A questão ambiental é tema do Café com conversa em setembro

Por Everaldo Rodrigues (Editora da Unicamp / Especial para o JU)

Está no ar o programa “Café com conversa” gravado no dia 18 de setembro de 2019, produzido pela TV Unicamp, em parceria com a Editora da Unicamp e a CPV-Funcamp. O tema do debate foi “A questão ambiental”, com a participação de Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e ex-coordenador do Programa Biota-Fapesp, e Leila da Costa Ferreira, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma universidade e organizadora do livro A questão ambiental na América Latina, lançado pela Editora da Unicamp em 2011.

A questão ecológica é pauta relevante e atual, em especial no Brasil, onde ganhou destaque ao longo do mês de agosto. As recentes queimadas na região amazônica se estenderam por vários dias e com uma intensidade inédita. Desde então, o caso tem sido assunto na mídia e na política internacional. Diversos países, que negociam comercialmente com o Brasil, emitiram declarações que foram desde ameaças de boicotes a produtos brasileiros até sugestões de intervenção administrativa na Amazônia, caso o governo não se posicionasse para combater a crise. As queimadas intensas estão sendo investigadas pela Polícia Federal, com forte suspeita de terem sido causadas por um movimento conjunto de produtores rurais.

Desde sua posse, o presidente Jair Bolsonaro tem assinado decretos que afrouxam a fiscalização em áreas florestais e propõem o perdão de multas ambientais. Somam-se a isso a forte influência da bancada ruralista na Câmara e os impactos negativos da administração de Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente, cuja atuação tem gerado mal-estar entre diversos órgãos, como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que pedem sua demissão. Direta ou indiretamente, tais medidas soam como incentivo aos grandes produtores rurais e exploradores de minérios.

Dados de satélite divulgados no mês de julho pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que, no decorrer de 2019, os focos de incêndio aumentaram 80% no Brasil, em relação ao mesmo período de 2018. A divulgação desses dados causou uma crise entre o governo e o ex-presidente do Inpe, Ricardo Galvão, que foi exonerado, em mais uma atitude polêmica de Bolsonaro. Para Leila da Costa Ferreira, que é membro, desde 2005, do Lead Faculty of the Earth System Governance Project, a resistência de alguns políticos a levar em consideração dados científicos de impacto tem a ver com estruturas sociais. “Não há a menor dúvida, do ponto de vista científico, sobre a questão das mudanças climáticas e sua relação com a ação humana. Mas os políticos menos sérios têm a necessidade de negar tais dados porque isso diz respeito ao nosso cotidiano, aos nossos processos de consumo, ao nosso processo de desenvolvimento, enfim, e mexe com estruturas sociais muito elementares para que os políticos saibam lidar com elas.” Fica evidente como políticas governamentais que deveriam ser consideradas “de Estado”, como planos de preservação ambiental ou de redução de gases do efeito estufa, são reavaliadas e às vezes até abandonadas, dependendo da mudança de comando da nação.

O desmatamento também repercute sobre a imagem do Brasil pelo mundo, não só politicamente como economicamente. “Um dado recente mostra que o mercado de exportação de carne é responsável por 13% do desmatamento atual. Isso vai ter uma repercussão imediata na Europa. Já há países europeus que vão dizer: ‘Não compramos mais carne do Brasil, porque não queremos ser indiretamente responsáveis pelo desmatamento que ocorre lá’”, diz o professor Carlos Alfredo Joly.

A crise coloca o Brasil no centro de um debate que envolve o mundo inteiro. A região amazônica é o maior bioma do planeta, responsável, entre outras coisas, pelos ciclos de chuva da região Sudeste, uma vez que grande parte do volume de precipitação que ali chega depende dos chamados “rios aéreos”, nuvens de vapores atmosféricos oriundas da Amazônia. Pesquisas recentes indicam, inclusive, que as crises de abastecimento hídrico, enfrentadas nos últimos anos pelos paulistas, estão diretamente ligadas ao desmatamento descontrolado da floresta amazônica. Os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia, especialmente nesta sexta-feira (20), quando começa a Greve Global Pelo Clima, protestos que serão realizados em diversos países do mundo, com o objetivo de chamar a atenção para as mudanças climáticas e os efeitos nocivos da ação humana sobre a natureza. Leila da Costa Ferreira, neste caso, não titubeia: “Estarei lá, na rua, com os jovens”.

Assista ao programa