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Parcerias da Unicamp com agricultores rendem projetos, melhoram a vida de assentados e põem alunos e docentes em contato com a realidade do campo

Foto: ReproduçãoEspectadores muito especiais ocuparam duas fileiras de cadeiras numa sessão de cinema no Espaço Cultural Casa do Lago, na Unicamp. Eram agricultores familiares, vindos da cidade de Americana, a 40 quilômetros de Campinas, ávidos em ver, pela primeira vez na tela grande, o vídeo-documentário “Cooperacra – Cooperativa da Agricultura Familiar e Agroecológica”, realizado por eles em parceria com a Universidade. O vídeo é fruto de uma oficina do curso de especialização “Educação do Campo e Agroecologia na Agricultura Familiar e Camponesa - Residência Agrária”, organizado pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri). Os cooperados, com o apoio dos estudantes e professores participantes da oficina, contaram a história da cooperativa, que também é a história de alguém que ocupava um dos assentos na sala escura do cinema.

João Souza, que também faz poesia, hoje com 85 anos, era sitiante numa pequena cidade no sul do Paraná e produzia muito, de tudo e o suficiente para alimentar toda a família. Na propriedade também se criava peixe. Mas, com o tempo, surgiram os aviões que voavam baixo espalhando nuvens de veneno sobre as grandes plantações do entorno. Aos poucos, o tamanho do sítio que produzia de tudo ficou pequeno para a família – e os peixes começaram a morrer. Nas palavras da poesia do seu João, “quando eu vi aquela cena, eu entrei em desespero, falei pros meus amigos pra não morrer igual uma lagarta vamos fugir companheiro.” E foi assim que a família, assim como milhões de brasileiros, migrou para a cidade.

Futuro incerto

Cá está seo João, instalado em Americana, cidade das indústrias de tecido. Não demorou muito para que ele percebesse que seria difícil trabalhar na fábrica e ficar sem plantar. Vendo uma terra ociosa no limite do bairro onde morava, resolveu fazer uma horta, e da horta, com outros que foram chegando, os moradores-agricultores formaram a cooperativa. A Cooperacra, que começou associação, em meados dos anos 1980, cultivando hortas em terras do município, hoje ocupa uma área do Instituto de Zootecnia (IZ), que pertence ao Estado de São Paulo. Os cooperados já tiveram permissão para o uso da terra, que estava sob a administração da Prefeitura, mas atualmente a permanência dos agricultores no local é incerta.

Foto: Scarpa
O agricultor João Souza: “Penso na minha família, na minha comunidade, em nosso país, no mundo inteiro em paz”

A questão do acesso à terra está contemplada no vídeo-documentário. Enquanto as universidades, não só a Unicamp, como também a Universidade de São Paulo (USP), por meio da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq), realizam projetos de pesquisa, de ensino e de extensão junto aos agricultores, com o objetivo de aprimorar a qualidade da produção e do trabalho no campo, perdura a dúvida sobre a permanência destas famílias no local.

O evento na Casa do Lago, realizado no início do mês de outubro, foi parte da programação da disciplina de pós-graduação e curso de Extensão “Meio Ambiente, Questão Agrária e Multimeios”, oferecidos pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) e o Instituto de Artes (IA) da Unicamp.

A Feagri já realizou diversas ações na Coperacra, entre as quais a pesquisa “Transição agroecológica da agricultura familiar na região de Campinas (SP): a práxis do ensino, pesquisa e extensão na Rede de Agroecologia da Unicamp”, com o apoio financeiro de edital do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)/Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq). Também foram realizadas atividades no âmbito da disciplina de “Sociologia e Extensão Rural”, da grade curricular obrigatória do curso de graduação em engenharia agrícola. “A ideia é aproximar os alunos da realidade da agricultura familiar. Nessa aproximação fazemos visitas de campo. De acordo com as demandas dos agricultores, pensamos em projetos que serão desenvolvidos pelos alunos. As atividades propiciam, aos estudantes, uma formação prática dos ensinamentos acadêmicos”, conta a docente Vanilde Esquerdo.

