Catão e os valores rústicos em ‘Da agricultura’

Uma tradução pioneira do mais antigo registro em prosa da literatura latina

Da agricultura, de Marco Pórcio Catão (234 a.C.-149 a.C.), é o mais antigo registro em prosa que nos chegou da literatura latina. Livro riquíssimo pela variedade de temas, constitui uma fonte privilegiada para o estudo do latim em seu estágio mais arcaico. A edição publicada em 2016 pela Editora da Unicamp traz a primeira tradução para o português brasileiro, a qual foi realizada por Matheus Trevizam, docente da Faculdade de Letras da UFMG e dedicado estudioso dos temas técnicos e didáticos nas letras antigas.

A obra representa um tempo que considerava o campo como local privilegiado para a vida. Segundo modelos tradicionais de existência, o elogio da vida rústica contrapõe-se nela à caracterização da cidade. O luxo e as constantes inovações que se davam no meio urbano eram entendidos como um indício da inferioridade dos citadinos em relação aos camponeses (descritos como austeros, viris e corajosos). Um bom exemplo dessa valorização da vida rústica encontra-se em sua introdução:

Mas, um homem bom a quem elogiavam, elogiavam assim: “um bom agricultor e um bom fazendeiro”. Julgava-se que quem era elogiado assim era enormemente elogiado. Considero o comerciante diligente e empenhado na busca da riqueza. Em verdade, porém, como eu disse acima, há risco e perigo nos negócios. Mas, dentre os que se dedicam à agricultura, saem homens do maior vigor e soldados da maior coragem; daí se obtém o ganho mais justo, seguro e o menos invejado, e minimamente insidiosos são os que se ocupam deste labor. (p. 49)

A mesma tópica é posteriormente retomada pelo erudito romano Varrão em seu célebre Das coisas do campo, também traduzido para o português por Matheus Trevizam (Editora da Unicamp, 2012). Trata-se de uma obra representativa do mesmo gênero técnico romano e que cita explicitamente a autoridade de Catão como profundo conhecedor das particularidades agrárias. No início do terceiro livro, Varrão escreve sobre a ancestralidade do cultivo do campo e a superioridade dos camponeses, uma vez que, “não sem motivo, nossos ancestrais reconduziam da Cidade aos campos seus concidadãos, pois na paz eram alimentados pelos romanos rústicos e, na guerra, socorridos” (p. 207).

Em Da agricultura somos apresentados a diversas prescrições de quais seriam as melhores práticas para o cultivo na época do autor, além de uma série de costumes presentes na vida campesina. Temos, por exemplo, recomendações para a cura de enfermidades humanas e animais, para o trato com os escravos, cuidados para os cães que faziam a vigilância da propriedade e ainda, entre outros temas, indicações de possíveis usos medicinais dos produtos do campo. São usos que, testados mediante métodos especulativos, pareciam comprovadamente benéficos à saúde. Um exemplo é o emprego da couve, hortaliça que, segundo Catão, “reúne em si todas as coisas necessárias para a saúde” (p. 155), sendo utilizada contra luxações, úlceras e dores diversas.

Ao ler a obra, percebemos certa espontaneidade na composição e na forma com que Catão realiza o sequenciamento dos capítulos, o que explica o fato de um assunto ser abordado em determinado ponto da obra e, posteriormente, retomado vários capítulos depois. Em seu livro Prosa técnica, Trevizam chama a atenção para o que parece ser a escrita de um manual rústico, redigido e compilado no decorrer dos anos. Assim, Da agricultura “parece-nos revelar, antes de mais nada, um compromisso com a feitura de ‘notas’ de fato atinentes à concretude e à imediatez da lida agrícola, nem sempre com um pausado gesto de escrita...” (Editora da Unicamp, 2014, pp. 33).

