Sustentabilidade só é possível com bem-estar coletivo

Segundo tese defendida na Feagri, conceito está na base das ações das comunidades que vivem em dois assentamentos rurais na Amazônia norte mato-grossense

A sustentabilidade dos assentamentos rurais na Amazônia norte mato-grossense está ameaçada pela chegada da soja na região. Por causa desse processo, já foram registradas mortes de várias culturas agrícolas, o que compromete a produção orgânica, além da contaminação de pessoas em razão do uso excessivo de agrotóxicos. A despeito disso, os trabalhadores rurais da região demonstram resiliência e seguem comprometidos com práticas produtivas que não agridem o ambiente e que buscam o bem-estar da coletividade. A constatação faz parte da tese de doutorado defendida pelo engenheiro agrônomo Wagner Gervazio na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, sob a orientação da professora Sonia Bergamasco.

O objetivo do trabalho foi avaliar a sustentabilidade dos assentamentos rurais daquela região. Gervazio tomou para análise o Assentamento São Pedro, localizado a 54 quilômetros da sede do município de Paranaíta, e o Assentamento Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) São Paulo, distante cerca de 50 quilômetros da cidade de Carlinda. Os assentamentos apresentam características distintas, desde o histórico e a forma de ocupação até os modelos de organização e produção.

O primeiro foi criado em dezembro de 1997 e possui 776 lotes, distribuídos em 22 comunidades, nas quais vivem 3.500 pessoas. A área total é de 35 mil hectares. A principal atividade econômica é a pecuária de leite. O segundo é resultado da luta de trabalhadores pela terra. Durante dez anos, os sem-terra ficaram acampados no local, vivendo em barracos de lona. Em 2012, o PDS foi criado. O assentamento está organizado por parcelas de 50 hectares cada. Destes, 18 são de uso individual por família. Os demais 32 hectares constituem Reserva Legal Coletiva. A área abriga 46 famílias. As principais atividades econômicas são a pecuária do leite e a fruticultura.

Para analisar os assentamentos, Gervazio considerou o conceito de sustentabilidade baseado no entendimento de “bem viver” dos povos originários da América. O modelo está focado no equilíbrio e na centralidade da vida e é orientado pela ética da suficiência para toda a comunidade e não somente para o indivíduo. “Considerando esses pressupostos, trabalhamos o conceito de sustentabilidade a partir dos saberes dos sujeitos, ou seja, os agricultores e agricultoras. Conforme esse entendimento, a sustentabilidade deve ser concebida a partir das concepções culturais, das narrativas, das percepções e da cosmovisão das pessoas envolvidas no processo”, explica o pesquisador.

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O engenheiro agrônomo Wagner Gervazio, durante a defesa da tese: “A melhor forma de avaliação da sustentabilidade nesses assentamentos se dá por meio da coletividade e da participação, à luz do contexto histórico e dialético”

A melhor forma de avaliação da sustentabilidade dos assentamentos rurais da Amazônia norte mato-grossense, continua o autor da tese, se dá por meio da coletividade e da participação, à luz do contexto histórico e dialético. Para analisar mais profundamente essa questão, o pesquisador desenvolveu um método didático-pedagógico denominado “Círculos da Sustentabilidade”. As bases utilizadas foram fornecidas pela educação popular de Paulo Freire, Carlos Rodrigues Brandão e Orlando Fals Borda. Gervazio também se valeu do “Marco para a Avaliação de Sistemas de Manejo de Recursos Naturais Incorporando Indicadores de Sustentabilidade” (MESMIS), ferramenta de gestão ambiental.

Ao todo, foram avaliados cinco pontos gerais, a saber: círculo de investigação de temas geradores, círculo da história do mundo dos sujeitos, círculo de diagnóstico dos assentamentos rurais, círculo de troca de saberes e círculo das percepções e narrativas sustentáveis. De forma desdobrada, no PDS São Paulo foram analisados 28 aspectos, entre eles luta pela terra, coragem, esperança, resiliência, coletividade, produção do leite, água, família e amor. “Agrupamos essas categorias nos sete pilares que sustentam o assentamento - história, organização, produção, ética, política, preservação e religiosidade”, detalha o engenheiro agrônomo.

Já no Assentamento São Pedro foram consideradas 18 categorias, como terra, união, produção, cooperativa, permanência da juventude, renda, fé e continuidade. Estas também foram reunidas em cinco pilares: produção, organização, formação, preservação e a religiosidade. “O objetivo dessa abordagem foi realizar a codificação da realidade do mundo dos agricultores familiares nos assentamentos rurais. Para o desenvolvimento desse ponto, fez-se necessário a vivência nos assentamentos. Durante a nossa vivência nos locais, realizamos observação do universo socioeconômico, ambiental e cultural dos agricultores familiares”, relata o autor da tese.

Indagado sobre quais as principais conclusões do trabalho, Gervazio elencou três pontos. O primeiro foi a constatação e que a melhor forma de avaliação da sustentabilidade dos assentamentos rurais da Amazônia norte mato-grossense se dá, como já mencionado, por meio da coletividade e da participação, à luz do contexto histórico e dialético. Além disso, restou comprovado que a sustentabilidade é um processo histórico e dialético, e esta experiência difere entre si por causa da história, da forma de ocupação, do modo de organização e do conceito de bem viver. “Por último, pudemos verificar que os agricultores familiares usam saberes e conhecimentos para avaliarem a sustentabilidade dos assentamentos rurais”, afirma o pesquisador.

Durante a pesquisa, Gervazio participou de programa de doutorado sanduíche junto à Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), onde foi orientado pela professora Ana Isabel Moreno-Calles, que lhe apresentou o conceito de sustentabilidade a partir do bem viver. No entendimento do pesquisador, o método desenvolvido pela investigação ofereceu resultados que podem e devem ser utilizados como subsídios para a elaboração de políticas públicas para agricultores familiares. “Para isso, sugerimos a apresentação dos dados da pesquisa às autoridades locais. Se aprofundados com os sujeitos, esses dados podem concretamente contribuir para a transformação de práticas agroecológicas nos assentamentos rurais da Amazônia norte mato-grossense”, entende Gervazio, que contou com bolsa de estudo concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Atualmente, ele é consultor independente do Instituto Centro de Vida (ICV) e residente numa comunidade rural em Alta Floresta - MT.

 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: em área coberta aberta, imagem frontal e de corpo inteiro, círculo formado por cerca de dez pessoas sentadas em cadeiras plásticas amarelas. Ao fundo, à direita, parte de uma carroceria de madeiras, e à esquerda, parte de uma área gramada e ensolarada. As pessoas usam roupas informais, como camiseta e chinelo, e algumas seguram caneta e folhas de papel. Ao centro da roda, há algumas folhas de papel sulfite no chão. Uma mulher escreve em folha de papel sobre uma mesa plástica. Imagem 1 de 1.