara Quírico

ISBN: 978-85-268-1081-5

Edição: 1ª

Ano: 2014

Páginas: 232

Dimensões: 14 x 21 cm

R$ 58,00

 

 

 

 

 

 

Imagem de capa JU-online

Imagem: Reprodução | Editora Unicamp