Mas esse aspecto não deve levar-nos a pensar que seja desatenta a escrita de Catão. O escritor almeja conferir a maior precisão possível àquilo que escreve. Sua redação constrói, muitas vezes na forma do imperativo, uma relação do autor com o leitor na qual cabe ao primeiro a tarefa de transmissão direta dos seus conhecimentos. Temos também a reiteração e a perceptível redundância de algumas passagens, que sugerem seu cuidado para que o texto pudesse ser facilmente memorizado.


A vida de Catão: da ascensão política à defesa dos valores tradicionais

Incluído na “linhagem de auctores rerum rusticarum”, ou seja, autores cuja autoridade de escrita decorre da própria vivência no meio rústico (2014, p. 49), Catão, o Censor, é originário da região de Túsculo. Viveu seus primeiros anos no campo, em uma comunidade fortemente ligada à vida religiosa e a seu modo de existência. Tendo posteriormente ingressado na vida militar, seguiu o cursus honorum, isto é, as sucessivas ocupações que cabiam aos romanos ao longo da carreira política. Em 195 a.C., chegou ao cargo de cônsul (o mais alto da política romana, que correspondia ao governo executivo da República), ao lado de Lúcio Valério Flaco. Posteriormente, foi também Censor morum, vale dizer, o responsável pelo cuidado relativo ao comportamento dos cidadãos e pela realização do censo (cargo que lhe garantiu a alcunha citada).

Autor de vasta produção literária (da qual nos chegou de forma completa apenas Da agricultura), suas obras recobrem um amplo conjunto de domínios do conhecimento. Escreveu um de re militari (sobre técnicas militares romanas), um tratado de direito civil, o Carmen de moribus (obra em prosa de cunho moral), um texto historiográfico intitulado Origines, que descrevia eventos importantes para a história de Roma, das origens aos tempos do próprio Catão.

De sua vida e do que se sabe sobre suas obras, há um aspecto fundamental: a determinação em viver conforme os modelos tradicionais de existência. Trata-se dos padrões de comportamento que se ligavam ao mos maiorum, ou seja, os princípios aos quais se voltavam os romanos na tentativa de proteger a própria cultura da inevitável passagem do tempo e do confronto entre gerações. Segundo o tradutor, esses modelos correspondiam às atitudes habitualmente empregadas em diversas ocasiões da vida, “como a exposição aos perigos do luxo ou do ataque inimigo, as dores e os prazeres que se experimentam ao sabor da fortuna, a iminência da morte...” (2014, p. 73).

Por outro lado, percebe-se em Catão certa abertura às inovações de cultivo, provavelmente decorrente da necessidade de produção em áreas mais extensas, em virtude da busca por maior autossuficiência, produtividade e lucro. Essa obrigação de que o produtor seja, acima de tudo, aquele que vende tudo o que produz e busque autonomia, dependendo o mínimo possível dos outros proprietários, é descrita no final do segundo capítulo:

Venda em leilão: venda o azeite, se tem bom preço, o vinho e o trigo que for excedente; os bois velhos, o gado que tem um pequeno defeito, as ovelhas que têm um pequeno defeito, a lã, as peles, a carreta velha, as ferramentas velhas, o escravo velho, o escravo doente e, se algo mais for excedente, que venda. É preciso que o senhor seja vendedor, não comprador. (p. 53)

Coube a Catão, portanto, empreender a tarefa de compor um manual sobre a agricultura. O livro é ainda uma importante fonte documental das inovações agrícolas que se consolidavam em Roma, em decorrência das novas possibilidades de mercado obtidas pela vitória sobre Cartago ao final da Segunda Guerra Púnica, em 201 a.C.

Essa edição de Da agricultura, em formato bilíngue, possibilita o cotejo direto com o original latino. A tradução tem a assinatura de Matheus Trevizam, uma das maiores autoridades brasileiras no estudo da literatura técnica antiga. O tradutor também idealizou, ao lado de Paulo Sérgio de Vasconcellos, a coleção “Bibliotheca Latina”, da Editora da Unicamp.

