Intersecções entre gênero, raça e classe social na história imperialista

A dominação das mulheres colonizadas é um dos temas abordados em livro

A metáfora que nos oferta a chave para a leitura de Couro Imperial: Raça, gênero e sexualidade no embate colonial, da pesquisadora zimbabuense Anne McClintock, está no mapa impresso nas páginas iniciais do best-seller As minas do Rei Salomão, de Henry Rider Haggard, reproduzido na introdução ao estudo de McClintock.  O mapa desenhado no romance de aventuras seria, na obra de ficção, a cópia de outro desenho, traçado pelo mercador português José da Silvestre em 1590, “quando estava morrendo de fome nos ‘seios’ de uma montanha chamada Seios de Sheba” (p. 17). Classificado como “explicitamente sexual” pela pesquisadora, ele reuniria as principais problemáticas do colonialismo, todas tratadas no livro: a questão da dominação das mulheres colonizadas, e da transmissão do poder branco por meio do controle da força sexual e de trabalho dessas mulheres; a instauração de uma ordem de conhecimento cultural global; e o domínio imperial do capital mercantil.

Com efeito, a estudiosa identifica nas linhas que conduzem às minas do rei Salomão duas leituras: “de um lado, é um trecho esboçado do campo que os homens brancos devem atravessar para assegurar riquezas [...]. De outro, se o mapa for invertido, revela de uma vez o diagrama do corpo feminino” (p. 17). Desse modo, o mapa de Henry Rider Haggard lançaria luz sobre o fenômeno histórico do imperialismo, baseado na dominação e na violência masculina sobre o corpo social colonizado, metaforizado pela figura do corpo feminino e da submissão sexual da mulher.

Com base nesse recurso visual e literário, podemos depreender em linhas gerais três conceitos complexos e de difícil definição abordados em Couro Imperial: raça, gênero e classe social. A sexualidade, por sua vez, pode ser interpretada como um mediador para a compreensão das relações entre os conceitos supracitados, pois a revelação do corpo feminino no mapa do explorador branco aponta que “gênero não é só uma questão de sexualidade, mas também uma questão de subordinação do trabalho e pilhagem imperial; raça não é só uma questão de cor da pele, mas também uma questão de força de trabalho incubada pelo gênero” (pp. 19-20).     

A perspectiva da intersecção entre raça, gênero e classe social é algo importantíssimo para explicar a invenção das hierarquias que informam essas categorias historicamente construídas, além de ser essencial para a orientação teórica do feminismo. Para exemplificar esse argumento, a autora optou pelo relato de uma série de histórias “contraditórias e sobrepostas”, envolvendo trabalhadoras negras e brancas, colonizadores e colonizados, bem como mulheres e homens de classe média. Ao desdobrar e examinar essas narrativas, McClintock mostra um imenso trabalho de pesquisa, no qual elenca fontes de diferentes gêneros (fotografias, diários, etnografia, literatura, história oral, entre outros) e estabelece um diálogo entre marxismo, feminismo e psicanálise.

Vejamos uma dessas histórias relatadas no capítulo intitulado “Couro Imperial – Raça, travestismo e o culto da domesticidade”, que aborda o ocultamento do trabalho feminino a partir da trajetória da empregada doméstica Hannah Cullwick, amante e, posteriormente, esposa de Arthur Munby, “conhecido advogado e homem de letras vitoriano (1828-1910)” (p. 123), obcecado em observar, entrevistar e registrar a vida de mulheres trabalhadoras em Londres.

Tendo-se casado em segredo, Cullwick e Munby mantiveram uma relação permeada por uma série de “jogos” descritos em seus diários. Com efeito, os dois cônjuges, pertencentes a classes sociais opostas, narram de formas distintas rituais fetichistas de escravo/senhor, servidão/disciplina, rituais de lavagem, travestismo e fascínio pela sujeira. Cullwick, assim, utilizava uma “pulseira de escrava” e uma corrente em volta do pescoço “como prova de sua ‘servidão’” (p. 206). Ela foi fotografada por Munby como trabalhadora da “faxina” (sua profissão mesmo após o casamento), dama de classe abastada, camponesa, anjo, escravo, e praticamente nua, com o corpo todo enegrecido, como um limpador de chaminés. O marido também costumava frequentar a pensão na qual Cullwick trabalhava e ser servido pela própria esposa, como se fossem estranhos.