Bandeja ecológica

Um projeto recente que nasceu dessa interação foi o de desenvolver uma prensa mecânica para a produção de embalagens ecológicas. Em substituição às bandejas de isopor, a agricultora Maria de Lourdes Souza da Cruz, filha de João Souza, já confeccionava de forma artesanal embalagens com fibra de bananeira. O grupo de estudantes projetou a prensa, que saiu do papel pelas mãos do técnico em mecânica da Feagri José Maria da Silva. O primeiro teste do equipamento foi realizado junto com os agricultores, na faculdade, na mesma tarde em que o documentário sobre a cooperativa foi lançado. O protótipo que, segundo o projeto inicial, teria um custo de R$ 910,00, saiu por R$ 40,00 porque José Maria trabalhou com materiais reciclados.

Fotos: Scarpa
Na foto à esq., Maria de Lourdes Souza da Cruz (à esq.), filha de João Souza, testa prensa projetada por alunos e pelo técnico José Maria da Silva (à dir.) para a confecção da bandeja feita de fibra de bananeira (foto à dir.)

Na Feagri, a parceria dos agricultores com a comunidade universitária ocorre sobretudo no âmbito do Laboratório de Comunicação e Extensão Rural, que desenvolve pesquisas e faz extensão com agricultores familiares de Campinas e região, especialmente com os assentamentos rurais. Atualmente os pesquisadores estão atuando no Assentamento Milton Santos, localizado entre Americana e Cosmópolis, e no Assentamento 12 de Outubro, mais especificamente junto à Associação de Mulheres Agroecológicas (AMA), em Mogi-Mirim.

A preocupação com a agroecologia, herança do trabalho desenvolvido pela professora Sonia Bergamasco, hoje colaboradora da Feagri, é comum a vários grupos que transitam entre a universidade e a sociedade, especialmente junto a agricultores e agricultoras familiares como a Rede de Agroecologia da Unicamp (RAU) e o Laboratório TERRAMÃE, fruto de uma parceria entre a Feagri, o Instituto de Artes (IA) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam).  O trabalho envolve o uso de recursos audiovisuais em cooperação ainda com a plataforma Sementeia.

Foto: Scarpa
A professora Vanilde Esquerdo: “As atividades propiciam, aos estudantes, uma formação prática dos ensinamentos acadêmicos”

 “Com as oficinas de vídeo, para além das questões técnicas que envolvem a produção de um vídeo, nós trabalhamos a questão simbólica do que é ser um agricultor familiar agroecológico e dos confrontos e conflitos que vivenciamos por sermos um contraponto ao que está dado como hegemônico, assim como o retratado pela mídia em geral”, destaca a pesquisadora Kellen Maria Junqueira. De acordo com ela, os agricultores participaram ativamente da realização do documentário da Coperacra.

Além do histórico da cooperativa, que permeia a história de vida de João Souza, o documentário traz a questão fundiária e uma abordagem de gênero que procuram dar maior visibilidade ao protagonismo da mulher no campo. As cooperadas, que são fundamentais na formação da Cooperacra, aparecem no filme desempenhando e interpretando seus papeis e colocando seus desafios e conquistas.

Foto:Scarpa
A pesquisadora Kellen Maria Junqueira: “Trabalhamos a questão simbólica do que é ser um agricultor familiar agroecológico”

O trabalho de extensão realizado junto aos agricultores familiares continua, porém, com severas limitações. “Com a extinção do MDA tivemos a redução de recursos para a área. Estamos aguardando a divulgação do resultado de um edital do CNPq que era para ter saído em julho e, se formos contemplados, podemos dar continuidade aos projetos com os assentamentos”, conta a professora Vanilde.

Os cortes são sentidos principalmente pelos agricultores que dependem de programas do governo como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) para a comercialização de seus produtos. Sem ter certeza do futuro, seu João Souza, toma, emocionado, a palavra no debate que ocorreu após a  apresentação do documentário na Casa do Lago: “penso na minha família, na minha comunidade, em nosso país, no mundo inteiro em paz, comendo, bebendo e vivendo uma vida. O futuro dessas crianças... é preciso pensar muito no futuro dessas crianças. Eu sinto por todos, o meu coração dói por todos”.

 

Veja o documentário