IdEA recebe o engenheiro Mario Veiga no Programa do Cientista Residente

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O Programa “Cesar Lattes” do Cientista Residente do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp recebe neste ano, em sua quarta edição, o engenheiro eletricista Mario Veiga, um nome de referência do setor elétrico no Brasil e no exterior, com vasta experiência acadêmica, empresarial e de consultoria ao setor público. Veiga vai promover a partir de setembro uma série de atividades no IdEA, incluindo palestras abertas ao público em geral.

Natural do Rio de Janeiro, Veiga é graduado em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e mestre e doutor em Engenharia de Sistemas e Computação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fundador da empresa PSR, com atuação em cerca de 70 países, é fellow do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), nos Estados Unidos, e autor ou coautor de quatro livros e cerca de 200 artigos publicados em periódicos internacionais.

Veiga também é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Engenharia e recebeu a Medalha Presidencial do Rio Branco por suas contribuições ao setor elétrico brasileiro. Em 2021 foi eleito para a National Academy of Engineering (NAE), dos Estados Unidos, por contribuições à “otimização estocástica de sistemas hidroelétricos, planejamento energético e definição de políticas para a área de energia”.

Durante três meses, o cientista estará no IdEA promovendo um ciclo de palestras, reuniões com grupos de interesse e uma premiação voltada à busca de soluções científicas para problemas energéticos. “Energia do Futuro & Futuro da Energia” é o título da residência de Veiga, que começará, no dia 14 de setembro, com uma palestra abordando as previsões para a geração de energia no Brasil. Em 5 de outubro, o convidado discutirá os recursos tecnológicos de três eixos que deverão impulsionar o futuro do setor energético: a digitalização, a descentralização e a descarbonização.

O terceiro encontro, em 26 de outubro, apresentará um histórico sobre os problemas de organização institucional do setor de energia do Brasil desde a década de 1960.

No dia 9 de novembro, a apresentação final terá como foco a importância de realizar uma ação coordenada entre universidades, centros de pesquisa, agências governamentais, empresas privadas e organizações da sociedade a fim de buscar um caminho de racionalidade energética para o país. Todas as palestras serão no Auditório do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC), das 14h30 às 17h.

“Eu fiquei muito honrado pelo convite, não só pela importância da Unicamp e do Instituto, mas porque eu realmente me sinto muito em casa aqui”, declarou Veiga em entrevista ao Portal da Unicamp.

O engenheiro tem uma antiga ligação com a Unicamp, inicialmente com o professor Alcir Monticelli (1946-2001), fundador do Departamento de Sistemas de Energia Elétrica da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), a quem ele chama de “guru”. Essa proximidade ocorre também com outros pesquisadores ligados à área de otimização, como o professor da FEEC Christiano Lyra, atual coordenador do IdEA e idealizador da proposta de residência científica.

O engenheiro eletricista Mário Veiga: durante três meses haverá ciclo de palestras, reuniões com grupos de interesse e uma premiação para a busca de soluções científicas para problemas energéticos
O engenheiro eletricista Mário Veiga: durante três meses haverá ciclo de palestras, reuniões com grupos de interesse e uma premiação para a busca de soluções científicas para problemas energéticos 

O trimestre na Unicamp permitirá a Veiga estreitar ainda mais esses laços por meio de reuniões com pesquisadores, autoridades, gestores e estudantes de graduação e pós-graduação da engenharia elétrica e de áreas correlatas para discussão de projetos de pesquisa e inovação, assim como networking e troca de conhecimento e informações. Essas atividades serão promovidas tanto no formato presencial quanto no remoto, com foco em alunos e profissionais da Unicamp e de outras universidades, gestores públicos e privados do setor elétrico local e empresas juniores.

“Eu espero que tenhamos a participação não só do pessoal de engenharia, como também de física, de otimização, de tecnologia, e pessoas ligadas a atividades ambientais. A ideia não é fazer nada que seja abstruso, pelo contrário, a ideia é desmistificar certas coisas e mostrar que nós temos grandes oportunidades no Brasil”, explicou Veiga, que pretende atrair não apenas estudantes e professores da Unicamp, mas pesquisadores e profissionais de outras partes do Brasil, já que toda a programação será transmitida em tempo real pela internet.

O plano de atividades vinculadas à residência no IdEA inclui a organização de um concurso sobre soluções científicas em temas energéticos, em parceria com a PSR, da qual é diretor fundador e chief innovation officer.

Uma comissão científica formada por especialistas vai propor desafios baseados em problemas ainda não solucionados na área de energia para que pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação possam submeter suas soluções.

A perspectiva é de premiar a proposta vencedora com o apoio da PSR para a implementação da metodologia em código aberto e com uma viagem concedida ao vencedor para apresentar o trabalho em evento do Institute for Operations Research and the Management Sciences (Informs), em 2023, nos Estados Unidos.

Crise energética

Mario Veiga teve um papel central durante a crise energética que atingiu o Brasil no começo dos anos 2000. Ao longo de cerca de dois anos, prestou consultoria ao governo federal e foi um dos idealizadores da proposta de racionamento energético voluntário por parte da população, em contraposição ao racionamento obrigatório em rodízio, que na sua visão iria provocar um aumento ainda maior no consumo como consequência da demanda reprimida durante as horas de desabastecimento.

