A repercussão da tragédia na mídia ambiental

Desastre em Mariana despertou a atenção de sites especializados e de instituições ambientalistas

A tragédia ambiental em Mariana repercutiu, também, em sites especializados de jornalismo ambiental e nas páginas de instituições ambientalistas. A preocupação com o impacto ambiental provocado pelo vazamento da lama de rejeitos da produção de minério de ferro da Samarco – considerado o maior acidente mundial com barragens nos últimos 100 anos, de acordo com a consultora Bowker Associates e o geofísico David Chambers –, despertou o interesse da mídia especializada e de grupos ligados à conservação da natureza.

Este tópico analisa como cinco sites dirigidos comunicaram a tragédia de Mariana e seus desdobramentos para o público. Dentre os escolhidos, estão três sites de jornalismo ambiental: Envolverde, O Eco e Mundo Sustentável e dois sites de organizações não-governamentais (ONGs): SOS Mata Atlântica e Greenpeace. O período escolhido para a análise foi entre os meses de novembro de 2015 até o mês de maio de 2016. Entretanto, é importante ressaltar que nem todas as reportagens publicadas foram examinadas, devido ao grande número de notícias encontradas.

De modo geral, as publicações nos sites escolhidos começaram apenas alguns dias após o desastre, que ocorreu no dia 5 de novembro de 2015. Em algumas publicações, como no site Mundo Sustentável – criado e coordenado pelo jornalista especializado em meio ambiente André Trigueiro –, as notícias sobre o assunto tinham como fonte outros veículos de comunicação, como os sites G1, BBC Brasil e El País. Dessa forma, apesar de ter publicado informações relacionadas ao impacto ambiental da tragédia, o site Mundo Sustentável apenas reproduzia o conteúdo já divulgado na grande mídia generalista.

O site também tentou aproximar o leitor da tragédia ao utilizar comparações com lugares de referência, como por exemplo: Impacto de lama no mar seria como dizimar Pantanal, diz biólogo. Além disso, pode-se perceber um grande número de reportagens que traziam preocupação sobre o impacto da lama no Rio Doce, no mar e em toda a biodiversidade. Em relação aos desdobramentos da tragédia, identificamos que o site Mundo Sustentável relatou já nos títulos sobre possíveis consequências geradas para o Rio Doce, Rio Doce: ‘o impacto ainda está acontecendo’, e outros rompimentos de barragens de rejeitos de mineração no Brasil, Brasil tem 663 barragens de rejeitos de mineração, diz especialista.

O site O Eco teve como foco principal de sua cobertura a preocupação com as consequências que a tragédia poderia trazer ao Rio Doce e à vida marinha, após o encontro da lama com o mar (“No encontro com o mar, lama passará por unidades de conservação marinhas”, “Fauna do Rio Doce em Minas acabou, diz Izabella Teixeira” e “É hora de preservar os afluentes para repovoar o Rio Doce, diz biólogo”). As notícias informavam a respeito do trajeto da lama até o mar, o que estava sendo feito para evitar a morte das espécies de animais aquáticos e o trabalho necessário para repovoar o Rio Doce.

Como desdobramento, o site O Eco também levantou uma questão importante e pouco debatida pelos outros sites analisados: o impacto da tragédia nas florestas. A reportagem “Efeito mineração’ faz desmatamento na Mata Atlântica subir em Minas Gerais” destacou estudo realizado pela ONG SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrando que a tragédia de Mariana desmatou 169 hectares de Mata Atlântica. O site da ONG SOS Mata Atlântica também publicou uma reportagem sobre o estudo dos impactos da tragédia nas florestas. Entretanto, esta foi a única notícia sobre o ocorrido no site da instituição.

Já a ONG Greenpeace publicou diversas notícias sobre o caso, dando grande visibilidade ao projeto de mudança do licenciamento ambiental aprovado pelo Senado menos de um mês após o desastre. O licenciamento ambiental foi tema de várias reportagens no site.

O site Envolverde, por sua vez, contou com artigos e reportagens de seus colaboradores, bem como a reprodução de textos publicados em outros veículos, como no site WWF-Brasil e na revista Carta Capital. De todos os sites analisados, este foi o canal que deu maior amplitude de assuntos relacionados à tragédia de Mariana. Os artigos tratavam de temas variados como a mudança do licenciamento ambiental, o impacto das atividades de mineração, o sensacionalismo da grande mídia na cobertura de tragédias ambientais, a sustentabilidade na indústria mineral, entre outros, como pode ser percebido nas reportagens A tragédia de Mariana e o desenvolvimento que queremos, Mariana: desastres viram chance de ganhar dinheiro sobre o sofrimento e Coppe cria grupo para aumentar a sustentabilidade da indústria mineral.