 


Os desafios de traduzir o tratado fundador da prosa literária latina

João Guilherme Santos

Matheus Trevizam, tradutor de Da agricultura, de Catão (Editora da Unicamp, 2016), é um dos mais reconhecidos latinistas brasileiros. Formado pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, atualmente é professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, na qual ministra disciplinas relacionadas ao estudo da língua e da literatura latinas. É também profícuo tradutor, tendo vertido de forma integral obras técnicas (Das coisas do campo, de Varrão) e didáticas (Arte de amar, de Ovídio). Em parceria com Paulo Sérgio de Vasconcellos, professor de língua e literatura clássica do IEL, organizou a edição da Eneida brasileira (Editora da Unicamp, 2008). Fruto da mesma parceria é a coleção “Bibliotheca Latina”, publicada também pela Unicamp.

De acordo com o tradutor, Da agricultura nos mostra o trabalho de um autor confrontado pela primeira vez nas letras latinas com a tarefa de redação de um manual das práticas agrícolas. Redigido em um registro pré-clássico (anterior a autores como Virgílio e Cícero), o livro traz significativas contribuições para o estudo de elementos do latim arcaico. “Vemos nesse texto em prosa, pela primeira vez, o emprego da língua latina de modo extenso e razoavelmente sistemático, permitindo-nos fazer detidas observações”, explica. Não por acaso, sua tradução exigiu um cuidadoso trabalho de atenção à língua, ao estilo de Catão e a determinados processos e utensílios técnicos da vida no campo (alguns dos quais sem exata correspondência no mundo moderno). Nesta entrevista, Trevizam comenta esses e outros desafios enfrentados por ele em tal empreitada.


Escrita em latim arcaico e considerada a primeira obra em prosa redigida com vistas à difusão em maior escala, quais são as contribuições de Da agricultura para o estudo da língua latina pré-clássica?

Matheus Trevizam – A contribuição do De agri cultura para o conhecimento do latim arcaico, ou pré-clássico, é imensurável: juntamente com o legado de Plauto [autor de peças teatrais na era da república romana], vemos nesse texto em prosa, pela primeira vez, o emprego da língua latina de modo extenso e razoavelmente sistemático, permitindo-nos fazer detidas observações. Vários recursos linguísticos, assim, que vieram a ser abandonados ou muito restritos em tempos subsequentes, como os velhos infinitivos passivos em -ier (opturarier, “ser tapado”, cap. CLIV), o advérbio partim (“em parte”, advindo do acusativo em “i” da palavra pars), as preposições ergo (“por causa de”, regendo genitivo) e fini (“até o ponto de”, regendo ablativo), a prevalência absoluta da parataxe, entre outros, encontram em De agri cultura livre emprego. Também se deve considerar, a partir da leitura do livro The Latin language, de L. R. Palmer [Norman/London: University of Oklahoma Press, 1988, p. 123], que o De agri cultura testemunha a respeito da primeira estilização cabível para a prosa latina, como se, encontrando no texto uma mescla mais ou menos hesitante de influências retóricas, velhas fórmulas estereotipadas de súplica aos deuses e, talvez, oralidade, divisássemos um dos ensaios inaugurais para a concretização dessa vertente expressiva.


A leitura do livro nos permite vislumbrar determinadas marcas da oralidade desse estágio pré-clássico da língua?

Matheus Trevizam – Não é sem controvérsias que se falaria em “oralidade” a propósito de certos traços do De agri cultura – como a concretude, não abstração, da maioria das formulações; as repetições frequentes, de palavras, frases e estruturas, conferindo ao texto certo caráter mnemônico; a recorrência aos diminutivos etc. –, pois sempre existe a possibilidade de tratar-se de meios deliberadamente construídos na escrita, com vistas à obtenção de objetivos específicos (como a clareza e a imediata limpidez na transmissão de comandos técnicos).


Tendo em vista as prescrições por vezes detalhadamente técnicas sobre a cultura no campo, a riqueza vocabular e a tentativa de empreender uma composição que confira a maior precisão possível àquilo que se escreve, quais foram os maiores desafios para a tradução de Da agricultura?

