Uma filosofia alto-xinguana da chefia (e do mundo)

Renato Sztutman resenha "Ancestrais e suas sombras", de Antonio Guerreiro

Em 1962, o jovem Pierre Clastres publicava o ensaio Troca e poder: A filosofia da chefia indígena, no qual iluminava a figura de “chefes sem poder” que, em vez de controlarem os seus seguidores, eram controlados por eles. Esses chefes impotentes seriam a marca maior do que Clastres chamou de “sociedades contra o Estado”. Residiria aí a sua “revolução copernicana” para a antropologia política. A identificação entre poder e coerção pertenceria à contingência e não à necessidade, como havia postulado boa parte das filosofias políticas no Ocidente.

Em 2015, Antonio Guerreiro publica Ancestrais e suas sombras (Prêmio Jabuti 2016 – 3o lugar – Ciências Humanas), reflexão fundamental sobre o problema da chefia indígena. Diferentemente de Clastres, ele não dirige seus esforços para uma discussão mais ampla com diferentes tradições da filosofia política. Em vez de uma filosofia da chefia indígena, diríamos que Guerreiro traça nesse livro o que poderia ser uma filosofia indígena (no caso, alto-xinguana) da chefia. Pois, para Guerreiro, o importante é desnudar o que viria a ser um conceito alto-xinguano e, mais especificamente, kalapalo de chefia e, assim, de que modo esse conceito iluminaria aspectos centrais do mundo desses povos, algo que transborda o que convencionamos chamar de política ou poder.

O que é um chefe para os Kalapalo (povo de língua caribe) e, de modo geral, nesse sistema regional multilíngue e plural, mais conhecido como Alto Xingu? Essa é a pergunta decisiva que perpassa todo o livro. Guerreiro evidencia desde o início que traduzir anetü (termo kalapalo) como chefe é incorrer numa espécie de equívoco, pois não se trata aqui da figura de um representante político propriamente dito. Anetü pode ser traduzido de diferentes modos, como “nobre”, “aristocrata”, “pessoa importante”. É sobretudo uma questão de grau. Guerreiro refere-se, por isso mesmo, a uma “forma-chefe”, tomada em analogia com a imagem de um esteio ou tronco e que perpassa todo o cosmos: há pessoas-chefe, aldeias-chefe, árvores-chefe.

Dialogando com uma vasta literatura etnológica, Guerreiro evidencia que, no Alto Xingu, ser chefe implica uma dosagem entre transmissão de substâncias (por via materna e paterna) e processos de fabricação, que passam pelo fortalecimento do corpo (por meio de reclusões) e pela obtenção de habilidades, como a oratória e o preparo para a luta. Se os alto-xinguanos reconhecem algo como uma “substância nobre”, esta não pertenceria simplesmente ao domínio do “inato”, devendo ser ativada ou mesmo produzida. Aqueles que desejam potencializar suas qualidades de anetü devem não apenas fazer-se como descendentes de anetü, mas sobretudo produzir essa sua ascendência.

A ideia de produção da ascendência remete ao fio condutor e foco de todo o livro: o ritual pós-funerário que os Kalapalo chamam egitsü e que se tornou mais conhecido sob o nome kamayurá (povo tupi do Alto Xingu), quarup. No Alto Xingu, sabemos, a construção da chefia está associada a diferentes rituais. O egitsü é ao mesmo tempo uma homenagem a chefes mortos e a possibilidade de seus descendentes, os donos da festa, consagrarem-se, eles também, como chefes. Haveria, assim, uma máquina ritual alto-xinguana de fazer chefes, e o egitsü seria particularmente um dispositivo capaz de transformar chefes mortos em ancestrais.       

Guerreiro evidencia que, ao homenagear ancestrais, o egitsü revela-se também a celebração da regionalidade alto-xinguana, fundada na partilha de uma mitologia e de uma série de intercâmbios, que inclui festas e trocas. Dentre os inúmeros aspectos do ritual, Guerreiro dá atenção especial às efígies de madeira dura – troncos adornados – que presentificam os chefes mortos. Estas, por sua vez, remetem à criação dos primeiros humanos a partir de troncos da mesma madeira dura. Dentre esses humanos primordiais, destaca-se a mãe dos gêmeos Sol e Lua, tida pelos alto-xinguanos como protótipo da chefia. Guerreiro explora em todo o livro essa analogia profícua entre chefes/humanos e troncos/vegetais, o que lhe permite aprofundar-se ainda mais no que estamos chamando de uma filosofia alto-xinguana, kalapalo da chefia e do mundo.

Tomando o egitsü como fio condutor do livro, Guerreiro dá a ver uma imagem total do sistema regional alto-xinguano. Tudo está aí: mitologia, complexo ritual e de trocas cerimoniais, ética discursiva, luta, história, casas e parentesco. Para tanto, ele se lança num diálogo com a vasta bibliografia alto-xinguana (na qual apenas o livro de Pedro Agostinho, de 1974, teria se concentrado numa etnografia pormenorizada do quarup) fazendo-a, por sua vez, conectar-se de maneira inovadora com a bibliografia amazonista mais ampla. Sob essa erudição e essa abertura, Guerreiro oferece ao leitor algo mais do que a imagem de um sistema alto-xinguano em regime de “paz perpétua”, devido ao esforço de redução da guerra pelo ritual. Com Guerreiro, salta aos nossos olhos um sofisticado sistema de diplomacias, no qual a troca de palavras e de coisas é orquestrada a partir de um pano de fundo geral, que é ainda tingido pela guerra. E os diplomatas em questão são esses tais chefes-nobres, que lutam para se constituírem e para projetarem a sua imagem – ou sombra – em uma duração que se quer mais extensa do que a de uma vida comum.

Renato Sztutman é professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).


SERVIÇO

Foto: Reprodução
Título:
Ancestrais e suas sombras – Uma etnografia da chefia Kalapalo e seu ritual mortuário
Autor: Antonio Guerreiro

Editora da Unicamp
Páginas: 520
Preço: R$ 84,00

 

Imagem de capa JU-online

Foto: Divulgação