Dom Paulo, um humanista Honoris Causa

A triste notícia da morte do arcebispo emérito dom Paulo Evaristo Arns foi divulgada no início da tarde desta quarta-feira (14) e causou comoção nacional. Desde o dia 28 de novembro, o cardeal estava internado em São Paulo com um quadro de broncopneumonia, mas não resistiu e teve falência múltipla dos órgãos aos 95 anos de idade. Dom Paulo é doutor Honoris Causa pela Unicamp, o mais importante título concedido pela Universidade a personalidades de referência na sociedade. A honraria foi entregue em outubro de 2000. O reitor José Tadeu Jorge decretou luto oficial. 

D. Paulo Evaristo Arns

O coordenador-geral da Universidade, Alvaro Penteado Crósta, assinala a importância do reconhecimento do papel e do conjunto da obra de resistência à ditadura do cardeal ao longo de sua trajetória. “A Unicamp sempre teve uma posição de acolhida aos refugiados políticos, inclusive, de outros países como Chile e Argentina. É uma tradição da Universidade e, por isso, a figura de Dom Paulo sempre será celebrada no meio acadêmico”, declara o coordenador.

Crósta se lembra com admiração de Dom Paulo Evaristo, mesmo não o tendo conhecido pessoalmente. Na década de 1970, quando frequentava os bancos escolares na Universidade de São Paulo (USP) a luta do cardeal era muito referenciada na comunidade universitária. “Eu era estudante da USP e nutria uma profunda admiração pelas atividades de defesa do arcebispo para com os presos políticos. Mais tarde, também acompanhei o seu papel de destaque na reparação deste episódio da história”, declara.  

“Figura interessante e um mentor para a família”. A frase é da professora do Instituto de Biologia Clarice Weiss Arns, sobrinha do arcebispo emérito. Seu pai era primo-irmão de dom Paulo e os laços familiares eram fortes. Seu avô Jacob Arns foi o fundador e professor da escola do cardeal. Ela conta que se tratava de uma pessoa muito respeitada e querida na família pelo seu envolvimento em defesa dos direitos humanos e dos oprimidos. Aliás, a professora destaca que muitos familiares compartilhavam dos mesmos ideais do religioso, inclusive com participação ativa em movimentos. “Eu me lembro do episódio em que foi realizada uma missa ecumênica pela morte do jornalista Vladimir Herzog. A missa foi celebrada pelo Dom Paulo e pelo rabino Henry Sobel, pois Vladimir era judeu. Eu e outros familiares participamos deste que foi um ato político em homenagem ao jornalista”, relata.

Clarisse Arns visitava com certa frequência o tio e lembra com carinho das reuniões de família em que o arcebispo participava. “Nesta última internação estive visitando o meu tio no hospital, mas infelizmente ele não resistiu”, lamenta.

Brasil, Nunca Mais – Para o professor Prof. Dr. Christiano Key Tambascia, diretor adjunto do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), é bem conhecido o papel de dom Paulo Evaristo Arns na luta contra a ditadura no Brasil, especialmente por seu firme posicionamento contra a tortura praticada nesse período. “Dom Paulo teve uma importante atuação na defesa dos direitos humanos, sobretudo com seu trabalho junto às comunidades eclesiásticas de base em São Paulo”, declara.

Segundo Tambascia é importante destacar que foi através de seus esforços, junto ao já falecido pastor Jaime Wright, que um arquivo sobre os processos de presos políticos conduzidos durante o regime militar pôde ser produzido para a manutenção de uma memória da repressão no país: foram preservados, no período de redemocratização na década de 1980, mais de setecentos processos oriundos do Superior Tribunal Militar, totalizando cerca de 900 mil cópias de papel, além de fotografias e microfilmes.

O projeto coordenado por dom Paulo, denominado "Brasil: Nunca Mais", desenvolvido pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Arquidiocese de São Paulo, permitiu a conservação desse acervo, bem como a publicação do livro "Brasil: Nunca Mais" em 1985. Ao final do projeto as cópias e os índices de pesquisa produzidos foram doados ao AEL, constituindo um dos maiores e mais acessados fundos do Arquivo.

