Amarração de uma aula: interdisciplinaridade, cibernética e o inusitado

Ilustração: Luppa SilvaMotivações para escrever uma coluna podem ser várias, mas essa é a primeira vez em que o ânimo vem da necessidade de organizar os apontamentos de uma aula. Trata-se aqui da dessa semana, consequência da anterior em que discutimos, na disciplina “Ciências Humanas e Sociais como Conhecimento Interdisciplinar” [I], o debate entre os sociólogos Gabriel de Tarde e Émile Durkheim. No decorrer do papo entre alunos e os dois professores presentes, um físico e um filósofo [II], veio à mente um manifesto de outro físico, Phil Anderson, que tem contribuições fundamentais para a ciência. Primeiro os sociólogos e, na sequência, o físico.

Por certa preguiça para a paráfrase em áreas que não domino, cito diretamente o comentário de Raphael Cruz sobre o debate [III]:

“O debate intelectual entre Gabriel Tarde e Emile Durkheim, no final do século XIX e início do XX, na França, foi fundamental para o futuro da sociologia. Ele foi marcado por posições divergentes em relação ao objeto e ao método, a subordinação ou autonomia da sociologia frente a psicologia e aos outros campos do saber. Durkheim enfatizou a primazia do coletivo sobre o individual, enquanto que Tarde realizava o caminho oposto. Enquanto o primeiro partia da análise dos fatos sociais, o segundo a iniciava a partir da psicologia individual. Durkheim advogava a especificidade do social e a autonomia científica da sociologia, enquanto Tarde defendia a dependência do social a consciência individual e a subordinação da sociologia à psicologia”.

O comentário é suficiente para entender a resposta que o físico daria. Philip Warren Anderson publicou em 1972 na revista Science um artigo-manifesto que se tornou célebre: “Mais é diferente – Quebra de simetria e a natureza da estrutura hierárquica da ciência” [IV]. Deixando de lado a simetria, detenho-me na estrutura hierárquica. O artigo é uma crítica à hipótese reducionista na ciência de que o único que realmente interessaria seria o conhecimento das leis mais fundamentais, pois todo o resto derivaria delas. Anderson contra-ataca dizendo que “a habilidade em reduzir tudo a leis fundamentais simples não implica na habilidade de, a partir delas, reconstruir o universo”. Uma crítica mais recente ao reducionismo em busca da “teoria de tudo” menciona que “A teoria de tudo não é a teoria de todas as coisas” [V]. Voltando a Anderson, ele continua dizendo que o comportamento de sistemas complexos não pode ser entendido em termos de uma extrapolação simples das propriedades de algumas partículas (entes, indivíduos, etc.). O que se espera é que a cada nível de complexidade, propriedades inteiramente novas aparecem (emergem) e o entendimento delas requer pesquisas, nas palavras de Anderson [VI], tão fundamentais quanto quaisquer outras. E aqui ele propõe a hierarquia, que aparece na ilustração abaixo. Embora as propriedades da ciência X sejam consistentes com a ciência Y, isso não implica que a ciência X é “apenas uma aplicação” da Y. A cada estágio, leis, conceitos e generalizações completamente novos são necessários. Ou seja, Química não é “aplicação da Física”, assim como Sociologia não é “aplicação da Psicologia”. Para Anderson, o placar, portanto, seria um a zero em favor de Durkheim. O resto do artigo envereda para a seara da Física e as quebras de simetria, mas o que importa aqui é o reconhecimento dos diferentes campos, hierarquizados pela complexidade crescente e, portanto, para um dos físicos contemporâneos mais importantes, a Sociologia seria a ciência no topo da escala de complexidade.

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A crítica ao reducionismo, construindo uma hierarquia baseada na complexidade deixa em aberto um problema. Se a cada estágio, leis, conceitos e generalizações completamente novos são necessários, como lidar com problemas que não se encaixam nesse ou naquele estágio? Como seria o diálogo entre, digamos, os feudos epistemológicos que acabam sendo criados na construção da interdisciplinaridade?

Existe uma vasta literatura sobre interdisciplinaridade, com toda uma taxonomia para as diferentes práticas e visões [VII], mas talvez seja interessante resgatar um exemplo: as “conferências Macy”. Patrocinadas pela Fundação Josiah Macy Jr., foram encontros de proeminentes intelectuais, entre 1946 e 1953. Os eventos reuniam diferentes disciplinas e eram mais formais do que conversas, mas mais informais do que congressos. O que se discutia eram trabalhos em andamento, permitindo uma troca de ideias interdisciplinar. Não foi fácil, mas não demoraram a perceber que era necessário estabelecer uma linguagem comum. Os encontros abordavam várias frentes, mas a mais bem-sucedida estabeleceu uma nova área do conhecimento, a cibernética. Mas estou indo rápido demais. Os participantes, talvez inspirados pela pesquisa colaborativa do período da guerra mundial, que findara há pouco, buscavam uma meta-teoria, tanto para as ciências naturais, quanto para as ciências sociais. É o que diz Richard Barbrook, no capítulo “A Máquina Humana” do seu livro “Futuros Imaginários”, que é onde tive o primeiro contato com a história das conferências. Resumindo, a interdisciplinaridade – encontro de disciplinas – buscando uma espécie de “teoria de tudo”.

