A tragédia nas capas dos grandes jornais

Texto mostra que grande imprensa subestimou impactos socioambientais causados pelo rompimento da barragem

Os grandes jornais diários da mídia impressa que circulam no Brasil, conhecidos como a grande imprensa, não deram o devido destaque ao ocorrido naquele trágico dia 5 de novembro de 2015. Jornais como O Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo e O Globo tiveram como manchete de primeira página notícias sobre eventos do já tumultuado cenário político do país. A cobertura desses principais jornais foi desproporcional ao impacto socioambiental causado pela tragédia ambiental de Mariana. Nesta análise mostramos como o tema foi abordado nas capas dos principais jornais em circulação no Brasil.

Foram examinadas as capas dessas publicações da primeira semana do vazamento de detritos (do dia 6 ao dia 14 de novembro de 2015). Essas capas foram capturadas digitalmente nos sites dos três jornais, em suas edições digitais. Podemos observar que nesses três jornais as notícias saíram como uma pauta secundária, principalmente após o atentado terrorista no dia 13 de novembro, na casa de show Bataclan, em Paris, com mais de uma centena de mortes. O evento internacional ocorrido uma semana após o desastre de Mariana ocupou na edição do dia seguinte ao atentado, além da manchete de capa, grande parte dos jornais, tendo sido tema até de cadernos especiais sobre o assunto, como no caso da Folha.

Vale pontuar algumas características da composição gráfica de cada um dos jornais analisados que serão levadas em consideração para examinar a hierarquia e relevância dadas às informações publicadas. Os três veículos possuem formato standard, que tem uma mancha gráfica de aproximadamente 29,7x52,5cm (LxA) e a área total do papel varia entre eles, mas é de aproximadamente 32x56cm. Por ter um formato retrato, os jornais dividem de forma modular o seu grid. O grid é a definição do espaço onde será organizada a informação, permitindo uma fácil distribuição dos elementos gráficos principais de um jornal (textos, imagens, brancos e fios).

O grid modular da Folha de S. Paulo tem seis colunas por 12 linhas (Manual do Projeto Gráfico da Folha de S. Paulo, 2010). Analisando o grid de O Estado de S. Paulo, aparecem cinco colunas por doze linhas. Já o de O Globo não é tão fácil de visualizar. Na maior parte das capas analisadas, O Globo trabalha com cinco colunas em diferentes larguras, mas chega a ter capa com sete colunas também variando de largura, de onde podemos arriscar que o grid modular seria de oito colunas por dez linhas.

Também para a análise dividimos as capas em duas metades, a superior e a inferior, pois o jornal na banca é vendido dobrado, com a metade superior à mostra, ou seja, é essa a parte responsável por “fisgar” o leitor na banca, portanto a mais importante. Segue abaixo esquema dos grids dos três jornais, respectivamente, a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo.

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Nas páginas de um jornal temos os elementos gráficos distribuídos nesse grid. As capas, ou primeira página, possuem elementos fixos, tais como o nome do jornal, data completa, com dia da semana, dia, mês e ano, horário de fechamento, site, preço, ano e número da edição, que ficam agrupados no cabeçalho. No restante da página, normalmente abaixo do cabeçalho se encontram as fotografias com o crédito do fotógrafo e a legenda; a manchete, que é o destaque dado à matéria principal da capa, possui o título em letras maiores, se sobrepondo às outras informações da página. Toda capa tem apenas uma manchete, o restante são chamadas de texto, com os títulos em letras menores.

Os títulos das manchetes podem ter uma palavra ou frase curta, elemento chamado chapéu (veja imagem a seguir), que fica acima do título, e uma linha fina, que fica abaixo. As chamadas também podem ter chapéus e linha fina, e também variam de tamanho conforme a importância da notícia, isso é, a hierarquia da informação.

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Também temos, ainda na primeira página, os nomes das editorias, informações sobre clima, rodízio, institucionais e o ISSN (número de registro individual de publicações em série), com código de barras.

