O município de Mariana

Cidade integra o circuito de cidades históricas de Minas Gerais 

Mariana faz parte do conjunto de cidades históricas de Minas Gerais e, juntamente com Ouro Preto (que fica a 12km), Congonhas, São João del Rei, Tiradentes e Catas Altas, compõe um importante patrimônio arquitetônico colonial-barroco do País. Sua população é de aproximadamente 58 mil habitantes.

 

Fabiana Grassano
Igreja São Pedro dos Clérigos, Mariana-MG, julho de 2016

Fundada por bandeirantes paulistas que chegaram à região em busca de ouro, e fizeram pouso às margens do Rio do Carmo, a sua origem data do final do século 17 (1696). O povoado recebeu o nome de arraial Nossa Senhora do Carmo. Devido à grande quantidade de minas de ouro na região, tornou-se vila do estado de Minas do Ouro. Mas somente em 1711 foi elevada a cidade e nomeada Mariana, por ordem do rei português D. João V, em homenagem à sua esposa, a rainha Maria Ana D’Áustria. É também conhecida como “Primeira de Minas” (primeira vila, primeira cidade e primeira capital).

Em 1945, o presidente Getúlio Vargas concedeu ao município o título de Monumento Nacional, por seu “significativo patrimônio histórico, religioso e cultural” e pela ativa participação na vida cívica e política do País. Além de ser um dos municípios mais importantes do Circuito do Ouro, parte integrante da Trilha dos Inconfidentes e da Estrada Real, Mariana tem a economia fundamentada na extração de minérios (ouro e ferro) e um pouco no turismo.

Integra o Quadrilátero Ferrífero – localizado ao centro-sul do Estado de Minas Gerais (área de 7.000Km2 ) –, que junto com outras cidades mineiras como Sabará, Santa Bárbara, Itabirito, Nova Lima, Congonhas e Ouro Preto respondem pela maior produção de ferro do País. Sua região é banhada por rios importantes, como o Rio do Carmo, Gualaxo do Norte, Gualaxo do Sul, e afluentes do Rio Doce. Na região está instalada a mineradora Samarco, formada pela Vale e BHP Billiton.

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O município de Mariana possui nove distritos, que desenvolvem atividades agropecuárias e artesanato: Santa Rita Durão, Monsenhor Horta, Camargos, Bandeirantes (Ribeirão do Carmo), Padre Viegas (Sumidouro), Claudio Manoel, Furquim, Passagem da Mariana e Cachoeira do Brumado. Bento Rodrigues, cuja comunidade sofreu o primeiro e o maior impacto do desastre ambiental (em 5 de novembro de 2015, com o rompimento da barragem da empresa Samarco), é subdistrito de Santa Rita Durão.

Fabiana Grassano
Igrejas São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, Mariana-MG, julho 2016


A Estrada Real

A Estrada Real de Minas, caminho formado pelos tropeiros para escoar o produto da mineração no período do Brasil Colônia, liga os povoados do interior de Minas Gerais ao litoral do Rio de Janeiro. Ela possui 1.630 quilômetros de extensão e atravessa os estados de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. A trilha tornou-se oficial, em meados do século 17, pela Coroa Portuguesa. Muitas dessas trilhas eram antigos caminhos indígenas.

Trata-se de uma estrada histórica, que atrai turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. É composta em sua maior parte por terra batida. Também há trilhas, calçamento e um pouco de asfalto. Desde 1999 é gerenciada pelo Instituto Estrada Real, que pertence ao sistema Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). Atualmente, quatro caminhos compõem a Estrada Real: Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho dos Diamantes e Caminho de Sabarabuçu.

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Estrada Real de Minas na entrada de Bento Rodrigues


Bento Rodrigues

Bento Rodrigues, subdistrito de Santa Rita Durão, no município de Mariana, era um local agradável de se viver, com uma população de 600 pessoas que habitavam aproximadamente 200 casas até 5 de novembro de 2015, data da ruptura da barragem de Fundão, da Samarco. Havia matas, cachoeiras e as ruínas de uma igreja histórica, que acabaram soterradas pela lama.

Localizado na parte baixa de Mariana, local de parada para descanso dos tropeiros que percorriam os caminhos de Minas Gerais em busca do ouro, o seu nome foi dado em homenagem ao bandeirante português que esteve na região por volta de 1798 e que deu origem ao povoado. Bento Rodrigues foi um importante local de mineração do século 18, época em que surgiram caminhos que ligavam esses centros ao litoral, criando a histórica Estrada Real – que atravessava Bento Rodrigues –, unindo o povoado aos distritos de Santa Rita Durão e Camargos.

