Mapeamento caracteriza solo da Fazenda Argentina

Estudos desenvolvidos por alunos e docente podem nortear futura ocupação de terreno adquirido em 2014 pela Unicamp

Pesquisas realizadas no âmbito de uma disciplina de graduação e de projetos de iniciação científica no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp resultaram no primeiro Mapa Pedológico Detalhado da Fazenda Argentina. O mapa, que foi entregue aos responsáveis pela Prefeitura do Campus, caracteriza os diferentes tipos de solo presentes no terreno e alerta para cuidados que deverão ser tomados no planejamento da ocupação. Áreas mais e menos férteis foram demarcadas, e problemas como compactação do solo e erosão, apontados. Segundo o professor Francisco Ladeira, responsável pela disciplina e orientador das pesquisas, ainda existem estudos a serem feitos no local.

“Este mapa foi produzido a partir da análise do material coletado em vários furos, feitos no terreno com um equipamento chamado Trado. Nós fizemos os furos, coletamos amostras da terra, analisamos e enviamos para laboratório; os dados nos revelam informações de ordem física e química. Depois, para cada uma dessas unidades, fizemos trincheiras com, no mínimo, um metro de profundidade. Nelas, fizemos todo o procedimento de descrição do solo. A partir dessas descrições e das informações laboratoriais, conseguimos fazer classificações e separações”, relatou Ladeira.

O terreno de 1,4 milhões de metros quadrados, adquirido pela Unicamp em 2014, fica contíguo ao campus de Barão Geraldo e apresentou-se como campo perfeito para a disciplina ministrada pelo professor. “A disciplina eletiva de graduação de mapeamento pedológico consistia exatamente em pegar os alunos, ir a campo, fazer um sistema de mapeamento e gerar um mapa de solos. Como o trabalho era intenso e exigia muitos dias, a gente sempre precisou de uma área relativamente próxima, na qual os alunos pudessem facilmente ficar o dia inteiro e retornar várias vezes”, contou o professor.

Foto: Perri
O professor Francisco Ladeira e as amostras extraídas do solo da Fazenda Argentina

De acordo com Ladeira, este primeiro estudo da área revelou uma série de condições interessantes que demandavam investigações mais detalhadas. Tais demandas deram origem a dois projetos de iniciação científica, cujos resultados começam a ser apresentados. O Mapa Pedológico Detalhado da Fazenda Argentina é resultado da pesquisa de Taciana A. Alvarenga, estudante do curso de Geografia. Além da composição química tradicional do solo, a pesquisa revelou uma série de degradações associadas ao solo, relacionadas ao uso intensivo de maquinário durante o longo tempo em que a área foi utilizada para o plantio de cana. “Em toda área o solo é completamente compactado. Para conseguir furar os primeiros 40 ou 50 centímetros do solo, foi demandado muito esforço”, relatou Ladeira.

Em parte do terreno, área amarelo-clara do mapa (Latossolo Vermelho), o solo encontrado imediatamente abaixo dessa faixa compactada tem uma característica extremamente porosa. “Temos um solo com espaço de poros de quase 70%. Isso quer dizer que em um metro de solo tem 70 centímetros de vazio. É uma característica natural do solo. A construção de uma edificação nessa área precisará de uma fundação específica, muito mais larga porque terá que se apoiar numa área muito maior”, relatou Ladeira.

Por outro lado, grande parte do terreno foi identificada como Nitossolo Vermelho (área marrom-avermelhada no mapa abaixo) e tem consistência, resistência e dureza significativamente maiores. “Esses solos eram a menina dos olhos do café, é a ‘terra roxa estruturada’ ”, contou.

Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi a descoberta de solos soterrados e decapitados. De acordo com Ladeira, nas regiões ao redor dos dois rios presentes no terreno, foram verificados cerca de 50 centímetros de solo do entorno acima do solo original. “Houve um processo erosivo no entorno. A erosão trouxe o solo para essa área, que é de baixada, e soterrou o solo aqui existente. Nós temos, então, solos enterrados decorrentes de manejo inadequado”, explicou o professor. Além de estar parcialmente soterrada, essa área apresentou outra característica importante: é um Gleissolo (área azul-clara no mapa abaixo) terreno que permanece alagado durante boa parte do ano. “Isso significa que não se presta a nenhum tipo de edificação. Ou seja, é uma área que deve ser utilizada para recuperação vegetal”, revelou Ladeira.

Reprodução


O mapa produzido pela estudante Taciana Alvarenga sob orientação do professor Francisco Ladeira

Além do interesse de engenheiros e paisagistas envolvidos em uma eventual ocupação do terreno, o mapa tem caráter de registro histórico da região. “No futuro, teremos aqui um quadro de como eram originalmente os solos nessa área da Unicamp”, apontou Ladeira. Segundo o professor, na área atual da Unicamp, os solos estão completamente modificados por processos de terraplenagem, no qual terrenos são cortados e outros soterrados. “Já não apresentam mais as características naturais que ainda podemos observar na Fazenda Argentina”.

Outro dado importante, destacado pelo professor, é que o mapa foi feito com o Sistema de Informação Geográfica (SIG), o que garante seu georreferenciamento, permitindo assim a futura sobreposição de outros mapas. “O SIG é um programa que permite fazer vários tipos de mapeamento com as informações georreferenciadas. O que fizemos é um deles. No futuro, quando for feito o plano viário, ou de rede de esgoto, ou qualquer outro levantamento, todos os mapas poderão ser sobrepostos”, ilustrou.


Em andamento

O outro projeto de iniciação científica, que está em andamento, é do estudante Gabriel Todaka e pretende gerar um novo mapa apresentando outras características do terreno. “A classificação que fizemos até o momento tem validade para os dois primeiros metros. Nós temos os tipos de solo, mas esse mapa não representa onde a rocha aparece. O que nós estamos fazendo agora é uma sondagem manual. A gente vai descendo de 10 em 10 centímetros. O objetivo é ir furando até terminar o solo, até bater na rocha dura, onde o Trado já não consegue ir. O objetivo é gerar um outro mapa, o Mapa de Espessuras de Solo, ou se você preferir, de Profundidade da Rocha”, relatou o orientador.

Segundo ele, as informações de profundidade do solo são fundamentais para o planejamento da ocupação do terreno, tendo em vista que alguns edifícios precisam ser “ancorados” na rocha dura.  “No topo, chegamos a bater na rocha a 9,60 metros. Em outros trechos, a rocha está muito mais próxima da superfície. Nestes, a fundação, teoricamente, seria muito mais rasa. Estamos gerando uma série de informações que poderão ser utilizadas no futuro”, destacou.

 

 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: Em campo aberto, área com vegetação rasteira capinada onde aparecem terra revolvida e mato seco, três pessoas em pé, sendo um homem ao centro, que perfura o solo com uma extensa vara de ferro, sendo observado por duas outras pessoas posicionadas junto a ele, à esquerda e à direita. Ao fundo há uma extensa área com vegetação alta e um veículo pick-up estacionado reste à esta vegetação. O céu está azul e a área ensolarada. Imagem 1 de 1.