Por outro lado, cada veículo apresentou suas particularidades em relação aos temas abordados sobre a tragédia. Ao analisar o modo como cada veículo abordou a tragédia, observamos que os sites apresentaram alguns pontos em comum, como a preocupação com o impacto da exploração de minérios no país e o medo de novos desastres. Os seguintes trechos, retirados das reportagens escolhidas, exemplificam essa constatação: “o outro aspecto que o episódio de Mariana suscita diz respeito aos riscos e impactos da atividade de mineração”; “só em 2008, houve 77 rompimentos de barragens no país, embora a maioria dos casos tenha ganhado pouca repercussão” e “sem a total transparência e ampla participação social no debate deste tema, podemos correr o risco de vermos repetirem-se semelhantes tragédias”.

A preocupação com a flexibilização do licenciamento ambiental brasileiro também foi destaque nas coberturas dos sites ambientais. Na reportagem “Mariana? Que tragédia?”, publicada no site da ONG Greenpeace, é questionado se o fato foi uma tragédia ou algo que já estaria previsto, devido à falta de fiscalização e, recentemente, devido às constantes tentativas de flexibilização do licenciamento ambiental brasileiro. Na visão apresentada no artigo, haveria certa negligência para com o meio ambiente. Dessa forma, os sentidos que se produzem a respeito da flexibilização do licenciamento ambiental são de reprovação e os sites utilizaram o exemplo da tragédia em Mariana para defender a não-modificação do licenciamento brasileiro.

Essa questão pode ser vista também em trechos como: “no momento em que diversas iniciativas no Congresso Nacional tentam flexibilizar e simplificar o licenciamento, a tragédia de Mariana vem advertir sobre a necessidade de uma discussão mais qualificada sobre o tema” e “alguns senadores ignoram totalmente o que se passa em Mariana”.

Ao optar pela publicação de reportagens e artigos que evidenciassem os impactos da indústria de mineração e outros casos de rompimento de barragens no país, os sites ambientalistas chamavam a atenção para um problema que não é novo, mas que continua sendo negligenciado.

Sendo assim, os veículos sustentaram uma posição em defesa da natureza, questionando a ação do homem e a forma como este se apropria do ambiente, provocando reflexões sobre o conceito de desenvolvimento, isto é, para desenvolver é necessário poluir, suprimir e negligenciar?

Esta breve análise conclui que os sites dedicados aos temas do meio ambiente ocuparam um importante papel durante a cobertura da tragédia de Mariana. Ao utilizarem outros enfoques da tragédia, deram destaque aos impactos ambientais e aos trabalhos desenvolvidos por moradores, pesquisadores e profissionais para salvar a biodiversidade do Rio Doce e recuperar a vegetação local. Assim, os veículos fomentaram discussões sobre as questões ambientais envolvendo a tragédia de Mariana – enfoque pouco utilizado pela grande mídia – além de incluírem informações para repensarmos sobre questões como as ações do homem sobre o ambiente e o desenvolvimento desenfreado que compromete o equilíbrio ambiental.


Referências

BARRUCHO, Luis. Impacto de lama no mar seria como dizimar Pantanal, diz biólogo. Mundo Sustentável, Rio de Janeiro. 21 nov. 2015. Acesso em: 30 jun. 2016.

BRAGANÇA, Daniele. “Efeito mineração” faz desmatamento na Mata Atlântica subir em Minas Gerais. O Eco, Rio de Janeiro. 25 mai. 2016.  Acesso em: 30 jun. 2016.

FACHIN, Patricia. Rio Doce: “O impacto ainda está acontecendo”. Mundo Sustentável, Rio de Janeiro. 19 jan. 2016. Acesso em: 30 jun. 2016.

FAUNA do Rio Doce em Minas acabou, diz Izabella Teixeira. O Eco, Rio de Janeiro. 19 nov. 2015. Acesso em: 30 jun. 2016.

FUNDAÇÃO divulga análise do impacto da tragédia em Mariana na vegetação. SOS Mata Atlântica, São Paulo. 10 dez. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016.

GUAREXICK, Juliana. A tragédia de Mariana e o desenvolvimento que queremos. Envolverde, São Paulo. 17 nov. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016.

______. Coppe cria grupo para aumentar a sustentabilidade da indústria mineral. Envolverde, São Paulo. 27 nov. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016.

______. Mariana: desastres viram chance de ganhar dinheiro sobre o sofrimento. Envolverde, São Paulo. 13 nov. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016.

MARIANA? Que tragédia? Greenpeace, São Paulo. 26 nov. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016

NO ENCONTRO com o mar, lama passará por unidades de conservação marinhas. O Eco, Rio de Janeiro. 11 nov. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016.

PELLEGRINI, Fábio. É hora de preservar os afluentes para repovoar o Rio Doce, diz biólogo. O Eco, Rio de Janeiro. 01 dez. 2015.  Acesso em: 30 jun. 2016.

PLATONOW, Vladimir. Brasil tem 663 barragens de rejeitos de mineração, diz especialista. Mundo Sustentável, Rio de Janeiro. 25 nov. 2015. Acesso em: 30 jun. 2016.


Kyene Becker da Silva - Jornalista graduada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Mestranda em Divulgação Científica e Cultural no Labjor/IEL/Unicamp. e-mail: kyenebecker04@gmail.com

 

Imagem de capa JU-online

Paracatu de Baixo, Mariana-MG | Foto: João Vilar