Matheus Trevizam – Publiquei há pouco um artigo, intitulado “Os desafios da tradução de textos ‘agronômicos’ latinos”, em uma revista brasileira da área tradutória [Rónai: Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios] e expliquei ali que dificuldades e desafios ocorrem durante a tradução de obras de todo tipo, pois sempre é preciso fazer complexas negociações entre o léxico da língua de partida e aquele da língua de chegada, dar atenção aos traços estilísticos a serem recriados – ou não – quando traduzimos e ter plena consciência de que o universo cultural do outro (sobretudo ao abordarmos obras antigas) tende a ser nitidamente distinto do nosso. No entanto, quando tocamos em um texto técnico como o De agri cultura, esses desafios assumem dimensões, em certo sentido, especiais: assim, abundam nas páginas dessa obra vocábulos indicativos de antigos tipos de vinhas ou outras plantas, de peças de maquinário agrícola ou dos próprios utensílios de uso diário nas “fazendas” romanas, muitas vezes sem exatos correspondentes nos idiomas modernos. O tradutor também depara – em geral, urbano e leigo em saberes agronômicos e veterinários que é – a desconcertante necessidade de ter de passar ao vernáculo longos trechos descritivos de operações, objetos e processos que jamais viu, sendo obrigado a “enxergá-los”, como possível, apenas através dos olhos do autor traduzido; as passagens vinculadas à montagem de equipamentos para a prensagem de azeitonas ou uvas (capítulos XVIII-XXII), a propósito, enquadram-se nessa situação. Por fim, é tentador querer burlar o estilo catoniano, tantas vezes enfático, “rispidamente” imperativo e, em geral, sem grandes aberturas para pausas na dura preceituação, mas qualquer “embelezamento” desse texto acarretaria sérios riscos para uma depreensão mais exata do modo expressivo, bastante límpido e direto, da prosa do autor.


Levando em consideração a minúcia a que chegam as recomendações do livro (em relação ao plantio de olivais e vinhedos ou sobre a construção da sede da propriedade, por exemplo), a ideia que resulta da sua primeira leitura é a de uma grande homogeneização das práticas agrícolas na época de Catão. Essa ideia corresponde ao que de fato ia se tornando, após a segunda guerra púnica, a cultura do campo em Roma?

Matheus Trevizam – De fato, em certas partes da península itálica – Campânia e Lácio –, onde tradicionalmente os membros das Ordens superiores de Roma concentraram suas propriedades, parece ter havido, a partir do século II a.C., importante prevalência de cultivos arbóreos, como os das oliveiras e vinhas, os quais se conduziram de forma parecida com aquela descrita, com muitos detalhes, no De agri cultura catoniano. Tal modo produtivo, contudo, demandava condições especiais para dar-se com sucesso, já que a viticultura, sobretudo, exigia emprego maciço de mão de obra (em geral escrava), o uso de ferramentas e equipamentos custosos, o trabalho sobre extensões de terra razoavelmente vastas etc. Não se tratava, assim, de um direcionamento de cultivo acessível a todos, ou mesmo viável para todas as áreas da Itália, o que leva a crer que resquícios do antigo modo de produção, em terras familiares cuidadas pelo pater familias para o atendimento a mercados locais (não para a venda em larga escala), devem ter persistido em algumas zonas da península.


No livro Prosa técnica, de sua autoria [Editora da Unicamp, 2014], você cita um dado da obra A literatura latina, de Zelia Almeida Cardoso [Martins Fontes, 2003, p. 188] que destaca a preocupação de Catão em relação ao êxodo do homem do campo. Nesse sentido, seria possível entender certas passagens do Da agricultura como tentativas não apenas de salvaguarda da tradição, mas também de valorização da vida rústica, a fim de combater o êxodo rural?

