O cinema como indutor da educação

Cine Vagalume vai do entretenimento a atividades didáticas, na Faculdade de Ciências Aplicadas de Limeira

Os irmãos Lumière conseguiram: o cinema eterniza cenas em movimento. Aos poucos, é possível organizá-las de acordo com o discurso pretendido pelo autor. Se no século 19 Georges Mélliès vibrava com a possibilidade de registrar a cena, numa câmera fixa, até a saída do ator ou da atriz do plano, hoje, o corte define a cena através de jogo de câmeras, luzes e uma boa edição. Hoje, é possível montar e remontar as cenas de acordo com a narrativa escolhida. Mas a evolução do cinema não está somente na tecnologia, situa-se também em sua capacidade de promover inserção cultural. E é com foco nesta possibilidade que o Cine Vagalume, projeto de extensão da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) de Limeira, se mantém há dois anos.

O Vagalume se inclui na lista das salas de exibição universitárias, a exemplo da Casa do Lago, no campus de Barão Geraldo, e de tantas outras iniciativas espalhadas pelo mundo. A ideia foi do professor Márcio Barreto, que, além de propor à direção da FCA a transformação de um dos auditórios em sala de exibição, montou uma comissão para analisar as programações do projeto.

Na sala com mais de 150 poltronas, localizada no próprio campus, tem filme para todas as idades, mas com uma condição, sem perder a qualidade do Grande Cinema. Além da procura espontânea por entretenimento, a programação do Vagalume inclui visitas de escolas e grupos sociais, inclusive de terceira idade. Em outubro de 2018, o projeto recebeu cem alunos de escolas públicas na semana da criança e em setembro, um grupo de idosos, conduzidos pelo projeto Cinecâmara.  Aberta para atividades de ensino, pesquisa e extensão, a sala é utilizada para atividades didáticas, nas quais o filme é objeto de estudo.

O Vagalume estimula a cultura do Grande Cinema, por oferecer um cardápio com produções pouco acessadas no circuito comercial. De acordo com Barreto, mais que entreter, a proposta é estimular a reflexão sobre o conteúdo assistido, tanto entre os visitantes quanto entre os alunos da Universidade. Algumas sessões viram aulas, seguidas de debate. Geralmente, a sala é agendada por professores da FCA que precisam explorar o conteúdo de um filme em suas aulas. “Docentes de várias áreas nos procuram para agendar aula na qual precisam exibir algum filme”, afirma Barreto. Ele mesmo explora o recurso.

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Bruna de Carvalho, coordenadora do Cinecâmara: agradecimentos da plateia

Além da busca espontânea pela programação, o projeto recebe grupos específicos como idosos e escolares, por meio de projetos como o Cinecâmara. “O bacana deste projeto com a Unicamp é que, por oferecer uma exibição gratuita, permite o acesso de pessoas que nunca foram ao cinema. A gente pensa ‘poxa, mas quem nunca foi ao cinema?’, mas a gente percebe com este projeto que algumas pessoas idosas nunca frequentaram”, revela a coordenadora do Cinecâmara, Bruna de Carvalho. Ao final da exibição, muitos agradecem a oportunidade de ver, pela primeira vez, a projeção em tela.

Os temas do Cinecâmara são definidos de acordo com o público e contemplam, algumas vezes, questões referentes a legislações em debate na Câmara de Limeira. Segundo Bruna, as iniciativas do Vagalume e do Cinecâmara convergem no sentido de usar o cinema como indutor de educação. Os filmes, segundo a coordenadora, são selecionados na programação do Vagalume. “O que buscamos, através da Câmara, é trazer o público para este espaço da universidade”, declara.

Professor e vice-diretor da Escola Cônego Manoel Alves, de Limeira, João Guilherme Leite procura levar os alunos ao Vagalume para que conheçam outra forma de cinema que não seja a comercial. “A magia do cinema me motiva a vir para cá. Aquela magia do início, em que ele era uma caixa mágica.” Para ele, as produções exibidas pelo vagalume estão na lista de filmes que não perderam o encanto. “Por isso que venho aqui toda semana. Também gosto de descobrir filmes novos.”

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Os professores Carolina Linhares Lazarini e João Guilherme Leite: sementes plantadas

Ingressos caros, instalação em shoppings acabam afastando do cinema também um público que já deveria estar inserido nesta cultura: as crianças. Soa como novidade, não é? Mas Leite revela que muitos de seus alunos também conheceram o cinema ao pisar a sala do Vagalume. Para ele, o projeto tem sido uma porta de entrada à FCA para população de Limeira. Por meio do Vagalume, ele descobriu a possibilidade de realizar passeios com seus alunos pelo campus, mas revela a resistência de grande parte da população em explorar o espaço. “Trazê-los para cá é mostrar outra realidade e mostrar que um dia poderão estudar aqui e ajudar outras pessoas.”

Para o aluno da FCA Guilherme Lauria, as portas do cinema abrem-se como uma oportunidade para compreender de forma mais abrangente o mundo cinemático. Suas atividades como aluno bolsista no projeto vão desde apertar o play até participar dos debates com diretores e cinema. “Tive oportunidade de conhecer diretores de cinema, conversar com produtores que nem conhecia.” Em um desses encontros, ele percebeu que, além do encantamento, a área de cinema é responsável também pela inserção no trabalho, pela quantidade de recursos humanos necessários para que uma produção aconteça. “Para mim, o cine Vagalume é maravilhoso por trazer cultura, informação e diversão. E outra oportunidade também foi saber que o cinema é uma indústria. Envolve muita gente além do ator, do produtor, ele tem todo um aparato que, ao assistir ao filme, a gente não percebe.”

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Guilherme Lauria, aluno da FCA: “O cine Vagalume é maravilhoso por trazer cultura, informação e diversão”

Carolina Linhares Lazarini, vice-diretora da Emef Aldo José Kio, quer ver seus alunos dentro da Unicamp, e iniciativas como o Cine Vagalume são parceiros importantes para esta empreitada. A parceria com a Unicamp já existe em atividades com alunos do curso de Ciência do Esporte, mas entrar pela porta do cinema também estimula os pequenos. “Na escola, tentamos formar cidadãos conscientes, bons profissionais no futuro, e nós sempre falamos da Unicamp para eles. É uma referência. Sempre falamos que não queremos que eles passem somente pela calçada da Unicamp, mas que um dia estejam dentro dela. A gente planta a semente”.

As exibições estão suspensas até fevereiro de 2019, mas a programação semanal pode ser conferida pela página do Cine Vagalume no Facebook. Para aguçar a curiosidade pela programação do próximo ano, em dezembro, estiveram em cartaz clássicos como Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, A Estrada da Vida, de Federc Fellini, e Dias de Outono, de Yasujiro Ozu. Barreto destaca que não precisa estar em Limeira e região para assistir às exibições, a sala do Cine Vagalume está aberta a quem quiser chegar.

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O professor Márcio Barreto, idealizador do projeto | Imagem: Reprodução