Dia a dia: de 6 de novembro a 14 de novembro, 27 capas

Vejamos as capas publicadas no dia seguinte à tragédia, sexta-feira, 6 de novembro de 2015.

Na capa da Folha de S. Paulo, apesar de a notícia sobre Mariana não ter sido a manchete principal, que foi sobre política, uma foto da tragédia ocupou lugar de maior destaque da primeira página, na metade superior da capa, em primeiro plano. A chamada na primeira coluna com o título “Rompimento de barragens em MG deixa cidade sob lama” está acompanhada de uma fotografia de Hugo Cordeiro/Photograph/Nitro/Folhapress, que se encontra ao seu lado direito, ocupando as outras cinco colunas, com a legenda “Homens buscam informações em meio a casas destruídas pela lama em distrito de Mariana (MG): ao menos uma pessoa morreu e 25 estão desaparecidas”.

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Em O Estado de S. Paulo, nesse mesmo dia, abaixo da manchete principal, também de natureza política, temos uma foto grande com uma das imagens que mais chamaram atenção na inundação da cidade de Bento Rodrigues, um carro em cima de uma casa destruída com a legenda “Tragédia. Casas e carros destruídos no distrito de Bento Rodrigues: bombeiros buscam soterrados em região explorada desde a época colonial” e logo abaixo a chamada “Enxurrada de lama soterra e mata em Mariana”.

Já em O Globo, apesar de não ser a manchete principal, que foi também sobre política, a tragédia recebe um bom destaque. Pode-se dizer que é uma manchete secundária, quebrando regras de design gráfico de que toda página de jornal tem de ter apenas uma manchete, pois o título dela se sobressai às demais chamadas de texto. A notícia se encontra na metade superior da página, valorizada pela imagem, sendo a primeira informação e ocupando todas as colunas.

No alto da página recebe um chapéu em caixa alta “TRAGÉDIA EM BARRAGEM DE MINAS”, logo abaixo o título, em uma fonte superbold “Mar de lama destrói distrito de Mariana, seguida de uma fotografia, a mesma publicada pelo O Estado de S. Paulo, uma reprodução de imagem veiculada pela TV Globo. A legenda da foto é “Rodas no ar. Carro é atirado sobre casa destruída pela lama que inundou o distrito de Bento Rodrigues, na cidade de Mariana, em Minas: causas do rompimento da barragem ainda são desconhecidas, segundo autoridades e empresa mineradora”.

Nas edições do dia 7 de novembro de 2015, sábado, começamos a ver nas capas dos jornais os desdobramentos do ocorrido, com mais imagens.

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Na Folha, a chamada “Estragos de mar de lama em MG ainda são incertos” ocupa um pequeno espaço na primeira coluna abaixo do gráfico da manchete principal, acompanhada de apenas um parágrafo e texto e, ao seu lado, aparecem as fotos que ocupam as três colunas seguintes e cerca de 1/3 do espaço da primeira página. Destaca-se aqui a fotografia de Moacyr Lopes Junior (Folhapress) que mostra a busca de sobreviventes na lama de Bento Rodrigues e, abaixo dessa, duas fotos dos resgatados – fotografias de Wesley Rodrigues/Hoje em Dia e Felipe Dana/Associated Press –, com a legenda: “Helicóptero sobrevoa vilarejo de Mariana (MG); resgatados foram levados para abrigos”. Mesmo assim, diante do ocorrido, ainda é pequeno o destaque dado à dimensão do desastre ambiental.

Na capa de O Estado de S. Paulo, temos nas duas últimas colunas a chamada “Estudo alertou em 2013 para risco de ruptura”, logo abaixo uma fotografia (Márcio Fernandes/Estadão) também com um helicóptero. Na Folha o helicóptero era da Polícia Militar, nesse, da Polícia Civil, a legenda é “Lama. Policiais buscam desaparecidos no distrito de Bento Rodrigues”, logo abaixo um pequeno texto em duas colunas com um título menor: “Região teve tremores”, junto a ambos o nome do caderno e número de página indicando onde podem ser lidas as matérias.

