A falta e o excesso de remédios

Campanha para Uso Racional de Medicamentos alerta pacientes sobre riscos à saúde

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Equipe da campanha Uso Racional de Medicamentos: projeto prevê capacitação de alunos para atuar na rede pública


Ilustra: LPParece corriqueiro falar em automedicação, falta de adesão a tratamento medicamentoso, mas esta conversa ainda tão atual e necessária, principalmente na era da internet, levou o Ministério da Saúde a instituir 5 de maio como o Dia do Uso Racional de Medicamentos. Na Unicamp, a Campanha para Uso Racional de Medicamentos tornou-se projeto de extensão da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), dentro do projeto PET GraduaSUS do Ministério da Saúde, com o objetivo de orientar pessoalmente a comunidade interna e externa à Universidade sobre a forma correta de lidar com remédios a exemplo do que ocorreu no dia 4 de maio, na rampa do Hospital de Clínicas (HC).

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A professora da FCF e coordenadora da campanha, Taís Galvão

Além de reduzir os riscos relacionados ao mau uso, a campanha tem como objetivo aproximar alunos de graduação de pacientes da rede pública de saúde, de acordo com a professora da FCF e coordenadora associada do projeto na Unicamp, Karina Müller. “Se o paciente não tomar remédios de forma adequada, nos horários corretos, não tomar a dose correta ou ingerir medicamentos que tenham interação, pode prejudicar um tratamento. Então, como farmacêuticos, temos este papel de orientação que é papel da atenção farmacêutica.”

Em lugar estratégico, a rampa por onde circulam a população externa e também da própria Unicamp, alunos e professores transmitiram orientações após aferição de pressão arterial e exame de glicemia. Alguns pacientes levaram receitas e medicamentos para que os farmacêuticos e estudantes ajudassem na compreensão da terapia. Apesar da eficiência de campanhas visuais, a ação presencial promove resultados mais eficazes tanto para a sociedade quanto para os pesquisadores e alunos, segundo a professora da FCF e coordenadora da campanha, Taís Galvão. “Nosso objetivo é trazer a campanha do PET Gradua SUS para a comunidade atendida no Hospital de Clínicas da Unicamp, que é composta não somente por pacientes, mas por acompanhantes, e também focar a comunidade nossa interna da Unicamp, funcionários, profissionais que muitas vezes também deixam seu cuidado de lado.”

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A coordenadora associada do projeto na Unicamp, Karina Müller

O projeto de extensão é importante para a formação profissional, na opinião da aluna do quinto ano de farmácia Luisa von Zuben. “É o segundo ano que participo da campanha de uso racional aqui no HC. É muito legal porque a gente consegue pegá-los na rotina da vinda ao hospital, e eles se interessam muito em fazer os exames e conversar sobre sua medicação. Isso também é muito legal para a gente ver que nosso trabalho tem valor para eles também. É o ‘empoderamento’ como aluno mesmo. Oportunidade que recomendo a todos os meus colegas, calouros.”
 

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A aluna Luisa von Zuben: importância na formação profissional

A campanha não é momentânea, pois diariamente a FCF desenvolve pesquisas relacionadas ao tema, além da formação de profissionais. “Considero que esta ação de hoje está trazendo uma experiência extremamente rica a nossos alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, trabalhando em conjunto com as unidades de assistência básica. Isso vai permitir uma  formação para, no futuro, conseguir diminuir a demanda de pacientes no SUS justamente porque eles terão uma orientação correta de como utilizar seus medicamentos”, avalia a coordenadora de extensão da FCF, professora Mary Ann Fóglio.

Hábito comum, o compartilhamento de remédios sem receita em vez de curar um mal-estar pode ter consequências sérias para a saúde. Os riscos de um tratamento malsucedido podem estar associados à falta de atenção às prescrições e à falta de adesão à terapia proposta pelo médico. Depois de passar por transtornos com tratamento contínuo, a camareira do HC Ana Maria Anhuci está mais atenta às recomendações, interações medicamentosas e a não seguir a prescrição do vizinho. “Muitas vezes, a gente ouve falar: ‘tô com probleminha’. E a gente fala para tomar um medicamento. Isso não é correto. O correto é sempre ter uma orientação médica específica. Bom, às vezes a gente dá uma furadinha, mas nessa furadinha, a gente pode se complicar.”

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A coordenadora de extensão da FCF, professora Mary Ann Fóglio

A coordenadora de graduação da FCF, Priscila Gava Mazzola, dá orientações práticas sobre como evitar riscos. “Recebendo a prescrição, os cuidados são: observar os horários de uso, não esquecer de tomar os medicamentos. Em caso de esquecimento, consultar a bula do medicamento para ver o que fazer. Na hora de comprar o medicamento, comprar um medicamento que esteja dentro da validade. Mas o principal é sempre ter atenção à maneira como vai consumir este medicamento. Se vai tomar junto com as refeições, separado das refeições, se tem que tomar e ficar em jejum por um período... ou se tem de tomar imediatamente após o consumo de algum alimento.”