Para McClintock, “o fetiche, que vive no limite entre o social e o psicológico, põe em relevo a irrelevância de separar os domínios da psicanálise e da história social”, pois psicanálise e marxismo teriam se formado “em torno da ideia do fetichismo como uma regressão primitiva e a rejeição do valor social do trabalho doméstico” (p. 208). O que a trajetória de Cullwick apresenta ao leitor é uma releitura ou “renegociação”, nos termos da autora, “da relação entre a psicanálise e a história social, a agência das mulheres e o poder masculino, a domesticidade e o mercado” (p. 208). Assim, numa interpretação extremamente refinada, McClintock identifica os diferentes fatores sociais que se somam na intrigante relação entre o literato e a trabalhadora braçal.

A autora aponta, por exemplo, a agência feminina de Cullwick que se recusa a ter um casamento convencional com Munby, ao entrever nisso uma submissão completa: “ela preferia a liberdade do ‘andar de baixo e com frequência elogiava a liberdade de mobilidade pública que seu estatuto lhe proporcionava” (p. 269). O fetichismo seria então a arena de negociação desse espaço de liberdade, pois Cullwick, ao utilizar performativamente a pulseira de “escrava”, deslocando o contrato sexual do casamento e a consequente submissão da mulher para o plano simbólico, conseguiu preservar a sua liberdade de classe trabalhadora, continuando a circular pelo espaço público, algo que lhe seria vedado “pelas rédeas da respeitabilidade” (p. 270) da classe abastada, atrelada à narrativa vitoriana do progresso e da família.

 É interessante pontuar a forma como a autora relaciona as categorias de raça, gênero e classe social a partir dos diários de Cullwick. A relação entre desiguais revela as contradições inerentes à dominação masculina e imperialista. O que esperaríamos de uma narrativa sobre o imperialismo? Talvez, perspectivas e relatos diversos de batalhas, submissões e poderio bélico. Diferentemente desse tom épico, defrontamo-nos em Couro Imperial com as contradições inerentes à dominação masculina a partir de uma narrativa histórica que desnaturaliza as relações de poder masculinas.

No âmbito da teoria da história, McClintock também mobilizou a principal referência da história social inglesa, E. P. Thompson, ao trabalhar com o conceito de agência (no caso exposto aqui, a agência da mulher trabalhadora), perscrutando os conflitos entre as classes sociais e as contradições de uma ideologia de dominação, sempre permeada por fraturas e oposições, terrenos nos quais mulheres e homens rivalizam e negociam espaço e liberdade.

Acompanhar essa pesquisa de fôlego é como inverter o mapa de Henry Rider Haggard, percebendo como a geografia e a história imperialista estão articuladas às construções de gênero, raça e classe social. De fato, ao lermos essas articulações, em seus conflitos e em suas negociações, na fotografia, na literatura, em relatos etnográficos e histórias orais, debruçamo-nos mais uma vez na leitura dessas intrincadas intersecções, invenções, conhecimentos e contradições do imperialismo ocidental.


ReproduçãoSERVIÇO

Título: Couro imperial - Raça, gênero e sexualidade no embate colonial

Autor: Anne McClintock

Tradutor: Plínio Dentzen

ISBN: 978-85-268-0893-5

Reimpressão: 1ª - 2018

Edição: 1ª

Ano: 2010

Páginas: 600

Dimensões: 16 x 23 cm

R$ 98,00

 

 

 

 

 

 

 

Imagem de capa JU-online

Imagem: Reprodução | Editora Unicamp