Lugar tranquilo, com cachoeiras escondidas na mata. Seu potencial turístico era pouco explorado, apesar de haver um hotel fazenda logo na entrada do subdistrito. A Cachoeira do Ouro Fino – uma queda d’água de 15 metros, com lago de 5mx3m e profundidade máxima de 1,5m –, no Rio Gualaxo do Norte, era um dos principais pontos turísticos da região. Tinha ainda duas igrejinhas: Nossa Senhora das Mercês e São Bento, construídas no século 18, e que abrigavam importante acervo de arte sacra. Tudo isso desapareceu sob a lama de rejeitos.

A população de Bento Rodrigues festejava, sempre no último final de semana de julho, a Festa de São Bento, padroeiro do subdistrito, além da Festa de Nossa Senhora das Mercês. Havia ainda o Coral do Bento, que se apresentava nas festividades locais e regionais.

Historicamente, a extração mineral na região sempre foi muito intensa. O povoado de Bento Rodrigues estava situado logo abaixo das barragens de Fundão e Santarém, ambas pertencentes à Samarco, responsável por uma terceira barragem de rejeitos na região, a de Germano.

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Vista geral da praça de Bento Rodrigues
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Igreja de São Bento

As casas de Bento Rodrigues eram simples, mas amplas e bem construídas. A população, basicamente rural, sobrevivia da agricultura familiar e de subsistência, cultivando roças de feijão, milho e frutas, além de criar porcos, galinhas, patos, cavalos, e possuir horta e pomar no quintal. O local tinha venda e bar. Os habitantes usufruíam do conforto da cidade, como luz elétrica, água encanada e internet; utilizavam computadores e celulares; e para o transporte usavam carros e caminhonetes. O povoado não possuía agência bancária e, devido ao fato de se sentirem seguras, muitas pessoas guardavam dinheiro em casa. Todos se conheciam e se consideravam uma grande família.

O subdistrito tinha uma escola de ensino fundamental, a Escola Municipal Bento Rodrigues, frequentada por aproximadamente 50 pessoas, entre alunos, professores e funcionários, e atendia crianças desde a pré-escola até o último ano do ensino fundamental. Muitos jovens davam continuidade aos estudos em Mariana; alguns quando concluíam arrumavam emprego por lá, mas a maioria ficava em Bento Rodrigues e passava a trabalhar na Samarco ou na roça da família.

Havia também um time de futebol, o União de São Bento, com sede e campinho. Após o desastre ambiental, os jogos do time passaram a ser realizados em um campo de Mariana. A maioria dos jogadores trabalhava na Samarco, mas ficou desempregada depois da tragédia.

Segundo a professora de geografia Ariane Melo, da Escola Municipal Bento Rodrigues, “a empresa tem uma representatividade econômica muito grande em toda a região, empregando pessoas direta e indiretamente”.

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Rua de Bento Rodrigues
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Vista geral do subdistrito

Outra parte dos moradores vivia da produção da pimenta biquinho, que originou o tradicional licor e a geleia de pimenta, largamente comercializados na região. Segundo o historiador Lélio Pedrosa Mendes, da Secretaria de Cultura e Turismo de Mariana, a prefeitura do município incentivou as moradoras a fundar a Associação de Mulheres da Agricultura Familiar, para organizar a produção e o comércio do produto.


A produção da pimenta biquinho

A pimenta biquinho, ou pimenta-de-biquinho, tornou-se popular no Brasil especialmente por possuir baixa ardência e agradar diversos paladares. Vermelha e pequena, é excelente para ser consumida inteira, como aperitivo, ou para ser preparada em conservas de vinagre.

Keila Vardeli, presidente da Associação dos Hortifrutigranjeiros de Bento Rodrigues (Ahobero), conta que criaram a associação de mulheres da agricultura familiar em 2002, para promover a venda dos produtos e gerar renda. Em 2006, com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), passaram a produzir e comercializar a geleia de pimenta biquinho para todo o Brasil.

Segundo Keila, o excesso da pimenta in natura as levou a desenvolver o produto. Depois de muitos testes de receitas, chegaram à geleia, que passou a ser o produto principal da associação. Elas não revelam a receita e mantêm o segredo a sete-chaves. A plantação de 1.500 pés de pimenta da Associação foi soterrada pela lama de rejeitos que invadiu Bento Rodrigues. Mas as mulheres recuperaram os equipamentos utilizados para a produção, conseguiram se reerguer e alugaram um imóvel em Mariana. Elas retomaram a produção da famosa geleia em janeiro de 2016.


Paracatu de Baixo

Como Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, que também foi soterrado, é um subdistrito pertencente a um dos nove distritos de Mariana. Paracatu está ligado ao distrito de Monsenhor Horta com uma população aproximada de 300 pessoas. A comunidade simples sempre viveu da roça de feijão e milho, hortifrútis e criação de galinha, porcos e gado. Antes da lama as festas tradicionais no subdistrito e na região eram a Folia de Reis e a de Santo Antônio, na capela do santo do mesmo nome. As crianças estudavam na Escola Municipal de Paracatu de Baixo, que atendia desde a pré-escola até a 8ª série do ensino fundamental. O rio Gualaxo do Norte banhava o subdistrito.

