Quem se dispõe a ouvir os ‘infames’?

Com suporte da psicanálise ou da filosofia, grupo de pesquisa do IEL dá vez a marginalizados 

Pacientes de saúde mental, moradoras de rua ou adolescentes em conflito com a lei têm sim algo (ou muito) a dizer para a sociedade ordinária, comum, normal. Têm sim muito a dizer sobre a sociedade. Mas, dentre as pessoas tidas como “normais”, quem se dispõe a ouvir? Ou ainda, quem se dispõe a ceder espaço, dar licença ou deixar o caminho livre para que consigam falar? É mais ou menos essa a preocupação do grupo de pesquisa “Vozes Infames: exclusão e resistência”, que existe há cerca de uma década, sediado na Unicamp. O grupo é coordenado pela professora livre-docente e titular pela Unicamp Maria José Rodrigues Faria Coracini, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), e reúne quase vinte pesquisadores de diversas localidades. Estudar a linguagem, com o suporte da psicanálise ou da filosofia, é o foco do “Vozes Infames”.

“O nome ‘Vozes Infames’ vem de um texto de Michel Foucault: A Vida dos Homens Infames. Infames são também os que não têm fama”, conta a professora. Coracini é orientadora de várias teses no grupo e também realiza ela própria um trabalho de pesquisa com moradoras de rua, porque nos últimos anos as questões de gênero ocupam lugar de destaque nos estudos desenvolvidos pelo grupo. A docente procura ouvir mulheres que vivem em situação de rua e/ou abrigadas. Recentemente realizou visitas na Associação Casa de Apoio Santa Clara, ligada à Cáritas Arquidiocesana de Campinas.

Foto: Scarpa
A professora Maria José Rodrigues Faria Coracini, coordenadora do grupo de pesquisa: “Infames são também os que não têm fama”

Uma de suas orientadas no mestrado, Fabiana Anjos dedicou-se aos pacientes psiquiátricos atendidos em uma unidade de Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) do Estado de São Paulo. Ela conversou com cinco pessoas. As conversas foram gravadas e posteriormente transcritas. Fabiana fazia poucas perguntas, algumas questões sobre a história de vida do participante, o que ele pensava sobre ser tratado no Caps, se sentia-se diferente das outras pessoas. A partir daí a pesquisadora se dedicou a analisar “na materialidade linguística”, ou seja, na transcrição da fala que eles produzem, formas “como contam sobre si mesmos para a sociedade”.

Lapsos de linguagem, repetições, rastros de esquecimento ou ênfases não escaparam à análise. “Procurei, entre cinco pacientes, o que, dentro da linguagem deles, pode ser considerado um fio condutor, ou os organizadores de seu dizer”. Por exemplo, quando um paciente sempre volta a um ponto de sua história. “Alguns voltam para os livros que leram, outros vão voltar para os sintomas físicos, isso constitui um organizador do dizer do paciente”.

A pesquisadora parte do princípio de que o CAPS simultaneamente inclui, sendo um produto da reforma psiquiátrica, e pode também excluir, pois, aqueles que frequentam, ou que vão para aquele espaço, são comumente rotulados. “E eles não se veem dessa maneira. Eles nos dizem: ‘eu sou o esquizofrênico que não ameaça ninguém, trato bem as pessoas, tomo meu remédio direitinho’, eles querem se afastar daquele estigma”, esclarece Fabiana.

Foto: Perri
Fabiana Anjos: “Procurei, entre cinco pacientes, o que, dentro da linguagem deles, pode ser considerado um fio condutor, ou os organizadores de seu dizer”

A pesquisadora imaginava encontrar regularidades nos depoimentos dos cinco pacientes, mas foi surpreendida.  “Encontramos mais traços de individualização dos sujeitos do que de proximidades”, afirma. E individualidade é terreno fértil. Um paciente nissei que trabalhou por anos no Japão, mas que parece ter sido obrigado a voltar para o Brasil, dá várias versões para o ocorrido, e todas elas, pela leitura da pesquisadora, remetem a um sentimento de rejeição e de exclusão do mundo ao qual ele pertencia. “Como ele é filho de japonês não é só a exclusão do país, mas também da identidade japonesa dele”.

O “rastreamento” dessas marcas na fala do paciente mostrou para Fabiana o retorno ao assunto a todo momento da entrevista. “Tem um parágrafo da transcrição em que o paciente repete quatro vezes a palavra viajar como uma forma de reviver o passado ao me contar sua história. Ele está escolhendo as informações para me contar sobre a vida dele, para que ele se fizesse conhecer”.

Também pesquisadora do grupo Vozes Infames, a mestra Giulia Gambassi ouviu relatos de ex-internas de instituições para menores em conflito com a lei. A dissertação trata do silêncio que atravessa a história de vida das mulheres. Mas, antes de tudo, Giulia contesta em seu trabalho o termo “dar voz” às mulheres. “Não é dar voz, mas dar vez, espaço de escuta, o nosso lugar de privilégio na sociedade”, complementa.

Foto: Perri
Giulia Gambassi, autora de dissertação: entrevistadas fizeram questão de ressaltar que tiveram uma infância normal

A pesquisadora ouviu três mulheres. Duas jovens ganharam nomes fictícios e uma terceira quis manter seu nome, Andréia MF. Giulia percebeu o poder do senso comum quando as três entrevistadas fizeram questão de contradizer as relações entre a contravenção e os estudos, o trabalho ou a infância. “Uma delas me disse que ia muito bem na escola e eu não havia perguntado nada. Ela disse isso provavelmente porque está acostumada a ouvir que quem não vai bem na escola vai para a cadeia, da mesma forma que estão acostumadas a ouvir que, quem não teve uma infância normal, pode cometer crimes. Elas queriam, então, ressaltar que tiveram uma infância normal”.

Para as três, o fato de ser mulher influenciou em todos os eixos analisados pela pesquisadora: a marca do outro em seus dizeres, a questão da negritude, do racismo e da educação e a relação entre o feminino e o descrédito da sociedade. “A pesquisa aborda como o silenciamento está marcado no discurso dessas mulheres que, em suas representações identitárias, por vezes (re)produzem e por vezes excedem ou extrapolam formações discursivas que silenciam e impõem verdades aos grupos dos quais fazem parte”, observou.

 

Imagem de capa JU-online

Um dos trabalhos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa é com moradores de rua | Foto: Álvaro Kassab