Método pode facilitar a escolha de droga para depressão

Identificação de biomarcadores permite que psiquiatra prescreva medicamento mais adequado

Novas técnicas bioquímicas, que foram capa da revista Proteomics do mês de novembro, têm sido otimizadas no Instituto de Biologia (IB) para identificar proteínas no sangue capazes de sinalizar se pessoas com depressão ou esquizofrenia responderão bem ou mal à medicação, antes mesmo de empregada. Esse trabalho envolve parceria da Unicamp com o Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, e a Universidade de Magdeburg, em Magdeburg, ambos na Alemanha.

Especialistas do Laboratório de Neuroproteômica, liderados pelo docente do IB Daniel Martins-de-Souza, já conseguiram decifrar 29 proteínas que podem predizer se o psiquiatra deve, ou não, indicar determinadas drogas antidepressivas aos pacientes com essa patologia. Essa descoberta tem causado uma reviravolta na forma de entender os pacientes psiquiátricos, que até então eram submetidos a tratamentos a partir de diagnóstico clínico, sem o auxílio de biomarcadores.

Com esse resultado, os grupos da Unicamp e do Max Planck acabam de publicar um artigo também na revista Proteomics que descreve as proteínas do sangue que estavam associadas a uma resposta efetiva da medicação.

De acordo com Daniel, do Departamento de Bioquímica e Biologia Tecidual, o interesse é avaliar proteínas ligadas a doenças psiquiátricas que estão entre as mais prevalentes. “Uma parte considerável do nosso tempo é gasto em otimizar técnicas de química analítica para melhor identificar e caracterizar essas proteínas”, expõe ele.

Foto: Scarpa
O coordenador da pesquisa, o professor Daniel Martins-de-Souza: “O que fizemos nesse trabalho da depressão foi avaliar proteínas associadas ao sucesso da medicação que possam servir como biomarcadores preditivos”

Em sua opinião, as doenças psiquiátricas precisam ser melhor compreendidas bioquimicamente, para auxiliar os psiquiatras no diagnóstico e na escolha do melhor tratamento, além de possibilitar o desenvolvimento de novos medicamentos.

A depressão hoje está presente em 10% da população mundial, relata ele, sendo a mais prevalente das desordens de humor e tida como o “mal do século 21”. Ela já se constitui um problema de saúde pública, tanto que a Organização Mundial da Saúde estima que, em 2040, metade das pessoas que se aposentarem por invalidez terá sido por essa causa.

Também a esquizofrenia preocupa muito os especialistas, pois já afeta 1% da população mundial com idade entre 16 e 30 anos. No Brasil, acomete aproximadamente 25 milhões de pessoas.

Daniel revela que esses diagnósticos são feitos clinicamente pelos psiquiatras e que só recentemente apareceram novos medicamentos embasados em achados biológicos, que ainda são escassos. Os fármacos para esquizofrenia (antipsicóticos), por exemplo, surgiram de descobertas ao acaso. Na verdade, a primeira droga empregada era um anti-helmíntico (também conhecido como parasiticida, vermicidas ou vermífugos). Somente depois se descobriu que ela tinha propriedades antipsicóticas.


Respostas

Na esquizofrenia, à medida que o paciente não dá boas respostas ao tratamento, ele vivencia frequentes surtos psicóticos, e a sua função cerebral vai sendo comprometida até incapacitar a pessoa, tal a sua severidade. Além disso, são muitos os efeitos adversos da medicação.

Já em um quadro de depressão, os pacientes que não respondem bem à medicação têm chances elevadas de tentarem o suicídio, nutrindo sentimentos que vão da desesperança à falta de vontade de viver. A ideia é colaborar para a produção de novos medicamentos, indicando onde eles devem atuar, em que vias bioquímicas.

No presente estudo, a identificação de proteínas no sangue colabora para a indicação do melhor medicamento. Os pacientes têm o seu sangue coletado antes de iniciar a medicação. Até aquele momento, são livres de medicação (não a ingeriram). Todas as proteínas estão associadas à doença. Ocorre que, quando são diagnosticados e ingerem o fármaco, passarão a ter proteínas produzidas como efeito do medicamento.

Em geral, no retorno médico, após seis semanas, metade dos pacientes não responde bem à primeira rodada de fármacos. Mas o médico já consegue, portanto, dizer quem de fato respondeu bem ou mal àquela medicação.