Matheus Trevizam – O modelo agrícola vinculado à exploração escravista em larga escala aos poucos acarretou, segundo alguns autores, pressões econômicas, sobretudo para os pequenos produtores rurais ainda subsistentes nas zonas de introdução desse tipo de cultivo. De acordo com Jean-Noël Robert na obra La vie à la campagne dans l’Antiquité romaine [Les Belles Lettres, 1985, p. 92], os camponeses de condição mais modesta, incapazes de competir pela rentabilidade de suas terras com as de seus ricos vizinhos, podem em parte ter engrossado as fileiras dos homens atraídos para a vida urbana. Porém, ao pensar nos objetivos do tratado catoniano, devemos entender que se trata de um texto de feições “elitistas”, no sentido de que os preceitos nele contidos não se aplicam às pequenas terras dos que as trabalhavam “com suas mãos” e, no máximo, uns poucos escravos. Nesse sentido, se há alguém que Catão tenha desejado impedir de desvincular-se por desinteresse a suas terras, esse há de ser compreendido, sobretudo, como o romano de posses e, em geral, dos estratos sociais mais altos. Tais homens, mesmo que divididos também entre afazeres urbanos – dedicação às esferas política e/ou militar, como era comum –, não deveriam, esse era o pensamento de Catão, abandonar por inteiro o cuidado com suas terras, quer delegando-as de todo a trabalhadores especializados – como o uillicus/“capataz” –, quer, ainda pior, desistindo para sempre de cultivá-las.


A valorização da vida no campo parece ter sido um tópico que perdurou na literatura latina. Em Das coisas do campo, de Varrão [Editora da Unicamp, 2012], a vida campesina é contraposta à vida na cidade, caracterizada como dispendiosa. Quais foram as razões que fizeram essa temática se tornar tão recorrente?

Matheus Trevizam – Sabemos que a literatura antiga operou pela mobilização de tópoi, vale dizer, de modos previamente codificados de dizer, distanciando-se muito, por tal motivo, da noção mais moderna e, em certo sentido, romântica da criação “original”. Já nos Adélphoi [comédia traduzida em português como Os dois irmãos] de Públio Terêncio Africano – cuja primeira encenação ocorreu em 160 a.C. –, notamos a contraposição entre campo e cidade, respectivos “cenários” da criação de Ctesifonte e Ésquino, dois irmãos separados na infância; por sua vez, essa peça em latim remontava a modelos gregos, de Menandro e Dífilo (séculos IV-III a.C.). Já apareciam nessas obras questões como o caráter dispendioso e “corruptor” das cidades – por oposição à “sanidade” dos campos –, embora não sem profundos questionamentos. Nesse sentido, Varrão, com seu De re rustica (século I d.C.), não escreveu num vácuo criativo completo ao contrapor os campos às cidades, valorizando os primeiros. Mas também é preciso levar em conta que os romanos, como destacou Pierre Grimal em Virgílio, ou o segundo nascimento de Roma [Martins Fontes, 1992], guardaram nostalgicamente o apreço por suas origens camponesas, muitas vezes tidas como espécie de lastro moral da sanidade de Roma; ou seja, essa cidade crescera e adquirira forças porque os ancestrais foram honestos camponeses – frugais, diligentes, entregues aos deveres etc. Dessa perspectiva, a reiterada presença do tópos de valorizar o campo pode ainda ser vista como insistência dos autores latinos em mostrar a seu público a “reta via”.


Os estudos mais recentes ratificam a alegada rusticidade romana em períodos arcaicos ou devemos ler certas passagens do livro como anedóticas? Em outras palavras, poderíamos encontrar já em tempos antigos um acentuado refinamento nas criações romanas, ou trata-se de um fenômeno realmente mais tardio?