Em O Globo, novamente como uma manchete secundária, temos como a primeira notícia na página uma foto horizontal de Daniel Marenco, com a legenda “Desalento. Desabrigados pelo rompimento das barragens de rejeitos estão num ginásio da cidade histórica de Mariana: dramas familiares e perdas” ocupando mais da metade da página e ao seu lado direito o chapéu em caixa alta “AVALANCHE DE LAMA EM MARIANA”, seguido do título novamente em superbold “Sem sirene, alerta foi por telefone, na linha fina “Rompimento de barragens deixa um morto, 13 desaparecidos e pelo menos 530 desabrigados”, e logo abaixo um pequeno texto em duas colunas e mais três chamadas.

No dia 8, primeiro domingo após a tragédia, quando se poderia esperar um grande destaque para o assunto, o que encontramos nos três jornais foram apenas chamadas em posicionamentos de menor destaque na capa.

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Em todos os jornais, as chamadas se encontram na metade inferior da página e apenas em O Globo há um destaque um pouquinho maior. Na Folha de S. Paulo a chamada não tem foto e se encontra na última posição da primeira coluna: “Em MG, 5 crianças estão entre os desaparecidos”, seguida de apenas um parágrafo.

Na edição de circulação nacional de O Estado de S. Paulo aparece na posição de destaque a manchete sobre a Lava Jato e na metade inferior, bem ao meio, ocupando as três colunas centrais, a fotografia de Márcio Fernandes/Estadão com a legenda “Trabalho difícil. Homens do Corpo de Bombeiros procuram desaparecidos em meio a lama e destroços”, abaixo o título da chamada de texto “ANA vê risco em 24 barragens do País; a de MG era ‘segura’”.

Já na edição de circulação na capital paulista podemos ver no lugar da chamada de Mariana destaque para jogo do Corinthians e a chamada sobre o desastre está na última coluna, ocupando um lugar menor, com o título “Desaparecidos em Mariana são 28; 2º corpo é localizado”, abaixo a foto de Márcio Fernandes/Estadão que leva a legenda “Buscas. Trabalhos de resgate seguem; moradores temem saques”, e com um destaque ainda menor vem a notícia sobre o risco das 24 barragens.

Em O Globo temos na metade inferior da capa, novamente com o chapéu em caixa alta “AVALANCHE DE LAMA EM MARIANA”, em superbold, “Dois mortos e 28 desaparecidos na tragédia”, com foto de Daniel Marenco e a tocante legenda “Dor de pai. Sobrevivente da tragédia, Weslei Isabel, que está internado, mostra no celular a foto da filha Emanuelly, de 5 anos, desaparecida”.

O jornal O Globo enviou uma equipe para fazer as reportagens e com isso conseguiu mais informações com os sobreviventes.

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No dia 9, segunda-feira, a briga pelo destaque na primeira página é com os eventos futebolísticos do domingo, além da política, sempre em pauta.

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Nas edições dessa segunda-feira, quatro dias após o desastre, mesmo concorrendo com os assuntos futebol e política, o jornal O Globo apresenta como manchete principal uma notícia sobre o desastre. Já a Folha não faz sequer uma pequena menção sobre o assunto na capa, apesar de ter matérias no caderno Cotidiano. E no Estado há apenas uma pequena chamada “Após desastre em Mariana, MP quer mudar lei de barragens”, na parte inferior da capa, nas duas últimas colunas.

Em O Globo temos o chapéu “AVALANCHE DE LAMA EM MARIANA” abrigando o título “Lama ameaça captação de água para 500 mil pessoas. Encontramos nesse dia, a gravata (texto logo abaixo do subtítulo) “Cidades de Minas e Espírito Santo paralisam abastecimento; escolas são fechadas“ e linha fina “Número de desaparecidos em Mariana diminui para 26; bombeiros continuam trabalhando no local do desastre e em áreas atingidas, mas governador mineiro diz que será difícil encontrar sobreviventes”. Logo abaixo, uma grande foto de Daniel Marenco, ocupando quatro colunas, mostra os bombeiros fazendo a busca por sobreviventes com a legenda “Dificuldade. No distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, bombeiros rastejam para não afundar na lama; o governo do estado diz que será muito difícil encontrar sobreviventes”.

