Pierre Verger – Vidente Imagético

Fernando de Tacca escreve sobre a importância e a originalidade da obra do fotógrafo francês

A fotografia, desde o seu princípio, levou os seus primeiros profissionais a circularem pelo mundo portando seus novos equipamentos e fazendo circular também imagens antes nunca vistas como lugar de uma realidade deslocada do primeiro olhar do fotógrafo para o olhar do visualizador das imagens, como as pirâmides do Egito, por exemplo, fotografadas por Horace Vernet e Frédéric Goupil-Fesquet, ainda em 1839, ano do anúncio da daguerreotipia. Nesse mesmo sentido, D. Pedro II comprou uma série de vistas das pirâmides quando realizou uma viagem ao Egito, em 1871 (autoria de Antônio Beato). Um irmão de Beato, Felice Beato, também se deslocou no início de 1860 para Índia, China e estabeleceu-se no Japão (depois retornou para a Europa). O português Christiano Jr. chegou a Maceió, em 1855, depois se estabeleceu no Rio de Janeiro, e fez uma série de retratos de escravos recém-chegados que se tornou paradigmática em nossa história. Ele também se fixou em Buenos Aires logo em seguida, onde se manteve dois ateliers fotográficos. São alguns exemplos da qualidade vivencial dos fotógrafos, personagens muitas vezes em trânsito, observadores privilegiados das culturas e das sociedades.

A partir de 1920 a circulação de fotografias teve forte expansão popular na publicação das revistas ilustradas, principalmente alemãs, e na década seguinte foi amplificado quando surgiram novas revistas (LIFE, Match, Vu, Regards) que introduzem a ideia de uma nova imagem, com visão humanista, de encontro com o humano no seu lugar cotidiano. Pierre Verger, nascido na França em 1902, foi um dos principais fotógrafos desse período, circulando o mundo livremente e fotografando pessoas e seus lugares para as novas revistas ilustradas. Entre 1932 e 1946, circulou o mundo, da Oceania à África, da Ásia à América, fotografando para várias revistas, e finalmente estabeleceu-se em Salvador, Bahia, onde encontrou uma nova identidade. No Brasil, se torna fotógrafo da revista O Cruzeiro, com contrato exclusivo que lhe dava autonomia de criação. Em 1948, na “Boa Terra”, fez sua primeira iniciação no candomblé com Mãe Senhora, no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, e depois, em 1953, fez outra iniciação em Benim, África, onde recebeu o nome que levou para toda sua vida, Fatumbi, "nascido de novo graças ao Ifá", tornando-se um babalaô, com a qualidade de adivinho ou vidente no jogo de búzios.

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Orixás, os deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1981

Mesmo estabelecido na “Boa Terra”, fez um importante trânsito de informações visuais e de pesquisa etnográfica entre Brasil e África, indo e voltando muitas vezes entre os dois continentes, e, como resultado de suas viagens, publicou dois livros fotográficos (entre outras publicações), referências para compreendermos o fluxo religioso entre África e Brasil: “Dieux d’Áfrique”, publicado em 1954, e quase trinta anos depois o livro “Orixás’, em 1981 [1].

Publicado quase simultaneamente no Brasil e na França, com 259 fotos em ambos, “Orixás” é o fotolivro germinal da antropologia brasileira dentro de um campo de estudos disciplinares e fruto de uma longa pesquisa que envolveu idas e vindas do fotógrafo-pesquisador, entre Bahia e África, principalmente, com algumas imagens de Cuba. Guardadas na sua liminaridade por mais de trinta anos, essas imagens ficaram praticamente ocultas. Elas nos colocam frente a dois mundos em um diálogo cultural e histórico, no qual as sincronicidades imagéticas se mostram transpondo-se o Oceano Atlântico. A imersão de Verger no candomblé baiano (algumas fotos foram realizadas em Recife), reconhecendo seus saberes e também ele mesmo se alimentando dos seus conhecimentos, tem a mesma virtude de suas viagens à África para encontrar os laços dessa sincronicidade e nos apresentar visualmente essas relações.

Os textos aprofundam os lugares e os saberes do culto aos Orixás, com seu fantástico panteão idolátrico da religião, e as imagens fluem em suas possíveis transformações para, mesmo distantes, temporal e espacialmente, reconhecerem um mágico fluxo iconográfico no qual os corpos são os portadores desse saber. O livro é um ponto de encontro místico entre dois mundos separados pelo mar e encontro de uma resiliência identitária. Se num momento da vida de Verger o lugar de iniciação foi a Bahia, o porto de saída, agora seu ponto de partida, sua segunda iniciação, foi a África, principalmente o Benim. Um dado importante é a circulação do livro, pois fazia parte de uma proposta popular denominada Círculo do Livro e sua publicação um ano depois na França.

