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Software melhora leitura e
escrita de criança disléxica

Fonoaudióloga desenvolve programa que pode ser usado em qualquer computador


Pesquisa realizada pela fonoaudióloga Cíntia Alves Salgado Azoni no laboratório de Distúrbios de Aprendizagem e Transtornos da Atenção (Disapre), da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, resultou no desenvolvimento do Programa de Remediação Fonológica (Prefon) para melhorar o desempenho da leitura e escrita em crianças com dislexia.

Trata-se de um software utilizado como ferramenta de comunicação que funciona em qualquer computador. Os resultados foram tão positivos, conforme descritos na tese de doutorado “Programa de remediação fonológica, de leitura e escrita em crianças com dislexia do desenvolvimento”, que Cintia solicitou à Agência de Inovação Inova Unicamp a proteção da tecnologia por meio de registro de programa de computador. A tese foi orientada pela neuropsicóloga e coordenadora do Disapre, Sylvia Maria Ciasca.

As queixas de dificuldades de aprendizagem são comuns na infância e adolescência e motivam grande parte dos encaminhamentos por professores aos profissionais da saúde, com objetivo de avaliação, diagnóstico e intervenção. Em 1968, a World Federation of Neurology utilizou o termo dislexia do desenvolvimento para definir um transtorno manifesto por dificuldades na aprendizagem da leitura, apesar da instrução convencional, inteligência adequada e oportunidade sociocultural.

O comprometimento da aprendizagem em crianças com dislexia relaciona-se principalmente a alterações de linguagem decorrentes de déficits no processamento da informação fonológica, acarretando atraso na aquisição e desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita. Assim, a criança com dislexia encontrará dificuldade, principalmente na escola, onde permanece boa parte de seu tempo.

As principais características observadas nestas crianças são: dificuldades na velocidade de nomeação de material verbal e memória fonológica de trabalho; dificuldades em provas de consciência fonológica (rima, segmentação e transposição fonêmicas); nível de leitura abaixo do esperado para idade e nível de escolaridade; escrita com trocas fonológicas e ortográficas; bom desempenho em raciocínio aritmético; nível intelectual na média ou acima da média; déficits neuropsicológicos em funções perceptuais, memória, atenção sustentada visual e funções executivas.

O Prefon traz estratégias de linguagem nas quais a criança com dislexia tem maior dificuldade como, por exemplo, a rima. Por ser o computador um atrativo motivador, foi feita uma parceria com alunos de mestrado do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp para o desenvolvimento dos paradigmas das atividades por meio de jogos para manter a atenção e o desempenho da criança.

Participaram deste estudo 62 crianças, divididas em três grupos. O primeiro, com 17 crianças com dislexia, foi submetido ao programa de remediação. O segundo grupo de crianças, também com dislexia, não foi submetido ao Prefon. O terceiro, denominado de controle, foi composto por 31 crianças sem dificuldades de aprendizagem. As crianças do primeiro grupo passaram pelas etapas de pré-testagem, treino e pós-testagem. O programa de remediação foi realizado em 20 sessões.

A avaliação mostrou melhora significativa no tempo de nomeação automática rápida, em consciência fonológica, na velocidade de leitura e habilidades de escrita. Muitos pais também relataram aumento do interesse dos filhos pela leitura, que antes não existia.
“O software tem atividades que podem ser utilizadas com uso de palavras do contexto cultural da criança. Pretendo fazer outras versões do programa para professores e pedagogos”, disse Cíntia. Segundo a fonoaudióloga, há também possibilidade do programa ser disponibilizado online na internet. O foco é a inclusão digital.

Segundo o neuropsicólogo Ricardo Franco de Lima, os disléxicos apresentam também dificuldades em outras habilidades cognitivas, como a atenção e funções executivas. A atenção, segundo Ricardo, é a capacidade do indivíduo em selecionar no ambiente interno ou externo o que é mais relevante.

As funções executivas se referem a um conceito multidimensional que envolve as habilidades cognitivas de áreas frontais do cérebro, como controle inibitório, flexibilidade mental, planejamento e uso de estratégias. Elas são ativadas quando o indivíduo tem que realizar qualquer atividade com um objetivo, como por exemplo, montar um quebra-cabeça.