No dia 10 de novembro, terça-feira, os três jornais apresentaram fotografias sobre as consequências da lama e, em todos eles, as imagens estavam posicionadas na metade inferior da capa do jornal. O Globo dá destaque à questão ambiental.

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Na Folha temos apenas a fotografia de Douglas Magno/AFP, com a legenda “SALVA-VIDAS. Bombeiro segura cachorro que estava atolado na lama e foi resgatado em Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (MG); efeito do rompimento de duas barragens na quinta (5), mais de 300 mil pessoas estão sem água”.

No Estado a foto de Márcio Fernandes/Estadão possui uma legenda “Lama. Homem caminha sobre carteiras de escola em Barra Longa, outra cidade afetada pela tragédia”, logo abaixo o título da chamada de texto “Governo embarga mina da Samarco em Mariana.

A edição de O Globo trouxe fotografia de Lincon Zabbetti/O Tempo com a legenda “Tragédia ambiental. Em Governador Valadares, uma das cidades atingidas pela lama das barragens, menino segura um peixe morto: cenário de destruição”, ao lado sob o chapéu “AVALANCHE DE LAMA”, o título “Vida ao longo do Rio Doce é destruída”, seguida de um parágrafo e mais uma chamada para a coluna de Míriam Leitão.

Dia 11 de novembro, quarta-feira, as notícias nas capas vão perdendo o destaque, neste dia, só a Folha colocou uma grande foto sobre o assunto na capa.

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A Folha de S. Paulo traz uma grande fotografia de Ricardo Moraes/Reuters ocupando três colunas, na metade inferior da capa, com a legenda “Bento Rodrigues (MG), onde Emanuelly (ao lado) foi levada pela lama”, ao lado a chamada “Corpo de menina levada por lama em MG é enterrado”.

O Estado não traz fotos, apenas a chamada “Espírito Santo autua Samarco por lama; sexto corpo é achado”, o pequeno texto que a acompanha também fala da comoção no enterro da menina Emanuelly.

Em O Globo, que até então sempre trouxe chamadas na capa, neste dia 11 não fez chamada, mas publicou uma matéria sobre a cobertura da tragédia já na segunda página, destacando o empenho das repórteres Mariana Sanches e Dandara Tinoco e do fotógrafo Daniel Mareco que chegaram à Mariana 12 horas depois do rompimento da barragem para fazer a cobertura da tragédia. A reportagem ocupa duas páginas do caderno País.

Dia 12 de novembro, quinta-feira, uma semana depois do rompimento da barragem, a Folha traz apenas uma chamada pequena no canto inferior esquerdo referente ao editorial do jornal, sobre este assunto com o título “Véu da lama”.

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O Estado destaca uma foto de Gabriela Bilí/Estadão que choca pela quantidade de lama, com a legenda “Poluição. Lama chega a Governador Valadares (MG) pelo Rio Doce: abastecimento de água comprometido” e a chamada “Ministério usou 13% da verba da prevenção de desastres”, bem ao centro da página ocupando três colunas.

O Globo traz uma pequena chamada quase ao final da primeira coluna, com o chapéu “Desastre em Mariana” e “Ibama vai multar mineradora”.

Sexta-feira, dia 13, a Folha não publica chamada de capa sobre os acontecimentos relacionados à tragédia da Samarco (Vale/BHP).

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O Estado edita uma pequena chamada na última coluna da página com o título “Samarco é multada em R$ 250 milhões por lama em MG” e logo abaixo mais uma com o título “Por água, vítimas ameaçam parar ferrovia”. Esta última é uma chamada para uma matéria que fala sobre o problema da água causado pela lama, a população fazendo pressão para que a Samarco tome alguma atitude.