Dieux d’Áfrique [2] é, por outro lado, um produto referencial para a Antropologia Visual, e pelo seu pioneirismo, somente dez anos mais tarde da publicação de “Balinese Character”, de Margareth Mead e Gregory Bateson. Publicado em primeira edição em 1954, teve outra edição em 1995, e tornou-se um livro raríssimo e muito caro no mercado de livros usados. Com textos introdutórios de Théodore Monod e Roger Bastide, um texto do autor acompanha as 160 imagens publicadas e realizadas em sua maioria em Daomé (atual Benin), e também Nigéria, Togo e Brasil.

Reprodução
Dieux d´Afrique. Culte des Orishas et Vodouns à l’ancienne Cotê des Esclaves en Afrique et à Bahia de tous les Saints au Brésil. Paris: Paul Hartmann, 1954

Em artigo detalhado sobre o livro e de seu contexto de produção, Cláudia Pôssa entra em profundidade sobre as relações implícitas ao processo de publicação:

Na Fundação Pierre Verger pode ser localizada uma boneca do livro, intitulada “Orishas et Vodouns en Afrique et aux Amériques – 160 photographies de Pierre Verger”, com fotografias originais e encadernada artesanalmente, que documenta de forma preciosa a maneira como Verger concebeu a obra. Esta boneca não está datada, mas o título corresponde ao que Michel Leiris se refere, em 1951, em carta a Mëtraux. No projeto gráfico elaborado por Verger, nem todas as fotografias mantêm o formato original da Rolleiflex, indicando que o próprio fotógrafo fazia novos enquadres de suas imagens. As fotos, todas em preto e branco, se comparadas com as impressas têm muito mais brilho e detalhes: é uma rara oportunidade de apreciar cópias feitas pelo próprio fotógrafo. O diálogo entre as imagens aparece já neste protótipo, com o uso de dípticos como recurso para mostrar a mesma cena na África e na América. A narrativa visual, com sequências nas quais as fotografias são interrelacionadas por meio de legendas, está presente neste projeto gráfico. As legendas, ali manuscritas, com a caligrafia de Verger, foram pensadas pelo próprio autor, não pelo editor.  [3]

Pierre Verger encarnou o personagem fotógrafo como um andarilho ou ambulante das imagens, ajudando a construir o mito do sujeito livre, que se ampara em sua câmera para se aproximar do outro, ao mesmo tempo, em fricção com esse outro, transformando-se constantemente, e, como um adivinho, suas imagens tornaram mágicos os personagens e lugares por onde andou. Toda sua obra está preservada na Fundação Pierre Verger (62 mil negativos), local onde podemos entender a simplicidade de sua vida quando vemos o seu quarto mantido da forma original. A Fundação Pierre Verger completa 30 anos de existência em 2018 com muitos eventos comemorativos, inclusive com a boa notícia de uma nova edição do livro “Orixás”. No site da fundação podemos navegar através das imagens feitas pelo humanista e fotógrafo Fatumbi nos seus muitos itinerários pelo mundo, e reconhecer seu lugar no panteão dos grandes fotógrafos humanistas do século XX.

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Dieux d´Afrique. Culte des Orishas et Vodouns à l’ancienne Cotê des Esclaves en Afrique et à Bahia de tous les Saints au Brésil. Paris: Revue Noire, 1995 

Fernando de Tacca é professor livre-docente no Instituto de Artes da Unicamp, curador da seção “Fotografia” do JU e editor da revista Studium: www.studium.iar.unicamp.br


Saiba mais:

 http://www.pierreverger.org

 



[1] VERGER, Pierre.

Orixás, os deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1981.

Orishas, les Dieux Yorouba en Afrique et au Nouveau Monde. Paris, A. Métailié, 1982.

[2] VERGER, Pierre.

Dieux d´Afrique. Culte des Orishas et Vodouns à l’ancienne Cotê des Esclaves en Afrique et à Bahia de tous les Saints au Brésil. Paris: Paul Hartmann, 1954.

Dieux d´Afrique. Culte des Orishas et Vodouns à l’ancienne Cotê des Esclaves en Afrique et à Bahia de tous les Saints au Brésil. Paris: Revue Noire, 1995.

[3] Pôssa, Cláudia Maria de Moura.
 

"Dieux d'Afrique: Pierre Verger entre a África e a América", in 19º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 2010, Cachoeira, Bahia, disponível em:

http://www.anpap.org.br/anais/2010/pdf/chtca/claudia_maria_de_moura_possa.pdf

 

Imagem de capa JU-online

Dieux d´Afrique. Culte des Orishas et Vodouns à l’ancienne Cotê des Esclaves en Afrique et à Bahia de tous les Saints au Brésil. Paris: Paul Hartmann, 1954 | Imagens: Reprodução