Doutrinação é repetição de opiniões sem as evidências

Ilustração: Luppa SilvaÉ assustadoramente frequente ler nos comentários de postagens no Facebook a exortação "vagabundos, comunistas e maconheiros" em referência a não sei exatamente quem, mas certamente ao vasto e diverso mundo universitário. Nas discussões mais recentes, universidades promoveriam um "aparelhamento de esquerda". Fala-se (e, pior, repete-se) em "caixas-pretas" (não são, basta perguntar ao Tribunal de Contas do Estado, no caso das universidades estaduais paulistas), "fábricas de militantes" (sim, eles existem em todos os lugares, mas nunca vi uma linha de produção deles, para manter a metáfora) e em centros de "doutrinação ideológica" da nossa juventude. A repetição dessas alocuções leva à percepção, em que as lê e ouve, de que são verdades. Pois bem, onde estão as evidências? Já ouvi assertivas do tipo: "todo mundo sabe, você sabe, afinal está lá dentro (de uma universidade)". Coço a cabeça e lembro: sim, já falei de alguém que é de esquerda e que falou não lembro o quê. E assim na cabeça do meu interlocutor, no calor da tertúlia, o alguém, que pensa não sei o quê, transforma milhares de professores e em uma horda de doutrinadores do "marxismo cultural". Buscando por "doutrinação e universidade" no oráculo digital, surgem peças noticiosas e de opinião, caracterizadas pela repetição dos slogans e relatos de caso, mal contados muitas vezes, que se generalizam facilmente na retórica praticada. Mencionei acima que me pergunto onde estão as evidências disso. No caso eu preciso definir o que estou chamando de evidência: "o conjunto de informações utilizados para confirmar ou negar uma hipótese". Vejam bem, conjunto de informações e hipóteses bem formuladas.

Em Português encontro poucas evidências sobre isso, mas em língua inglesa a discussão, bem como a busca por evidências (científicas), é mais abundante. A polêmica Secretária de Educação dos Estados Unidos, Betsy DeVos, fez a acusação de que docentes (de esquerda, claro) estariam dizendo aos estudantes o que eles devem pensar, ou seja, fariam doutrinação ideológica. Por lá, no entanto, há uma longa tradição de pesquisa na área. Algumas são citadas no artigo do Inside Higher Education, que alinhava algumas contribuições, anunciando na linha fina: "DeVos...reacende o debate no qual a pesquisa é abundante. Estudos dizem que docentes tendem à esquerda, mas contestam a ideia de que isso resulte em doutrinação e que prejudique os conservadores (direita)” [I] . O tema, como disse, é discutido por lá há bastante tempo e o verbete "Visões políticas de acadêmicos americanos" [II] na Wikipédia é extenso, trazendo vasta bibliografia, tanto de opinião, quanto científicas, sobre o posicionamento político em instituições de ensino superior por lá. Levantamentos demográficos desses posicionamentos começaram na década de 1950. Há vários aspectos importantes a serem explorados nessa história, mas eu me atenho a alguns resultados mais recentes.

Artigos sobre o assunto, em geral bem informados, como um do The Times Higher Education, relata que o discurso de ataque aos supostos aparelhamentos e doutrinação é evidente não só nos Estados Unidos, mas também no Reino Unido, Europa continental e Austrália. O texto, perto do final coloca a questão premente, tanto lá, quanto cá [III]:

“...talvez as alegações de viés ideológico na educação superior estejam mais relacionadas às ansiedades do conservadorismo atual do que com as universidades propriamente ditas...Mas, independentemente da confiabilidade das evidências de suas fontes, tais alegações ainda podem prejudicar as universidades. Se a suspeita conservadora (direita) sobre as universidades levar a uma quebra do consenso sobre o financiamento da educação superior, então as consequências podem ser sérias.”

Outros artigos na imprensa também são baseados em dados e evidências, de muitos, faço referência a dois: “O mito da doutrinação” [IV] e “As universidades transformam as pessoas em liberais?” [V], com a devida atenção para a palavra liberal, que lá quer dizer de esquerda, em oposição a conservador (direita). Esse último discute um levantamento recente sobre o assunto, realizado pelo IDEALS (Interfaith Diversity Experiences & Attitudes Longitudinal Survey). Nesse levantamento, foram distribuídos questionários a estudantes ao ingressar no ensino superior e depois de um ano frequentando uma faculdade, tentando verificar a alegada doutrinação. O resultado? Uma amostra representativa de 7000 estudantes em 120 faculdades (“colleges" e universidades) revelou o seguinte. Dos estudantes que responderam a ambos questionários, 48% apresentaram um aumento de simpatia à esquerda e 50% um ganho de tendência à direita. Ou seja, a experiência no ensino superior leva a apreciações de posições políticas, mas sem viés à esquerda. As razões dessas mudanças de posicionamento não são claras ainda para os pesquisadores. Declaram, no entanto, que provavelmente estaria pouco relacionado aos docentes em si e sim à vivência nos campi, onde há expressões de diversas ideias. Comentam, por exemplo, que é no ambiente universitário que os ingressantes, muitas vezes, entram em contato pela primeira vez com pessoas que pensem diferente, de posicionamento político contrário.

