Devolvendo as línguas aos seus falantes

Grupo da Unicamp colabora com comunidades indígenas para estudar e fortalecer seus idiomas


Foto: ReproduçãoO linguista Aryon Rodrigues [1925-2014] estimou que, no ano 1500, existiam no Brasil perto de 1,2 mil línguas diferentes. Hoje, mais de 500 anos depois, a maioria dessas línguas desapareceu e muitas das cerca de 170 que restam se encontram seriamente ameaçadas. Na Unicamp, o grupo InDIOMAS, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), busca aprofundar o conhecimento de algumas dessas línguas por meio da colaboração entre pesquisadores e comunidades indígenas. Graças a essas parcerias foram desenvolvidas formas escritas para línguas que eram exclusivamente orais, comunidades indígenas lançaram sites nas suas próprias línguas e professores de escolas indígenas foram capacitados para falar e ensinar nas línguas das suas comunidades. O mais recente fruto dessa colaboração é o lançamento de dois livros indígenas, Lições de gramática: Nhandewa-Guarani e Inypyrũ narrativa sagrada da criação do mundo. O evento de lançamento ocorre hoje, às 14h30, no auditório do Instituto de Estudos da Linguagem, e contará com a presença de vários professores e lideranças indígenas.

Liderado pelo professor Wilmar D’Angelis, o grupo foi criado em 2008 sob a denominação oficial de “Conhecimento de Línguas Indígenas Brasileiras na Relação Universidade & Sociedade”. Mais tarde foi adicionado o epíteto “InDIOMAS”, um termo utilizado por várias comunidades indígenas para se referir às suas próprias línguas, e também uma referência a Línguas de Sinais.

Como sugere o nome completo do grupo, uma das linhas diretrizes é a de estabelecer relações frutíferas tanto para a pesquisa universitária como para as sociedades indígenas envolvidas.

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O cacique Claudino Marcolino e o professor Wilmar D’Angelis durante evento na aldeia Nimuendajú

“Eu sempre procurei que os meus alunos fizessem um trabalho de pesquisa que tivesse interesse para as próprias comunidades, que respondesse a preocupações das próprias comunidades,” explica D'Angelis.

Atualmente o grupo mantém quatro linhas de pesquisa: o estudo de línguas do ramo sul da família Jê, a principal família de línguas indígenas do interior do país; o registro e análise de línguas indígenas extintas ou em vias de desaparecimento; e a definição de ortografias para línguas indígenas. Além do foco principal nas línguas indígenas, o grupo também mantém, desde 2015, uma linha de estudo sobre línguas de sinais e ensino bilíngue para surdos.


Índios na web

Uma das inciativas mais interessantes do InDiomas é o Projeto Web Indígena. Desenvolvido em colaboração com a ONG Kamuri e com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp, o projeto visa promover a inclusão digital das línguas indígenas. Para D'Angelis essa presença é fundamental para a preservação das línguas indígenas, destacando “a importância dessas línguas de se modernizarem, de tratarem não só das realidades das aldeias mas do mundo todo, e de estarem em lugares de prestígio como é a internet.”

Um aspecto importante do projeto é que promove que a inclusão seja pró-ativa, isto é, levada a cabo pelos próprios usuários indígenas. Um exemplo de sucesso neste sentido é o site Kanhgág Jógo, uma página colaborativa cujo conteúdo se encontra exclusivamente em kaingang, uma das línguas da família jê. Qualquer pessoa pode se cadastrar e postar novo conteúdo, com a única condição de que o material esteja em língua kaingang. Segundo D’Angelis: “Ele é hoje o em dia o maior repositório de língua escrita kaingang”.

O site também se tem mostrado como uma ferramenta efetiva de comunicação entre comunidades kaingang espalhadas pela geografia brasileira.

“Os kaingang estão em quatro Estados, em mais de 35 áreas indígenas. Às vezes numa mesma área indígena, como em Guarita, você têm 10 aldeias com escolas diferentes”, explica D'Angelis. “Essa dispersão geográfica torna a internet para eles útil e esse tipo de recurso, importante.”

Uma das seções mais originais do site é a vĩkikep, una experiência piloto de enciclopédia colaborativa inspirada na Wikipedia. De fato, o próprio termo que dá nome a seção foi criado a partir da frase ẼẼg vĩ pẽ ki ke, que em kaingang significa “dito ou feito na nossa própria língua”, e cuja pronúncia assemelha-se à da palavra Wikipedia. A vĩkikepẽẽ conta atualmente com mais de 300 verbetes sobre os mais diversos temas, desde “Barack Obama” a “Bruce Lee”.


Formação de professores

Outra atividade importante do grupo é a formação de professorado para as escolas indígenas do Estado de São Paulo. Segundo dados da Secretaria de Educação, existem 40 unidades escolares no Estado, atendendo mais de 1,8 mil alunos das etnias Guarani Nhandewa, Guarani Mbya, Terena, Krenak e Kaingang.

O InDIOMAS colabora com as escolas por meio de várias atividades, como a organização de oficinas com falantes de línguas indígenas, a elaboração de gramáticas pedagógicas e a formação propriamente dita dos professores indígenas.

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O professor indígena Tiago Oliveira, filho de Claudemir Marcolino, cacique que começou o esforço de recuperação da língua e da cultura da sua comunidade há 20 anos; Marcolino faleceu em 2009

Recentemente o grupo publicou, em parceria com a ONG Kamuri e com apoio da Funai, o livro “Lições de Gramática Nhandewa-Guarani (vol. 1)”, uma gramática pedagógica que poderá ser usada para ensinar o dialeto nhandewa nas escolas das comunidades. Junto com a gramática foi lançado um segundo livro em dialeto nhandewa chamado “Inypyrũ”, que trata sobre as narrativas sagradas da criação do mundo.

Embora a responsabilidade de formar professores indígenas seja do Estado, D’Angelis explica que, exceto o pagamento do transporte de um pequeno número de oficinas, o Estado tem se mostrado omisso.

“Se você olhar de 2013 para cá, quem faz formação de professores indígenas em São Paulo é o meu grupo de pesquisa com a ONG Kamuri e apoio da Funai,” explica D’Angelis. “O Estado de São Paulo não deu formação nenhuma para professores nos últimos anos.”

A crítica ao Estado se estende também à situação dos professores indígenas, que segundo ele se encontram “em regime precário porque o Estado nunca criou, como foi determinado desde 1999 pelo Conselho Nacional de Educação, a carreira de professor indígena”.