Em O Globo temos uma chamada de texto posicionada na última coluna, uma foto (Roberto Stuckert Filho/AFP) da presidente em um helicóptero com a legenda “Uma semana depois. Ao lado de Pimentel, Dilma vê do alto a área atingida” e título “Dilma: mineradora terá multa de R$ 250 milhões”.

No dia 13 de novembro acontecem os ataques terroristas em Paris, e o assunto toma conta das capas de jornais no Brasil no dia 14, quando apenas o Estado traz uma pequena chamada, sem foto na última coluna com o título “Samarco sofre bloqueio de R$ 300 milhões”. A Folha faz um caderno especial de seis páginas inteiras, sem anúncios, sobre o fato em Paris, enquanto temos apenas meia página do Caderno Cotidiano sobre os efeitos da lama em Minas Gerais e outras regiões atingidas.

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Abaixo segue uma tabela síntese sobre as análises das capas dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo com relação aos elementos de primeira página – manchete, fotografias e chamadas – nas datas de 6 de novembro de 2016 a 14 de novembro de 2016.

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A tabela seguinte mostra os títulos da única manchete principal e os títulos das chamadas dos três jornais nas datas de 6 a 14 de novembro.

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Como podemos observar, nos dias seguintes à tragédia, apenas O Globo publicou uma manchete principal sobre o assunto, o que é muito pouco para o que foi considerado como o maior desastre ambiental de nosso país. E, apesar de o jornal carioca ter publicado uma manchete no período estudado, apenas o Estado publicou chamadas de capa todos os dias e foi o único veículo que citou o nome da Samarco nos títulos, os outros dois veículos não citam a empresa nas capas, uma decisão editorial que não se justifica jornalisticamente. O Globo usa a palavra mineradora em vez de Samarco. Isso nos faz pensar qual seria o motivo dessas escolhas.

A Folha foi o jornal que mais deixou de expor o problema na primeira página, além de dar menos espaço para o assunto nas páginas internas, como podemos ver na primeira tabela apresentada aqui.

Importante lembrar que destaques nas capas dos jornais podem ser considerados a partir da perspectiva editorial de cada veículo, seja no tamanho dos textos, das fontes (letras) escolhidas como na abertura das fotos. A hierarquia funcional pode às vezes ser alterada de acordo com o impacto das fotos ou do texto. Também vale ressaltar que um dos critérios jornalístico para chamadas de capa em jornais diários é a urgência da pauta, os fatos mais relevantes do dia.

Por outro lado, na semana do desastre de Mariana, o Brasil convivia com os problemas políticos da Operação Lava Jato e com o inesperado ataque terrorista em Paris, que comoveu o mundo e foi manchete em todos os jornais. Já o desastre ambiental de Mariana, não menos importante, demorou a ser compreendido como tal pelos editores dos jornais. O fato é que os leitores desses jornais brasileiros não ficaram satisfeitos com a cobertura dada ao evento e usaram de suas próprias ferramentas, como as redes sociais, para reclamar e solicitar mais atenção ao ocorrido.

Como efeito dessa manifestação, Vera Guimarães Martins, Ombudsman da Folha de S. Paulo, responde às queixas dos leitores em 22 de novembro, um domingo, 17 dias depois do desastre. Vera aponta que “esses vereditos são frequentemente exagerados (“ninguém está dando nada”), calcados em avaliações subjetivas e parciais que comprometem a percepção do conjunto. O leitorado, porém, não está de todo errado. Houve, sim, um descompasso na cobertura, e ela foi ainda maior neste jornal”. E faz um levantamento similar ao feito nesse texto, pontuando que a Folha deixou de mencionar o assunto na “Primeira Página” em quatro edições (a análise da ombudsman se estende até o dia da coluna, 22 de novembro). Cita também que O Estado de S. Paulo não deixou de mencionar o caso nenhum dia, como confirmamos na tabela acima, e que, O Globo fez do assunto manchete por duas vezes no período que ela observou. Na edição desse dia 22, a Folha fala sobre o evento em sete páginas internas, reconhecendo o pouco destaque dado a Mariana. A pressão dos leitores parece surtir algum efeito.