Para se ter uma ideia da amplitude das áreas envolvidas nas discussões, detenho-me então na frente mais conhecida, a da Cibernética. A primeira conferência dessa série intitulava-se: “Mecanismos de retroalimentação em sistemas causais circulares em sistemas biológicos e sociais” [VIII]. A foto (abaixo) mostra os participantes. Entre eles William Ross Ashby (psiquiatra), Paul Lazarsfeld (sociólogo), Margaret Mead (antropóloga), Julian Bigelow (engenheiro de computação), John von Neumann e Norbert Wiener, matemáticos, sendo o último o “pai da Cibernética”. A lista é extensa e em alguns encontros ao longo dos anos, apareceram por lá, entre outros, Claude Shannon (“pai” da teoria da informação), Max Horkeimer (sim, o famoso filósofo) e Joseph Licklider, psicólogo e cientista da computação, que desenvolveu os conceitos fundamentais do que viria a ser a internet.

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O conceito de retroalimentação, ou seja, adaptação contínua de um sistema ao ambiente, funciona para máquinas e funcionaria também para todo o resto, segundo Norbert Wiener. Cibernética é, em resumo, isso: estudo e proposição de sistemas reguladores, máquinas com capacidade de aprender. Metáfora perfeita para a o mundo altamente tecnológico de então, promessa de controle sobre a comunicação e resposta de qualquer tipo de sistema a qualquer tipo de ambiente. A narrativa midiática em torno da Cibernética mudou de nome, hoje chama-se Inteligência Artificial, que pode ser vista como legítima sucessora no imaginário, mas nasceram praticamente juntas. Isso me faz lembrar, novamente, Richard Barbrook e o título de um dos capítulos do livro já mencionado: “Aqueles que esquecem o futuro estão condenados a repeti-lo”.

Além de Wiener, escolho fazer menção a William Ross Ashby, o psiquiatra. Se o primeiro foi o pai da Cibernética, o segundo foi um dos tios. Seu livro “Introdução à cibernética” é um clássico e chegou a nós pela editora Perspectiva [IX]. Um dos seus discípulos, Stafford Beer [X], tentou, enquanto Anderson escrevia seu artigo para a Science, acrescentar um novo patamar de complexidade à hierarquia das ciências. Beer aplicou a visão cibernética às corporações, afinal são sistemas que precisam se adaptar ao ambiente e, assim, é considerado o “pai da administração cibernética”. Seu maior projeto foi a de cibernetizar a economia do Chile de Salvador Allende. O projeto CyberSyn constituía de fluxos de informação em tempo real entre todas as fábricas e um centro de controle, ilustrado aqui (abaixo), tanto o esboço, quanto a instalação realizada. O “socialismo cibernético” [XI], como foi chamado, foi desmantelado com o golpe de Pinochet em 1973: os soldados golpistas ao entrar na sala de controle não tinham a mínima ideia do que se tratava. Daria certo? Como disse, o golpe interrompeu o experimento, mas pelo menos em um teste o conceito foi bem-sucedido. Em outubro de 1972, uma greve de 40 mil caminhoneiros bloqueou o acesso à capital do país, Santiago. Há registros [XII] de que o sistema de comunicação do CyberSyn (usando máquinas de telex) ajudou a organizar o abastecimento da cidade com apenas 200 caminhoneiros que não aderiram à greve. Hoje em dia, informação em tempo real por celulares tem o efeito contrário da comunicação em rede por telex e uma pitada de cibernética.

Definitivamente, o mundo como um todo não cabe em uma teoria. Nem em meia dúzia delas.

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[I] Do mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas da Faculdade Ciências Aplicadas da Unicamp.

[II] João José R. L. de Almeida

[III] https://cadernosociologia.wordpress.com/2013/01/12/o-debate-entre-durkheim-e-tarde-disputas-pela-sociologia/

[IV] “More is different”, P. W. Anderson, Science, vol. 177, p. 293-296, 1972.

[V] Ver: O Todo e a celebridade, Peter Schulz, ComCiência, dossiê 197: Divulgação Científica.

[VI] Phil Anderson dividiu o prêmio Nobel de Física com Nevill Mott e John van Vleck. Curiosamente, este último foi o orientador de Anderson, que se doutorou em 1949, mesmo ano em que outro dos orientandos de van Vleck defendeu sua tese em Física: Thomas Kuhn.

[VII] Para uma ideia geral recomendo um artigo de especialista para um público fora da especialidade: Interdisciplinary needs: The current contexto, Julie Thompson Klein, LIBRARY TRENDS, Vol. 45, No. 2, Fall 1996, p. 134-154.

[VIII] http://emcsr.net/looking-back-in-history-the-macy-conferences/

[IX] O livro, um amigo comprou e era objeto de veneração na nossa adolescência nos anos 1970. Quanto à editora, vale uma paráfrase de Winston Churchill: nunca tantos deveram tanto a uma editora.

[X] “Cybernetics and the Mangle: Ashby, Beer and Pask”, Andrew Pickering, Social Studies of Science 32/3 (2002), p. 413–437

[XI] https://www.newyorker.com/magazine/2014/10/13/planning-machine | https://99percentinvisible.org/episode/project-cybersyn/

[XII] “Designing Freedom, Regulating a Nation: Socialist Cybernetics in Allende's Chile”, Eden Medina, Journal of Latin American Studies, vol. 38(3), p. 571-606 (2006).