E em caso de reação, a professora da FCF Patrícia Moriel reforça que a principal orientação é procurar ajuda profissional. “Primeiro, temos que saber se realmente é uma reação adversa a este medicamento. Reação adversa é quando você tem algum sintoma, mas se você tomou certinho o medicamento, agora quando você toma uma dose a mais, pode ser uma intoxicação, então sempre procurar o farmacêutico ou o médico. Normalmente, recomendamos ir ao médico; ver se necessita de troca de medicação, para ter uma avaliação mais aprofundada deste sintoma.”

O fato de as campanhas direcionarem o foco ao paciente, a responsabilidade de uso incorreto de medicamentos nem sempre deve ser atribuída a ele, na opinião de Taís. “Muitas vezes, damos um excesso de responsabilidade para este paciente, mas tem coisas que deveriam estar funcionando melhor para que este uso de medicamentos fosse mais racional possível. Desde uma regulação com medicamentos, com registro de medicamentos seguros, medicamentos que tiveram comprovação de que funcionam baseados em pesquisas científicas, e também na regulação do preço, porque muitas vezes vemos preços abusivos.”

Segundo a cardiologista Patrícia Leme, coordenadora do Centro de Saúde da Comunidade (Cecom) da Unicamp, a probabilidade de o paciente abandonar o tratamento é menor se a receita for bem explicada, bem como a função e a importância de cada medicamento. Em caso de pacientes com dificuldade de compreensão, Patrícia chega a desenhar nas caixas de remédio, principalmente se a receita contém muitos medicamentos, como acontece em tratamentos de doenças cardiológicas. “Quando o tratamento não apresenta resultados positivos, peço para o paciente trazer os remédios e me mostrar como está tomando. É importante que pacientes idosos ou com dificuldade de compreensão sejam acompanhados pela família.”

Mary Ann, enfatiza que projetos como esta campanha trazem benefícios tanto para a sociedade quanto aos alunos. “Ações como a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) está fazendo de divulgar esse tipo de ação junto à assistência básica é extremamente importante para alertar a sociedade da importância de utilizar corretamente os medicamentos, de não fazer mau uso e não abusar, porque altas doses podem, ao invés de tratar, intoxicar. Então esta parceria da Universidade para divulgar estes trabalhos de extensão é extremamente importante.”


Campanha tem aprovação de pacientes, acompanhantes e funcionários

A ação realizada em 4 de maio foi aprovada por pacientes como o estudante Pedro, de 12 anos, que faz tratamento contínuo para controle de ansiedade no HC. Em plena adolescência, ele defende a responsabilidade com as determinações feitas pelo médico ao emitir uma receita. “Se está em dúvida, pergunte ao seu farmacêutico ou médico e pergunte a dúvida que você tem sobre este remédio que o médico passou”, respondeu ao ser entrevistado sobre o que aprendeu na campanha. Depois de ter passado mal por ingerir medicamento vencido, Pedro afirma ter responsabilidade com os medicamentos diários, seguindo à risca os horários recomendados.

Ana Maria Anhuci explica que, em seu caso, a receita era seguida à risca, e a medicação foi substituída depois de ter complicações no sistema hepático. Em vez de abandonar o tratamento, ela procurou imediatamente o médico, mas não é bem o que acontece em grande parte dos pacientes. “Deu alteração, febre, calafrios e com isso eu tive que passar pelo médico, teve um transtorno de mudar medicamentos, fazer novos exames.”

Cleia Moreira Garcia acompanha diariamente um paciente com câncer e aproveitou a espera para fazer aferição de pressão arterial, exame de glicemia e apenas se certificar de que age de forma consciente. “Eu particularmente não tomo muita medicação sem orientação médica. Normalmente, eu consulto um médico e procuro tomar o que ele recomenda. Porque já houve casos graves de outros problemas na família por causa de automedicação. Então, consulto anualmente um médico e procuro seguir à risca.”

Cleia também se surpreendeu com informações sobre o descarte consciente. “Hoje observei algo interessante aqui: que existem vários pontos de coletas. As pessoas não sabem desses pontos de coleta. Eles me orientaram a levar sempre nos postos de saúde ou nas farmácias onde existe este descarte. Porque eu não tinha pensado no meio ambiente. Eu pensava sempre no descarte por causa de outras pessoas consumirem”.


Veja o vídeo sobre a campanha

 

 

 

Imagem de capa JU-online

Ação de equipe da FCF na rampa do Hospital de Clínicas da Unicamp: orientação e prevenção | Foto: Antonio Scarpinetti