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Outros veículos, como o site Observatório da Imprensa, também analisam a cobertura sobre a tragédia realizada pela mídia. Em edição do dia 26 de novembro de 2015, como pode ser visto no vídeo apresentado pelo jornalista Alberto Dines (http://tvbrasil.ebc.com.br/observatorio/episodio/tragedia-em-mariana) a partir dos 4’15’’. Dines cita que “jornais como o Zero Hora, de Porto Alegre, que tradicionalmente cobre bem assuntos internacionais, se apressaram em enviar uma equipe para cobrir os atentados em Paris no dia 13, mas não enviaram, na época, um repórter para Minas Gerais”, apontando que muitos veículos cometeram o mesmo erro.

Achamos relevante destacar aqui, também, a ampla cobertura do jornal Estado de Minas, que mobilizou mais de 100 profissionais entre repórteres, fotógrafos, editores, ilustradores e diagramadores para informar e alertar os leitores sobre o desastre. Esse trabalho venceu a quarta edição do prêmio de Jornalismo “Promotor de Justiça Chico Lins”. Abaixo as capas de 6 de novembro, 14 de novembro e de um mês após a tragédia, respectivamente. É interessante ver que mesmo no dia em que Paris era o assunto em pauta na imprensa nacional e internacional, o Estado de Minas manteve destaque e relevância para a cobertura da tragédia em Mariana.

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A barragem de Samarco não foi a primeira a ser rompida, ocorreram casos anteriores, em outras localidades próximas. A cobertura da grande mídia é importante para informar à população sobre os riscos e consequências de eventos como esse e também para cobrar dos responsáveis e do governo ações para que isso não ocorra de novo. Meses após o desastre verificamos informações sobre os riscos de um novo rompimento, inclusive da mesma barragem. Também temos em pauta o fato de a Samarco (Vale/BHP) ter desmatado um trecho de Mata Atlântica para fazer obras, as multas, qualidade da água, consequências para a população e para o meio ambiente etc. Por isso se faz tão importante e necessário continuar acompanhando de forma atenta a construção das narrativas pela grande mídia em relação a essa tragédia ambiental, e cobrar a divulgação de todos os desdobramentos.

 



REFERÊNCIAS

JORNAL Estado de Minas. Belo Horizonte. 06 nov. 2015 a 14 nov. 2015. Disponível em: <http://impresso.em.com.br>. Acesso em: 20 mai. 2016

JORNAL Folha de S. Paulo. São Paulo. 06 nov. 2015 a 14 nov. 2015. Disponível em: http://acervo.folha.uol.com.br/fsp Acesso em: 25 mai. 2016

JORNAL O Estado de S. Paulo. São Paulo. 06 nov. 2015 a 14 nov. 2015. São Paulo. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br>. Acesso em: 10 jun. 2016.

JORNAL O Globo. Rio de Janeiro. 06 nov. 2015 a 14 nov. 2015. Disponível em: <http://acervo.oglobo.globo.com>. Acesso em: 20 jun. 2016.

TRAGÉDIA em Mariana. Portal EBC / Observatório da Imprensa, Brasília. 27 nov. 2015. Disponível em: <http://tvbrasil.ebc.com.br/observatorio/episodio/tragedia-em-mariana>. Acesso em: 15 jun. 2016.
 

Fabiana Grassano Jorge - Graduada em Produção Editorial pela Universidade Anhembi Morumbi. Mestranda em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unicamp. Especialista em Design de Hipermídia pela Universidade Anhembi Morumbi, mestre em Design Estratégico pelo IED (SP). Trabalha há 17 anos na Traço Publicações e Design com design editorial. Professora de Design Editorial no curso de graduação em Design Gráfico da Faculdade de Administração e Artes de Limeira (FAAL) e no curso de Especialização em Design Gráfico da Escola de Extensão da Unicamp.

 

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