Lima é autor de dissertação, apresentada no ano passado, que revela que crianças com dislexia são mais propensas a ter depressão. O estudo avaliou 61 crianças com idade entre 7 e 14 anos, dividas em dois grupos: um com diagnóstico de dislexia e outro sem dificuldades de aprendizagem.


“As crianças com dislexia relataram maior frequência de sintomas depressivos que crianças sem dificuldades, como avaliação negativa do próprio desempenho, sentimentos de culpa, ideação suicida, sentimentos de preocupação, dificuldades para dormir, problemas nas interações sociais na escola e comparação de seu desempenho com o de seus pares”, disse Ricardo.

 

Referência, Disapre
promove forum

De 2006 a 2009, foram encaminhadas por ano 2.300 crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem ao laboratório de Distúrbios de Aprendizagem e Transtornos da Atenção (Disapre) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Desse total, apenas 1,7% foi diagnosticada com os quadros de dislexia do desenvolvimento ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

O primeiro relato de TDAH ocorreu no século XIX, descrito pelo médico inglês Still. O TDAH manifesta-se por alterações na atenção e no comportamento (hiperatividade e impulsividade) que não são explicadas por outros transtornos ou problemas psicossociais em crianças.

Segundo Sylvia Maria Ciasca, casos de dislexia e TDAH são raros e o diagnóstico não é simples. No Disapre, a criança ou adolescente passa por avaliações neuropsicológica, neurológica, psiquiátrica, psicopedagógica, fonoaudiológica e psicomotora. Além disso, são obtidas informações com a família e contato com a escola para levantar dados relevantes sobre o desenvolvimento escolar da criança. Com um diagnóstico bem feito, a equipe indica as melhores formas de intervenções terapêuticas e tratamento.

“Nós recebemos um grande número de crianças com diagnósticos falso-positivos a partir de questionários respondidos por pais e/ou professores. O diagnóstico deve ser feito por uma equipe interdisciplinar e não em 15 minutos de consulta. No caso do TDAH, somente depois de muitas avaliações é que chegamos à conclusão sobre o melhor procedimento interventivo, geralmente psicoterapêutico, medicamentoso e apoio educacional. Somente a medicação não garantirá a eficácia terapêutica”, alertou Sylvia.

No dia 12 de abril, no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, acontece o fórum “Dislexia e TDAH: Evidências científicas”. O evento será realizado pelo Disapre e conta com o apoio e participação de representantes das Associações Brasileiras de Psiquiatria, de Dislexia, de Neurologia e Psiquiatria Infantil, de Psicopedagogia, do Déficit de Atenção e Sociedades Brasileiras de Fonoaudiologia, de Pediatria, de Neuropsicologia e de Neurologia Infantil. Além disso, estarão presentes representantes de instituições e serviços públicos que mantêm atendimentos às crianças e adolescentes com dislexia e TDAH.

De acordo com Sylvia, na atualidade torna-se cada vez mais importante a discussão a respeito destes temas. O TDAH é um transtorno neuropsiquiátrico causado por uma falha de neurotransmissão em determinadas áreas cerebrais. Em 2011, mais de 1.300 trabalhos científicos foram publicados em revistas especializadas nacionais e internacionais. O TDAH é um quadro grave que evolui em 80% dos casos para a idade adulta. Porém, quando bem diagnosticado, a intervenção garante a melhora na qualidade de vida destes indivíduos.
“O diagnóstico cumpre função específica e não deve ser classificatório ou estigmatizante. Serve para direcionar qual tipo de intervenção a ser feita, evitando até outros comprometimentos que essa criança possa vir a ter e levar para a fase adulta, como a depressão”, explicou Ricardo.

O objetivo principal do Fórum será reunir especialistas de renome para buscar instrumentos mais fidedignos de diagnóstico, tratamento e intervenção, visando, principalmente, revisar a formação de profissionais que lidam com os problemas.

“TDAH e dislexia são transtornos. Há excesso de medicalização em razão de diagnósticos incorretos. No entanto, toda a moeda tem duas faces e elas precisam ser vistas. A maioria das crianças atendidas no Disapre, por exemplo, tem dificuldade escolar e isto é um problema pedagógico e não neuropsiquiátrico”, reforçou Sylvia.

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Publicação
Tese: “Programa de remediação fonológica, de leitura e escrita em crianças com dislexia do desenvolvimento”
Autora: Cintia Alves Salgado Azoni
Orientadora: Sylvia Maria Ciasca
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)
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