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Keila Vardele, da Associação de Produtores de Pimenta, em Bento Rodrigues | Foto: Portal a12


Rio Gualaxo do Norte

O Rio Gualaxo do Norte é um subafluente do Rio Doce. Importante na região, ele passa pelos subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, e segue seu curso até desaguar no Rio do Carmo, após ser encorpado pelos afluentes, os córregos Água Suja e Barreto. O Rio Gualaxo do Norte nasce na Serra do Espinhaço, no município de Ouro Preto, a aproximadamente 1.380 metros de altitude. Seis quilômetros abaixo, ele atinge o município de Mariana, onde suas águas são utilizadas para a geração de energia elétrica em uma pequena central hidrelétrica, a PCH Bicas.

Tássia Biazon, arquivo de viagem

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Vista aérea do Rio Gualaxo do Norte
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Vista aérea das barragens de rejeitos da Samarco em Bento Rodrigues


Referências

BARRAGEM de rejeitos. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Barragem_de_rejeitos>. Acesso em: 5 jul. 2016.

BENTO Rodrigues tem cor de tragédia e cheiro de morte. Disponível em: <http://super.abril.com.br/ciencia/bento-rodrigues-tem-cor

-de-tragedia-e-cheiro-de-morte>. Acesso em: 3 jun. 2016.

BENTO Rodrigues. Veja casas, escola e igreja de Bento Rodrigues antes e depois da lama. G1 Minas Gerais. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2015/11/veja-casas-escola-e-igreja-de-bento-rodrigues-antes-e-depois-da-lama.html>. Acesso em: 10 jun. 2016.

BENTO Rodrigues. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/bento-rodrigues>. Acesso em: 17 jun. 2016.

CONHEÇA mais sobre Bento Rodrigues, o lugar que pode deixar de existir. Disponível em: <http://www.super.abril.com.br/.../conheca-

mais-sobre-bento-rodrigues>. Acesso em: 18 jun. 2016.

DESASTRE ambiental em Mariana. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/>. Acesso em 14 jun. 2016.

DESASTRE ambiental de Mariana; morador relembra distrito de Mariana mais de 10 anos antes da lama Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2016/05/fotos-relembram-distrito-de-mariana-mais-de-10-anos-antes-da-lama.html>. Acesso em: 15 jun. 2016.

ESPECIAL Mariana. Entre sonhos soterrados: dor, impasse e estagnação. Jornal da Unicamp. Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/ju/662/entre-sonhos-soterrados-dor-impasse-e-estagnacao>. Acesso em: 5 jul. 2016.

ESTRADA Real. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_Real>. Acesso em: 5 jul. 2016.

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.124p.

MENDES, Lelio Pedrosa. Informações sobre Bento Rodrigues e Paracatu de baixo. Prefeitura Municipal de Mariana. Secretaria de Cultura e Turismo. Entrevista concedida via telefone em: 4 jul. 2016.

MULHERES de Bento Rodrigues preparam o retorno da geleia de pimenta biquinho. Disponível em <http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/03/08/interna_gerais,741516/mulheres-de-bento-rodrigues-preparam-o-retorno-da-geleia-de-pimenta-bi.shtml>. Acesso em: 4 jul. 2016.

O BRASIL antes e depois da lama. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/09/interna_gerais,706020/imagens-mostram-o-rio-doce-antes-e-depois-da-passagem-de-lama-de-miner.shtml>. Acesso em: 2 jul. 2016.

PARACATU de baixo. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/paracatu-de-baixo>. Acesso em: 1 jul. 2016.

PREFEITURA Municipal de Mariana. A cidade. Histórico. Distritos. Disponível em: <http://www.pmmariana.com.br/>. Acesso em: 10 jun. 2016.

RHODES, Valdilene da Penha. Distribuição de mercúrio e arsênio nos sedimentos da área afetada por garimpo de ouro no Rio Gualaxo do Norte, Mariana, MG. 2010.113p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Minas, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2010. Disponível em: <http://www.repositorio.ufop.br/handle/123456789/2274>. Acesso em: 5 jul. 2016.

RIO Gualaxo do Norte. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Gualaxo_do_Norte>. Acesso em: 1 jul. 2016.
 

Cylene Oliveira Santos Ferraz de Arruda Camargo  - Jornalista graduada pela PUC-Campinas em 1978; e em Letras (Português/ Inglês) pela PUC-Campinas em 2003. Especialização em Análise do Discurso (2000) pela PUCCampinas. Revisora de textos em língua portuguesa. e-mail: cylene@unicamp.br


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Imagem de capa JU-online

Igreja São Pedro dos Clérigos, Mariana-MG, julho de 2016 | Foto: Fabiana Grassano