Observador atento do momento político que o Brasil enfrenta, Veiga tem um olhar positivo sobre o futuro, prevendo que o país vai superar as adversidades e encontrar seu caminho.

“A mensagem principal é de otimismo, não de otimismo irracional, mas a de que ainda há muita coisa incrível para ser feita. Somos tão massacrados com as notícias ruins do dia a dia que, às vezes, perdemos a noção de que o Brasil ainda tem um futuro espetacular e tem muita coisa a construir. Embora estes sejam momentos politicamente muito difíceis, há muita coisa interessante a se fazer.”

Filho de um casal de engenheiros e astrônomos, entre sete irmãos, Veiga sempre esteve imerso em física, astronomia e engenharia no ambiente familiar. No início da carreira, trabalhou no Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (CEPEL), vinculado ao Sistema Eletrobrás.

Depois foi para o exterior atuar como gestor de projetos de pesquisa no Electric Power Research Institute (EPRI), em Palo Alto, no Vale do Silício (Estados Unidos). Durante sua estadia naquele país, aproximou-se do matemático George Dantzig (1914-2005), que era professor da Universidade Stanford e o auxiliou nas pesquisas acadêmicas.

De volta ao Brasil, retornou para o CEPEL, mas logo pediu demissão por não estar satisfeito com a burocracia do Estado brasileiro, que obstruía as pesquisas, e foi dar aulas na PUC-Rio. Naquele momento, nos anos 1980, o país experimentava a política de reserva de mercado de informática, o que dificultava o acesso a equipamentos importados que tivessem similares produzidos no Brasil.

A pedido de Veiga, sua mãe – a engenheira e astrônoma Yeda Veiga Ferraz (1925-2020) – contrabandeou uma placa de processamento para um computador pessoal que permitiu ao filho fazer os cálculos que culminariam na criação do modelo de otimização operativa estocástica (SDDP).

Curiosamente, um primeiro rascunho desse modelo – que ocuparia um lugar central na atuação profissional do engenheiro nas décadas seguintes – foi escrito durante as horas em que ele ficou detido na área de imigração do Aeroporto do Galeão, enquanto aguardava a regularização de seu passaporte.

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O físico italiano Francesco Vissani que inaugurou o Programa Cientista Residente, em 2019

Programa Cesar Lattes

O Programa do Cientista Residente teve início em 2019 com a vinda para a Unicamp do físico italiano Francesco Vissani, professor do Gran Sasso Science Institute (GSSI). No ano seguinte, o IdEA recebeu o historiador da ciência Olival Freire Junior, docente do Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e o físico Rogerio Rosenfeld, do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Patrono do programa, César Lattes (1924-2005) gravou seu nome na história da ciência como um dos maiores físicos do Brasil. Graduado, em 1943, pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), se interessou pela física experimental, dedicando-se ao estudo de raios cósmicos.

Ao desenvolver trabalhos na Inglaterra para observar partículas elementares usando emulsões de filmes fotográficos, foi um dos responsáveis pela descoberta do méson pi, também chamado píon.

Lattes foi decisivo na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e na consolidação da pesquisa em física como uma área de atividade com referenciais internacionais nas universidades brasileiras. Professor catedrático do Departamento de Física da USP desde 1959, ajudou a criar, em 1967, o Instituto de Física da Unicamp, onde se aposentou em 1986.

Perfil desejado

O coordenador do IdEA, professor Christiano Lyra, avalia que a escolha de Mario Veiga para o programa foi natural. “Mario Veiga pode ser considerado um arquétipo de perfil desejado para cientista visitante. Tem o perfil e as honrarias de um grande acadêmico, mas desenvolveu a sabedoria de usar o conhecimento científico de forma muito mais ampla”, diz ele.

“Pessoalmente, ou por meio da empresa que criou (PSR), tem sido conselheiro para planejamento energético e desenvolvimento de políticas energéticas no Brasil, e em outros mais de 70 em países. A PSR é uma empresa que cria conhecimento, pela atuação de cerca de uma centena de pós-graduados, e tem muitas ligações com as universidades brasileiras”, explica ele.

Para Christiano Lyra, a ideia de convidar Mario Veiga para participar do “Programa Cesar Lattes do Cientista Residente” veio da observação de que ele havia deixado a posição de presidente da PSR e assumido os cargos de diretor fundador e chief innovation officer.

“Pareceu-nos um bom momento para registrar a história das suas contribuições ao setor de energia elétrica do País e para refletir sobre o futuro da área de energia.”

Lyra avalia que a participação de Mario Veiga no programa deverá motivar os alunos da Unicamp e de outras universidades – já que muitos poderão acompanhar os eventos por meio da internet.  “Além de indicar temas importantes para pesquisas, isso vai mostrar o valor do conhecimento, vai mostrar o quanto inovações nascidas nas universidades podem trazer de benefícios para o País”, finaliza o coordenador.

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