Matheus Trevizam – Os dados materiais têm demonstrado que, de fato, conforme ensinava a tradição, Roma foi fundada por volta do século VIII a.C., como modesta comunidade defensiva agrário-pastoril [Brian Campbell, The Romans and their world: A short introduction. Yale University Press, 2011, pp. 1-2]. Antes de desenvolver-se e sofisticar-se materialmente, essa cidade passou por longo caminho, e até por graves percalços – como a invasão gaulesa e os saques do século IV a.C. Ainda no começo da era imperial, Augusto se vangloriava de “ter deixado de mármore a Cidade de tijolos que encontrara” (Suetônio, Vida de Augusto, XXIX). No tocante às artes e aos saberes distintos da arquitetura e do urbanismo, note-se que a literatura latina apenas se desenvolveu sistematicamente, por benéfico impulso de formas helênicas, quando a era clássica da Grécia já tinha passado, correspondendo o teatro de Plauto (século III a.C.) ao mais antigo corpus literário de que dispomos em latim. Ainda convém lembrar que a retórica, a medicina e a filosofia, não tendo nascido em Roma, nem mesmo na Itália, também adentraram de maneira tardia a cultura romana, gerando, muitas vezes, desconfianças e reações violentas. O próprio Catão, por sinal, foi o responsável, como Censor, por expulsar como “subversiva” a embaixada dos filósofos – Carnéades, Diógenes, entre outros – da cidade, em 155 a.C. Com isso, quis-se dizer que as raízes de Roma foram modestas e, na verdade, totalmente rurais, mas a espantosa capacidade de seu povo de superar-se e de aprender no contato com outras culturas acabou por dotá-lo de talento para perenes realizações em vários campos do saber humano.


Por fim, uma questão de ordem um pouco mais pessoal: Como se deu seu contato com a prosa técnica latina e seu interesse em ingressar nesse campo de estudos? O fato de a maior parte dos escritos de Catão e Varrão não ter sido preservada até nossos dias dificulta o estudo do gênero e da escrita desses autores?

Matheus Trevizam – Meu contato com esse tipo de literatura se deu quando, depois de ter estudado a poesia erotodidática romana – Ars amatoria, de Ovídio – em um mestrado de latim na Unicamp, necessitei encaminhar-me para a fase de doutorado, buscando outro tema de pesquisa afim, mas não de todo idêntico, é claro. Assim, decidi pesquisar, no doutorado também defendido na Unicamp (2006), as Geórgicas, de Virgílio – um poema didático de conteúdo agrícola –, que dialogam fortemente e incorporam conteúdos, sobretudo, dos diálogos rerum rusticarum de Marco Terêncio Varrão (século I a.C.). Com o aprofundamento nesses estudos de doutorado, percebi que faltavam traduções recentes dos tratados de Varrão e Catão em língua portuguesa [Moses Bensabat Amzalak traduziu e publicou, na década de 1950, traduções de Catão e Varrão em Portugal] e que, na verdade, um rico campo de investigações filológicas e literárias se abriria para todo pesquisador interessado por tais obras. Sobre a segunda parte da questão, com efeito, de tudo que Catão e Varrão escreveram, apenas os tratados agrícolas foram integralmente conservados para a posteridade (lembremos que, sobretudo, Varrão, tido unanimemente como o maior erudito dos tempos de Caio Júlio César, foi o primeiro enciclopedista romano antes de Plínio, o Velho, já no século I d.C.). Mas essa perda é maior no caso de Catão, de que apenas nos restam, além do De agri cultura, uns poucos fragmentos das Orações e algo de outros escritos. Assim, semelhante lacuna é irremediável para uma visão mais completa do legado de Catão e Varrão como escritores, mas não impede por inteiro a leitura científica de suas obras citadas, ainda disponíveis para os modernos.

 

ReproduçãoSERVIÇO

Título: Da Agricultura

Autor: Catão

Tradutor: Matheus Trevizam

ISBN: 978-85-268-1360-1

Edição: 1ª

Ano: 2016

Páginas: 176

Dimensões: 16 x 23 cm

R$ 44,00

 

Imagem de capa JU-online

Imagem: Reprodução | Editora Unicamp