Infectologista alerta para riscos de fungo emergente

Isolada pela primeira vez em 2009, no Japão, Candida auris atinge sobretudo pacientes imunodeprimidos

Uma espécie emergente de bactéria, com potencial letal em pacientes imunodeprimidos, merece estudos mais aprofundados para o real dimensionamento de transformações que ela possa sofrer, gerando graves problemas de saúde pública, particularmente quanto às infecções hospitalares. O alerta é da infectologista e professora Maria Luiza Moretti, do Departamento de Clínica Médica, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

Essa nova espécie de fungo, Candida auris, do gênero Candida, constituída por um grande espectro de espécies em que as mais comumente responsáveis por infeções em humanos são albicans - causadoras de mais de 50% das infecções por Candida, tropicalis, parapsilosis e glabrata.  São responsáveis pelas chamadas infecções sistêmicas que, disseminadas em geral pelo sangue, podem atingir vários órgãos.

As mais temidas infecções por Candida são as que atingem a corrente sanguínea, ou seja, o fungo se dissemina por via hematogênica para diferentes órgãos do organismo, o que se denomina candidemia. A Candida auris, além de candidemia, pode dar origem a surtos.

A espécie auris foi isolada pela primeira vez no Japão, em 2009, a partir de um paciente com infecção no ouvido, e em seguida na Coreia do Sul. Depois foi encontrada na Índia, no Paquistão, Quênia, África do Sul, na Europa, EUA, Venezuela, Colômbia e também no Brasil.

Entretanto essas ocorrências se manifestam em pacientes hospitalizados, prioritariamente internados em unidades de terapia intensiva, ou melhor, gravemente enfermos e imunodeprimidos. É o caso de portadores de certos cânceres, leucemias e dos que vêm utilizando corticoides por um período prolongado. Trata-se, portanto, de um agente oportunista, que aguarda condições para se manifestar.

Foto: Antoninho Perri
A infectologista e professora Maria Luiza Moretti: ocorrência de fungos deve ser comunicada imediatamente

A resistência desse fungo decorre de sua capacidade de produzir biofilmes em que se aloja e se defende do meio ambiente e até de antifúngicos. Em decorrência, ele

sobrevive no meio ambiente, em instrumentos médicos como cateteres, nas mãos e na pele de profissionais de saúde que, no atendimento de sucessivos pacientes, podem carrear o fungo de um para outro provocando um surto. Mas, causa doença apenas em pacientes muito suscetíveis infecções sistêmicas.


Identificação

Durante um tempo Candida auris pode ter passado despercebida, ou mesmo confundida com outras espécies de Candida já conhecidas, mas também raras, como Candida haemulonii, Candida sake, Candida lusitaniae, Saccharomyces cerevisiae, Rhodotorula glutinis.  O equívoco se desfez com o surgimento e emprego de recursos de identificação mais sofisticados.

Hoje se admite que a resistência de microrganismo a antifúngicos seja consequência tanto do amplo uso desses fármacos pelos humanos como do emprego sistemático de antifúngicos na agricultura, que embora diferentes, contribuem para a manifestação e surgimento de fungos mais resistentes, repercutindo no organismo em decorrência do consumo de produtos agrícolas que contem resquícios de fungicidas. Essa hipótese, também aventada em relação ao Candida auris, explicaria sua resistência a antifúngicos e a dificuldade de combatê-lo. 


O que fazer?

Com o objetivo de inibir a manifestação do fungo, facilitar sua identificação e viabilizar o tratamento dos pacientes acometidos, a professora Maria Luiza enfatiza a necessidade de algumas medidas, também preconizadas pela  Anvisa  no Comunicado de Risco No.  01/2017. A primeira refere-se à lavagem das mãos por parte dos profissionais de saúde antes e depois do atendimento de cada paciente, o que reduz sensivelmente o risco de contaminação e transmissão não só por Candida auris como por todos os microrganismos oportunistas ou não. A segunda medida refere-se à prescrição racional de antifúngicos e antimicrobianos, o que contribuiria para controlar a emergência de microrganismos cada vez mais resistentes.

Por fim, a terceira providência importante é a recomendação para a comunicação imediata da ocorrência dos fungos mencionados anteriormente com os quais Candida auris pode ser confundida. O isolamento dos fungos acima mencionados em culturas de sangue ou de outros espécimes clínicos deve ser enviado aos centros de referência, como o Laboratório de Epidemiologia Molecular e Doenças Infecciosas da FCM, pois os hospitais não dispõem de equipamentos mais sofisticados para essas análises.  A proposito, diz a docente: “Em nosso laboratório conseguimos sequenciar as amostras encaminhadas e identificar corretamente esse microrganismo para que os hospitais possam tomar inclusive medidas preventivas para evitar contaminações e surtos.” A especialista observa ainda que, como os microrganismos que podem ser confundidos na identificação com Candida auris são raros no dia a dia , os pacientes que apresentarem estas infecções, podem ser facilmente submetidos à atenção diferenciada de forma a evitar sua propagação.