Para quem os cientistas escrevemos?

Ilustração: Luppa SilvaVocês sabem ler? Em uma aula, eu discuto um artigo científico publicado na Science há alguns anos, que apresenta uma medida quantitativa da importância da leitura de ficção [I]. Duas vezes eu comecei a aula com essa pergunta, recebida com desconfiança pelos estudantes. Qual seria a pegadinha? A pergunta era retórica e eu respondia que eu ainda estava aprendendo a ler, pois na minha formação acadêmica fui treinado a ler apenas um tipo de texto. O interesse diletante, antes e depois dessa formação, levou a outros tipos, que apresentam desafios diferentes e precisam de aprendizados novos constantemente. Ainda não consigo, por exemplo, ler Martin Heidegger, tenho dificuldades com William Faulkner e Finnegans Wake, bem, talvez para quando me aposente. São alguns exemplos entre muitos. A mesma distância entre um e outro, nós e eles, vale para a atividade de escrever. A socialização profissional está concentrada na produção de um único formato de texto: o artigo científico da área do conhecimento de cada um. Nesse processo acabamos por identificar a escrita com a publicação: só os artigos publicados são lembrados e essa prática leva à naturalização da mesma. Ao transitar da minha área de conhecimento de origem, a Física, para uma nova, Estudos Quantitativos de Ciência, percebi a dificuldade em reconhecer que os textos em outras áreas do conhecimento são resultados de processos e construções de conhecimento diferentes. Essa fragmentação de sentidos está associada à história da profissionalização da ciência e o crescimento dessa atividade, que especializou formas de escrever e os públicos leitores. De um modo geral, a resposta à pergunta do título acima é: escrevemos para nós mesmos, os pares de um círculo muito pequeno de interessados.

O círculo de pares para o qual aprendemos a escrever são os profissionais da ciência que produzem o mesmo tipo de conhecimento ao qual nos dedicamos. É necessário escrever assim, mas não é suficiente. A restrição do grupo de potenciais leitores é uma barreira à ideia de ciência como um bem público, restringe seu acesso a quem poderia usufruí-la. Um exemplo de restrição se dá na escolha da divulgação do próprio artigo científico como estamos acostumados a escrever. A escolha de uma revista internacional de prestígio é a que dá a maior recompensa para o pesquisador, seu grupo, seu departamento ou programa de pós-graduação. A justificativa para a escolha é de que assim aumenta-se a visibilidade para um círculo ampliado de interessados, mas que produzem o mesmo tipo de ciência. Novamente, por um lado é necessário, porém essa “ampliação de público” pode representar a exclusão de outro. Que outro público seria esse? Usuários do conhecimento científico para diferentes fins.

Uma experiência nesse sentido é a comparação de acessos ou downloads de dois artigos que eu publiquei recentemente. O primeiro é artigo em uma revista internacional líder na área de estudos quantitativos de ciência (portanto, em inglês). Desde a disponibilização online do artigo, o indicador de possível uso aponta 233 downloads. Um pouco antes disso tive um artigo (em português) publicado como carta ao editor em uma revista brasileira. O número de acessos aos arquivos em pdf até o momento em que escrevo esta coluna é de 569. Enquanto o primeiro texto tem o potencial de transformar seu uso em algumas citações (pelos pares), o uso do segundo sugere um impacto maior deste. Coloca-se, portanto, o problema: para quem devo escrever levando em conta o uso mais abrangente do conhecimento veiculado? Em que revista? Em que língua?

A importância da disseminação do conhecimento científico na forma de artigos técnicos é perceptível pelos impressionantes indicadores de acessos aos artigos na base Scielo [II], que claramente apontam para o uso da ciência que ultrapassa o círculo restrito de pares, que produzem o mesmo tipo de conhecimento.

O dilema colocado ainda é restrito, pois refere-se a um único tipo de texto, o artigo científico para o qual somos treinados. E novos tipos? É o caso da divulgação científica, que busca um público bem mais amplo, que não só se interessa diletantemente por ciência, que precisa dela, sem necessariamente produzi-la, mas que pode debatê-la e influenciá-la. Por que não? Divulgação científica ainda é vista por muitos como uma simplificação da descrição de resultados de pesquisa, algo como comunicados de imprensa, dentro de uma perspectiva do que se chama “modelo do déficit”: especialistas “informam” o “público leigo” o que é a ciência. Perspectiva perigosa e cuja autoridade é colocada em xeque nesses tempos em que a terra é aplainada e assistimos a volta ao século XVII em saúde pública com a negação das vacinas.

Divulgação científica é criação de conhecimento, necessário para que a ciência seja de fato um bem público. Uma analogia, embora apenas parcial, aparece na ilustração da capa (imagem abaixo) de um dos meus livros prediletos desde a adolescência (e que eu uso em aula hoje). Observa-se no alto o nome do autor e no canto inferior direito a autora da adaptação. Não se trata de uma simplificação e sim de uma transcriação. O mesmo acontece com a boa divulgação científica. Mas não para aí. O exemplo da literatura juvenil é de criação a partir de um original, ou seja, voltando ao tema, seria a transcriação a partir do texto técnico-científico original. O caminho poderia ser perfeitamente inverso: a discussão mais ampla de ciência pautar a própria ciência.