Trechos da matéria publicado no Jornal da Unicamp na época da cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa, em outubro de 2000. 

D. Paulo Evaristo Arns

D. Paulo entrega obras à Unicamp

A concessão do título de Doutor Honoris Causa a dom Paulo Evaristo Arns consolidou uma relação antiga entre o religioso e a Unicamp. Os documentos usados para produzir o livro "Brasil, Nunca Mais", que revela os horrores do período ditatorial, foram doados em 1985 pelo arcebispo emérito de São Paulo à Universidade. Atualmente, compõem o acervo do Arquivo Edgard Leuenroth.

No último dia 20 de outubro, dom Paulo presenteou a instituição com duas novas obras de inquestionável valor histórico. A primeira é um relatório produzido pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. O documento conta como foram obtidas as provas do uso da tortura pelo regime militar. Conforme dom Paulo, o trabalho foi minucioso. Durante a noite, um grupo orientado pelo próprio Wright, pela jornalista inglesa Jeane Rocha e pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh copiava os processos abertos pelo governo contra os presos políticos. De dia, os papéis eram levados até um local seguro. Para evitar que os militares descobrissem o esconderijo, a documentação foi trocada de local por pelo menos cinco vezes.

"Um dia, invadiram o Arquivo Arquidiocesano, que fica no Ipiranga. Reviraram tudo, mas não destruíram os papéis", recordou o cardeal. Mais tarde, dom Paulo decidiu procurar um lugar onde a coleção pudesse ser guardada com segurança e, ao mesmo tempo, ficasse à disposição da sociedade para consulta. "Procuramos um amigo corajoso que protegesse os documentos. A pessoa mais corajosa que encontramos estava encarnada na Unicamp. No mesmo dia, transferimos todo o acervo para cá", contou o arcebispo emérito.

Seu segundo presente à Universidade é o livro "Desaparecidos em la Argentina". Produzido pela mesma equipe, ele traz a relação de aproximadamente 8 mil desaparecidos políticos daquele país. De acordo com dom Paulo, o livro foi entregue somente ao papa, em 1983. "Nós esperamos a volta da Argentina ao regime democrático para tornar a obra pública", explicou. Conforme o levantamento, 23% dos desaparecidos eram estudantes. O restante tinha entre 19 e 30 anos. O livro foi editado posteriormente em português, espanhol e inglês. Nos últimos 17 anos, nenhuma das informações contidas na obra foi contestada.

Uma figura superlativa

Dom Paulo Evaristo Arns é uma figura superlativa. Nascido num lugarejo de Criciúma (SC) em 1921, ele ingressou na ordem franciscana em 39. Trabalhava como vigário nos subúrbios de Petrópolis (RJ), quando foi indicado, em 66, bispo auxiliar de dom Agnelo Rossi, cardeal nascido em Campinas. Quatro anos depois, acabou nomeado arcebispo de São Paulo.

Assim que assumiu a arquidiocese, dom Paulo incrementou a participação dos leigos nas atividades desenvolvidas pela Igreja e assumiu de forma destemida a defesa dos direitos humanos, constantemente violados no período do governo militar.

Em 75, o cardeal definiu, com a participação dos bispos auxiliares, as prioridades das regiões episcopais. Assim, ficou estabelecido que cada setor deveria assumir e articular as quatro prioridades escolhidas pelo povo: comunidades eclesiais de base, direitos humanos e marginalizados, mundo do trabalho e pastoral da periferia.

Dom Paulo formou-se em Patrística e Línguas Clássicas pela Universidade de Sorbonne. É autor de 48 livros e recebeu aproximadamente 100 títulos nacionais e internacionais, a maioria como reconhecimento por sua luta em defesa dos direitos humanos. (Texto: Manuel Alves Filho)

 

Imagem de capa

D. Paulo Evaristo Arns | Foto: senadopopular.com.br
D. Paulo Evaristo Arns | Foto: senadopopular.com.br