Bióloga cria método que mede índice de nitrogênio em árvores

Procedimento é importante para diagnóstico da situação de florestas nativas em processo de restauração

A restauração de florestas exige diversos estudos e avaliações. Atingir formações consistentes como as originais não é apenas uma questão de plantar as espécies originárias de determinada região, mas também acompanhar seu funcionamento. O estabelecimento de árvores grandes, com troncos robustos, consumidores de CO2, depende de um processo de formação longo, no qual espécies intermediárias e pioneiras precisam se estabelecer e criar o ecossistema adequado para geminação e crescimento daquelas menos adaptadas a condições de alta luminosidade.

Muitas das florestas em processo de fragmentação, apesar de apresentarem ampla variedade de espécies, não chegam a atingir a maturidade, especialmente devido a um processo conhecido como secundarização de florestas, no qual há grande dominância de espécies pioneiras. Avaliar a utilização de nitrogênio pelas plantas pode trazer informações preciosas na condução de ações e políticas públicas específicas que levem a uma maior compreensão do funcionamento das florestas nativas e em processo de restauração.

A pesquisadora Nidia Mara Marchiori, em sua tese de doutorado “Estratégias funcionais do uso de nitrogênio em um gradiente de perturbação antrópica na Mata Atlântica”, defendida no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, desenvolveu um índice para essa medição, utilizando como parâmetro a nitrato redutase – grupo de enzimas em atividade nas plantas que transforma o nitrato encontrado no solo em nitrito, o qual posteriormente será convertido em aminoácidos e proteínas, se caracterizando como elemento necessário na formação de estruturas e no desenvolvimento. “A partir da utilização do nitrogênio e características estruturais, podemos classificar o estágio sucessional de determinada floresta, isto é, seu grau de maturidade”, afirmou.

Foto: Perri
Nidia Mara Marchiori, autora da tese: “A partir da utilização do nitrogênio e características estruturais, podemos classificar o estágio sucessional de determinada floresta”

Marchiori associou o modelo desenvolvido por seu orientador, Marcos Pereira Marinho Aidar, à área basal das árvores e pode classificar fragmentos de mata de até 100 hectares. “A gente associou as informações, uma de funcionamento e outra de estrutura, e criou um índice, como se fosse uma régua. Tínhamos áreas controle nos dois extremos, uma bem conservada e outra mais antropizada. Os fragmentos que eu analisei foram encaixando nessa régua, sinalizando quais estariam em uma fase inicial e quais já estariam mais avançados na sucessão. Infelizmente, são todos muito iniciais”, relatou.


Modelo

Segundo o modelo desenvolvido por seu orientador, as plantas podem ser classificadas em diversos níveis sucessionais de acordo com o uso que fazem do nitrogênio. As espécies pioneiras, que são as primeiras a se estabelecerem em uma região de restauração florestal, tem alta atividade de nitrato redutase. Nas espécies tardias, por sua vez, essa atividade é bem reduzida. “As espécies secundárias não são tão eficientes na atividade de nitrato redutase. Elas preferem o amônio, que é uma outra forma de nitrogênio”, explicou Marchiori.


Atributo funcional

A pesquisadora defendeu em sua tese que a nitrato redutase seja utilizada como atributo funcional das plantas. Segundo ela, o nitrogênio é um elemento químico essencial para o desenvolvimento da planta, atuando na formação de proteínas e enzimas, na definição de estruturas e no funcionamento. “Eu trabalhei no sentido de saber como as plantas usam o nitrogênio que está disponível para elas. É um atributo fácil de medir e traz resultados interessantes”, explicou.

Os atributos funcionais são parâmetros utilizados pelos estudiosos para classificar, analisar e organizar as plantas baseado na funcionalidade. De acordo com a pesquisadora, atualmente, a classificação de florestas está focada quase exclusivamente na fotossíntese e a avaliação da utilização do nitrogênio agregaria novas e importantes informações. “Muitas vezes, durante o processo de restauração de uma floresta, atingimos a composição original de espécies, mas não seu funcionamento. Ela pode até ter espécies mais avançadas na sucessão, mas funciona, no geral, como uma floresta inicial. São essa informações sobre o funcionamento que seriam agregadas com a utilização da nitrato redutase como atributo funcional”, explicou.


Ecofor

O trabalho de Nidia Marchiori faz parte do projeto temático da Fapesp chamado Ecofor – Biodiversidade e Funcionamento de Florestas Degradadas e em Recuperação na Amazônia e na Mata Atlântica –, realizado em parceria com a agência de fomento britânica National Environment Research Council (NERC) e coordenado pelos professores Carlos Joly, da Unicamp e Jos Barlow, da Universidade de Lancaster. O grupo da Unicamp, junto com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Universidade Estadual Paulista  (Unesp), trabalha com a Mata Atlântica, da região de São Luiz do Paraitinga até Taubaté. De acordo com a pesquisadora, são 16 fragmentos com diferentes usos passados (pastagem, plantio de café, eucalipto, etc). “Nosso grupo estuda os atributos funcionais das plantas. Eu trabalhei com nitrogênio, outros trabalharam com fotossíntese, área da folha, lignina, venação, etc. O objetivo é compreender os efeitos da fragmentação nas florestas, especialmente no funcionamento das espécies dominantes”, explicou.


Animação mostra a importância do nitrogênio na floresta
 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: Em imagem panorâmica, vista aérea de uma cidade pequena, com várias casas agrupadas em bairros, sendo que entre esses núcleos há imensas áreas verdes e alguns morros cobertos por vegetação, que se estendem para todo o fundo da foto, fazendo limite com o céu nublado e com nuvens. Imagem 1 de 1.