Há dez anos, Mack Mariani e Gordon Hewitt publicaram um estudo científico com o intuito de responder pergunta parecida: "Universidades doutrinadoras? Ideologia dos docentes e mudança de orientação política dos estudantes" [VI].  A pesquisa investiga a pergunta comparando os estudantes ao entrar na faculdade e ao sair (e não só depois de um ano, como a pesquisa mais recente comentada acima). O contexto da pesquisa é averiguar evidências que sustentem o ataque de David Horowitz de que "docentes radicais introduziram uma agenda política no currículo acadêmico". Horowitz é defensor da "Academic Bill of Rights", cujo objetivo é inspirar autoridades universitárias a "impor as regras que foram pensadas para garantir a imparcialidade e objetividade na sala de aula". Esse tal projeto de lei (bill) é de 2003 e, portanto, observa-se que a escola sem partido daqui não é uma jabuticaba. Pois bem, qual o resultado (o artigo é longo, com várias tabelas de dados e discussão de resultados)?

"Os resultados apresentados aqui sugerem que o posicionamento político dos docentes no nível institucional não influencia significativamente a orientação política dos estudantes. Os dados descritivos também indicam que, embora a orientação política entre docentes seja majoritariamente liberal, as orientações dos estudantes ao deixarem a faculdade não diferem significativamente da população em geral".

O número de variáveis que precisam ser considerados é grande. Um exemplo interessante vem do outro lado do mundo. Darren Linvill e Will Grant, pesquisadores australianos, publicaram em 2017 um estudo intitulado "O papel das ideias acadêmicas dos estudantes na percepção do viés ideológico dos professores" [VII] . Sim, temos que levar em consideração um possível viés dos estudantes na percepção do viés dos docentes.  O artigo começa colocando o mesmo contexto: na Austrália também comentadores políticos têm argumentado que campi universitários são locais de doutrinação ideológica explícita. Novamente um estudo parrudo que leva em conta duas categorias entre os estudantes: "orientação ao aprendizado" – a experiência universitária é uma oportunidade de aprendizado e crescimento pessoal – e "orientação ao diploma" – obter o título é razão suficiente para ir à faculdade. Os pesquisadores encontraram evidências de que a percepção de viés político dos docentes existe entre os estudantes com “orientação ao diploma”, questionando o caráter universal de viés político proclamado pelos "críticos da doutrinação". Mas cuidado, estão falando da percepção dos estudantes sobre um possível fato, e não do fato em si, e de como lidar com percepção. Com ciência e não opinião.

Por fim, falando nas múltiplas variáveis, outro estudo identifica que o efeito da experiência no ensino superior se confunde com o contexto familiar no que tange a orientação política [VIII].

Comparações entre instituições de ensino superior em países diferentes têm que ser cautelosas, são outros contextos, outras histórias, mas olhar para outros pontos do globo terrestre pode guiar a discussão e fomentar que obtenhamos mais evidências por aqui, em vez de apenas repetir certos discursos alheios. Numa busca não exaustiva, encontrei um trabalho brasileiro de 1994, que talvez seja, portanto, pioneiro: "Universidade: espaço institucional para o desenvolvimento político", estudo com estudantes da Universidade Federal da Paraíba. Conclusão parecida ao levantamento e hipóteses do IDEALS [IX]:

"Podemos concluir que a Universidade coopera com o desenvolvimento político de seus alunos, não através de suas atividades acadêmicas e curriculares, mas sim através do espaço institucional criado para a participação espontânea em atividades extra-curriculares."

Precisamos de dados, análises e meta-análises. É importante discutir com as evidências por aqui, quem teria medo delas?

Caso contrário, arquivem-se essas opiniões aí. Por falta de evidências.

 


 

[I] https://www.insidehighered.com/news/2017/02/27/research-confirms-professors-lean-left-questions-assumptions-about-what-means

[II] https://en.wikipedia.org/wiki/Political_views_of_American_academics

[III] https://www.timeshighereducation.com/features/are-universities-hotbeds-left-wing-bias

[IV] https://www.nytimes.com/2012/03/04/opinion/sunday/college-doesnt-make-you-liberal.html

[V] https://theconversation.com/does-college-turn-people-into-liberals-90905

[VI] Indoctrination U.? Faculty Ideology and Changes in Student Political Orientation  Mack D. Mariani e  Gordon J. Hewitt: Political Science and Politics, Vol. 41, No. 4 (2008), pp. 773-783. 

[VII] Darren L. Linvill & Will J. Grant (2017) The role of student academic beliefs in perceptions of instructor ideological bias, Teaching in Higher Education, 22:3, 274-287

[VIII] Does College Influence Sociopolitical Attitudes? Colin Campbell e Jonathan Horowitz, Sociology of Education 2016, 89(1) 40–58

[IX] Joseli Bastos da Costa; Ana Raquel Rosas Torres; Marta Helena L. Burity; Leôncio Camino, Temas psicol. vol.2 no.1 Ribeirão Preto abr. 1994. Acesso pelo Scielo.