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A tarefa não é fácil, percepção que advém das minhas tentativas com as colunas “Ciência Assim Assado”. Estou aprendendo a escrever com esse exercício e a dificuldade é exemplificada por um debate em rede social sobre a coluna anterior a essa em que discuto justamente o abismo crescente entre ciência e público: um participante da rede observou que eu usei a mesma linguagem que eu criticava. Touché! Por outro lado, a partir desses textos no terreno da divulgação, já nasceram dois projetos no território da pesquisa.

A boa-nova é que a percepção da necessidade de “escrever diferente” para um público mais amplo vem ganhando respaldo. No Brasil já é um campo de preenchimento possível nos onipresentes currículos da Plataforma Lattes, passa a ser requisito de financiamento de pesquisa e no mundo é debatido com mais frequência. A nova não tão boa é de como esse debate se dá em parte. E de quem faz isso. Primeiro o debate. Um exemplo é um texto de um blog da Scientific American: “Nós devemos recompensar cientistas pela comunicação com o público – universidades devem repensar como avaliar as promoções dos docentes” [III]. O título parece ir numa direção, bem como a maior parte do texto, mas trechos do texto apontam em outra. Vejamos uma citação direta:

“Para os estudantes de doutorado e cientistas em início de carreira, que decidem valorizar e participar na comunicação científica como parte de suas contribuições acadêmicas, podem existir várias vantagens. [...] a comunicação rotineira de ciência para o público permite aos pesquisadores se tornarem mais visíveis, tanto para os pares, quanto para o público. Essa visibilidade pode ajudar para chamar a atenção de financiadores, ser um caminho para influenciar políticas e, em alguns casos, pode impulsionar o número de citações de um artigo científico”.

Afinal, o interesse maior é a promoção da visibilidade no círculo de pares ou se comunicar com o público? A discussão se dissemina e é importante entender melhor como o público se relaciona com a ciência: “a interface entre ciência e público é complexa e cheia de preconceitos” [IV]. Esse texto que comenta o relatório Perceptions of Science in America mostra, entre outros dados, que 42% dos entrevistados não confiam, parcialmente ou totalmente, nos cientistas, quanto à comunicação de seus resultados, mesmo quando esses resultados são contrários às expectativas dos patrocinadores da pesquisa. Quase um terço (29%) não confia que cientistas sejam imparciais na apresentação de evidências em questões de interesse público. O relatório mostra também que o público não é monolítico e que não existe um único grupo demográfico “anti-científico”.

Entender melhor essas relações deveria fazer parte da formação e da socialização profissional dos pesquisadores. Com isso volto ao segundo ponto: quem se comunica com o público. Parte dessa formação e socialização profissional deveria ser voltada a novas práticas de escrita, além da do artigo científico. Não deixa de ser curioso que todos os pesquisadores se preocupam com a descrição de seus resultados para os pares, mas costumam delegar a outros a tarefa de comunicar-se com o público e assim para a efetivação da ciência como bem público. Vários colegas passam a fazer isso com o tempo e, como mencionado acima, a atividade começa a ser valorizada, mesmo que timidamente. Além desses ainda poucos pesquisadores, temos bons jornalistas científicos, mas a prática poderia ser generalizada se a ciência passar a ser entendida de modo diferente. Existem meios de veiculação desse tipo de produção. Artigos de divulgação científica guardam certo parentesco com os técnicos. Vejam a revista ComCiência [V] ou a recente e oportuna revista Questão de Ciência [VI]. Ainda relativamente próximos à escrita de artigos científicos temos os blogs, já anunciados como mortos em função de meios mais em voga como youtubers, seguem vivos e saudáveis. A plataforma de blogs da Ciência da Unicamp [VII] existe desde 2015 e é pioneira no Brasil. Para fins de registro e indexação tem seu ISSN e abriga no momento 34 blogs ativos. Quanto ao alcance, foram 125 mil visitas diretas à plataforma, via Facebook são mais de dois milhões e oitocentos mil acessos. Pelo Twitter, 200 mil ao mês. Instagram: 9.600 por semana. Para quem estiver interessado haverá nova chamada em maio de 2019.

Se a distância entre o texto científico e o público aumenta e não há como voltar atrás [VIII], precisamos aprender a escrever novos tipos de textos e acrescentá-los a nosso repertório. Se não, a pergunta do título e sua resposta podem deixar de ser apenas uma livre associação da ciência e cientistas com o poema de John Donne (1572-1631) [IX].

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[I] Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind, David Comer Kidd e Emanuele Castano, Science Vol. 342, Issue 6156, pp. 377-380 (2013).

[II] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/scielo-20-anos-de-visionario-imprescindivel

[III] https://blogs.scientificamerican.com/observations/we-should-reward-scientists-for-communicating-to-the-public/

[IV] https://blogs.scientificamerican.com/observations/the-complex-interface-between-the-public-and-science/

[V] http://www.comciencia.br/

[VI] http://revistaquestaodeciencia.com.br/

[VII] https://www.blogs.unicamp.br/

[VIII] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/o-abismo-crescente-entre-conhecimento-e-o-publico

[IX] https://www.revistaprosaversoearte.com/e-por-isso-nao-perguntai-por-quem-os-sinos-dobram-eles-dobram-por-vos-john-donne/