Crítica subestimou literatura sobre a economia da borracha, aponta estudo

Para autor de pesquisa, especialistas foram incapazes de enxergar a importância de obras que retrataram o período


Foto: ReproduçãoA literatura produzida entre 1870 e 1940, que retrata as relações econômicas, de trabalho e de migração entre as regiões Norte e Nordeste do Brasil, foi relegada pela crítica literária a um espaço de obscuridade. É o que afirma o professor de língua inglesa da rede pública de ensino Roberto José da Silva, em estudo sobre a escrita produzida em tempos de extração da borracha na Amazônia. A pesquisa resultou na tese de doutorado intitulada “Entre História e Ficção – algumas leituras sobre a produção literária em torno da economia da borracha: 1870–1940”.

A pesquisa foi desenvolvida no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, sob orientação do professor Francisco Foot Hardman. Roberto, que também fez parte de seu doutorado nos Estados Unidos, com o acompanhamento do professor Leopoldo Bernucci, afirma que “a quantidade de romances que trata da economia da borracha é tão grande quanto a própria floresta”. O autor da tese defende que a crítica literária brasileira não parece ter sido capaz de definir ou de categorizar o espaço que esses escritos ocupam.

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Roberto José da Silva, autor da pesquisa: influência de críticos contribui para que obras ficassem à margem

Sua pesquisa se apoia, principalmente, em romances, entre os quais O gororoba: cenas da vida proletária no Brasil, de 1931, e Marupiara, de 1935, ambos de Lauro Palhano. O autor da tese também faz análises de obras como Paroara, de Rodolfo Teófilo, de 1899, Inferno Verde, de 1908, e Sombras n’água, de 1913, ambas de Alberto Rangel. Os ensaios de Euclides da Cunha, destacados em livros como À margem da história, de 1909, também são alvo dos estudos do pesquisador. A escolha dessas obras tem relação direta com uma proposta de escrita engajada, de acordo com o professor, que afirma se sentir compromissado com uma  “literatura que está às margens”.

 Para o autor da tese, Paroara é o romance “que melhor trata o processo da saída do sertanejo do campo em direção à Amazônia”. Esse movimento é descrito pelo pesquisador a partir de dois princípios, um climático e um econômico. “O movimento climático é o do final do século XIX, quando o Nordeste teve três grandes secas. Muitos nordestinos tiveram que ir para as capitais, para trabalhar na indústria, ou para a Amazônia, onde também se necessitava de mão de obra para a extração da borracha”, destaca.

Roberto afirma que a situação do trabalhador nordestino em sua incursão pela Amazônia era um caminho sem volta, que consistia em adquirir uma dívida com os seringalistas e ser submetido a um regime de escravidão. “A dívida já começava na ida para a Amazônia, com a compra da passagem, que era paga por meio de um empréstimo”, aponta o professor.

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Homem trabalha na extração de borracha na Amazônia, ofício que atraiu significativa mão de obra nordestina | Fonte: O seringal e o seringueiro - Arthur Cesar Ferreira Reis (1953)

A seca como uma das motivações para a ida de nordestinos para a Amazônia, as dificuldades enfrentadas por esses trabalhadores e as relações de poder e de dominância exercidas pelo coronelismo são alguns dos elementos que o pesquisador encontra e analisa em cada um desses romances e ensaios. É a partir dessas análises que o autor da tese considera Euclides da Cunha como “o primeiro intelectual brasileiro a sair em defesa do trabalhador”. O professor trata esses ensaios de Euclides da Cunha como textos históricos. Para ele, na escrita do jornalista carioca há “um consórcio entre uma escrita científica, que já alça voos para um trabalho de linguagem que, no entanto, não é ficção. O uso de metáforas, por exemplo, nos faz pensar num tipo de texto difícil de definir. Eu costumo dizer que é ensaio, porque eu vejo o ensaio como um gênero aberto”, pontua.

 

Crítica literária brasileira

A pesquisa de Roberto José da Silva problematiza também o fato de textos como os de Euclides da Cunha e de tantos outros romancistas empenhados em retratar as situações sociais e econômicas envolvidas na extração de borracha na Amazônia serem colocados em segundo plano pela crítica literária brasileira. Para o autor da tese, críticos como Antonio Candido, em seu artigo Literatura e Subdesenvolvimento, de 1989, e João Luís Lafetá, em seu livro 1930: A crítica e o modernismo, de 1974,  defendem que uma ruptura estética na arte e na literatura brasileira se deu de forma intensa apenas com a Semana de 1922. “Mas temos vários romancistas e prosadores que já desenvolviam trabalhos estéticos e de linguagem antes disso. É o caso de Alberto Rangel, que desenvolveu um trabalho muito bom trazendo a língua do caboclo e do sertanejo, e também de outros textos que analiso”, afirma.

A influência desses críticos, de acordo com autor da tese, contribuiu para que certas produções ficassem à margem na literatura brasileira, e para que esses conteúdos nunca chegassem efetivamente às salas de aula. “Suas ficções carregam informações históricas sobre a realidade da seca no Nordeste e sobre a Amazônia. Eles trazem uma noção importante para se revisitar a História. Encontrei nesses romances informações que nunca vi em livros teóricos”, explica.

As relações entre literatura e História, para Roberto, precisam sempre ser trazidas à tona em sala de aula. “É preciso ler a ficção para se repensar a História. E essas obras são caminhos para essa revisitação”, afirma. O professor considera que analisar os elementos estéticos dessas obras por tanto tempo marginalizadas não é apenas defender uma literatura engajada, mas mostrar o quanto essas produções carregam aspectos de linguagem e de literariedade tanto quanto as que estão no cânone. O fato de poucas estarem lá e muitas estarem cá parece se apresentar, então, como uma questão especialmente política, sob a qual, segundo o pesquisador, a crítica literária acaba sempre por se basear.