Então é possível retornar às amostras coletadas antes do início da medicação e classificá-las como bons e maus respondedores. Assim, pode-se identificar biomarcadores associados a uma boa resposta ao medicamento antes mesmo dele começar seguidamente.

“O que fizemos nesse trabalho da depressão foi avaliar proteínas associadas ao sucesso da medicação que possam servir como biomarcadores preditivos”, explica o docente. “Em caso negativo, a psicoterapia pode ser uma linha de ação de tratamento desses pacientes que, aliada a outros fármacos, permite potencializar a resposta.”


Drogas

A investigação a respeito da depressão se assentou sobre três classes de medicação mais usadas pelos psiquiatras: a dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina e de noradrenalina, e a dos antidepressivos tricíclicos. “Nosso objetivo é que os biomarcadores indiquem aos psiquiatras que eles não devem usar tais medicações, porque poderiam não funcionar para determinados pacientes, e que então ele deveria iniciar o tratamento por outras classes menos comuns”, conta Daniel.

Dentre as 29 proteínas para depressão, alguns marcadores já estão começando a ser usados no Instituto Max Planck de Psiquiatria, local onde Daniel coletou as amostras e realizou a primeira análise das amostras durante o seu pós-doutorado.

Ele realça que, na Alemanha, os pesquisadores podem aplicar na clínica evidências científicas para melhorar a situação dos pacientes. No Brasil, essa aplicação é ainda distante. “Por essa razão, fizemos essa publicação para que o grupo alemão possa usar as 29 proteínas ou algumas que colaborem para escolher a melhor medicação, evitando o problema do tempo de resposta.”

Os próximos passos deste estudo em pacientes com depressão envolverão desenvolver um ensaio bioquímico para avaliar essas proteínas e validar esse trabalho, obtendo uma nova coorte de amostra e uma patente.

Foto: Scarpa
A professora Karina Diniz, da FCM: pesquisas poderão ajudar o clínico a mensurar riscos e benefícios dos medicamentos prescritos

Quanto aos estudos sobre a esquizofrenia, o grupo de pesquisa, através do trabalho de doutorado de Sheila Garcia-Rosa, já está chegando ao ponto de alcançar as assinaturas moleculares específicas que digam se a quetiapina, a risperidona ou a olanzapina serão boas drogas para os pacientes, pois elas estão entre as mais prescritas.

Também será iniciado, em parceria com o Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp, um estudo com a clozapina, um antipsicótico bastante efetivo. O interesse é fazer igualmente um estudo de marcadores para predizer a resposta.

“O braço da pesquisa sobre as proteínas do sangue agiria como paliativo até que novos medicamentos fossem criados. Os disponíveis já têm décadas. Apesar de funcionarem, é somente o que existe”, informa.

Na opinião de Karina Diniz, que é professora do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), todo esse novo conhecimento poderá ajudar o clínico a mensurar riscos e benefícios dos medicamentos prescritos, poupando o paciente de eventuais efeitos colaterais de medicações que terão pouco efeito. “Além do mais, permitirá uma remissão mais rápida dos sintomas, o que é muito importante para minimizar as perdas decorrentes dos transtornos mentais”, sublinha.


Células

Daniel comenta que outra linha de pesquisa muito forte no laboratório se relaciona às células chamadas “oligodendrócitos”, responsáveis por produzir a mielina no sistema nervoso central. As células que se comunicam no cérebro são os neurônios, mas seus corpos ficam distantes uns dos outros. Há uma espécie de fio que os conecta, chamados axônios. Esse fio precisa ser encapado para transmitir sinal elétrico efetivamente. Caso contrário, ele se perde.

Quem faz esse “encapamento” são as células “oligodendrócitos”. Como elas não estão fazendo bem a sua função nos pacientes com esquizofrenia, refere ele, não encapam adequadamente os fios, que passam a não transmitir aquela informação. Assim, os neurônios acabam não se comunicando bem.

O grupo de pesquisa de Daniel agora está estudando o papel dessas células, como influenciam o cérebro a funcionar mal. “Além do mais, estamos estudando proteínas que podem ser alvos de novos medicamentos para que, quando o paciente ingeri-lo, aquela célula passe a “encapar melhor os fios”, promovendo a comunicação apropriada e levando a uma melhora da função cerebral. Logo, temos fornecido substrato para que as indústrias farmacêuticas criem novos fármacos.”

 

 

Imagem de capa JU-online

O professor Daniel Martins-de-Souza (em pé), coordenador da pesquisa, no Laboratório de Neuroproteômica | Foto: Antonio Scarpinetti