Estudo amplia entendimento sobre a biomecânica do crânio

Pesquisa internacional que contou com a participação da FOP/Unicamp contesta a existência de vigas e contrafortes na estrutura craniana

Estudo desenvolvido de forma colaborativa entre pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Unicamp e de outras quatro instituições estrangeiras, entre elas a Universidade de Chicago (EUA), trouxe novas contribuições para o melhor entendimento sobre a biomecânica do crânio, mais especificamente em relação ao esqueleto da face. De acordo com o trabalho, que gerou artigo publicado na edição especial comemorativa de 100 anos da The Anatomical Record, revista científica editada pela Associação Americana de Anatomia, embora o conceito de vigas e contrafortes seja muito utilizado na literatura, tais elementos não existem sob o ponto de vista estrutural. “Ao compararmos as estruturas ósseas das áreas consideradas como vigas com outras áreas do crânio, nós constatamos que não há diferenças significativas entre elas”, afirma Felippe Bevilacqua Prado, docente da FOP/Unicamp e um dos autores da pesquisa.

Foto: Antoninho Perri
O professor Felipe Bevilacqua Prado, um dos autores do trabalho: “Esse dado novo é importante porque aprimora o nosso conhecimento sobre biomecânica do crânio, o que pode contribuir para melhorarmos o diagnóstico e o tratamento de doenças ou traumas nessa região”

O resultado da investigação, como reconhece Prado, promove uma quebra de paradigma ao propor que o conceito de vigas e contrafortes, emprestado da arquitetura e da engenharia civil, existe somente no plano conceitual. Na prática, segundo o professor, não há evidências da presença dessas estruturas no crânio. A constatação veio depois que os pesquisadores analisaram, através de técnicas de velocidades ultrassônicas e de microtomografia computadorizada, amostras de ossos de crânios humanos e de cebus, espécie popularmente conhecia como macaco-prego.

Em seguida, a equipe utilizou o método de elementos finitos, recurso computacional que permite a solução de problemas numéricos e geométricos, para complementar os trabalhos experimentais. “Nós avaliamos algumas propriedades desses materiais, inclusive o volume ósseo. O que verificamos foi que não é possível classificar, do ponto de vista estrutural, a existência dos pilares e contrafortes, dado que não há diferenças importantes entre as áreas onde eles deveriam estar e outros pontos do crânio”, reforça Prado.

Se as vigas e contrafortes realmente existissem, continua o docente, seria de se esperar que as áreas onde essas estruturas estariam localizadas fossem reforçadas, a exemplo do que ocorre num edifício. “O que nós verificamos foi que algumas áreas consideradas como vigas até apresentam alguns pontos com maior densidade, mas isso não ocorre em toda a extensão, como seria de se esperar. Esse dado novo é importante porque aprimora o nosso conhecimento sobre biomecânica do crânio, o que pode contribuir para melhorarmos o diagnóstico e o tratamento de doenças ou traumas nessa região”, explica o professor da FOP/Unicamp.

Foto: Antoninho Perri
Além de Prado, também participaram da pesquisa pela FOP os professores Alexandre Rodrigues Freire e Ana Cláudia Rossi

Foto: Antoninho Perri


Como exemplo, Prado cita a possibilidade da determinação de pontos mais apropriados para uma eventual colocação de pinos ou placas na região da face, tanto para promover correções funcionais quanto estéticas. “Nós observamos que, dependendo da intervenção, às vezes é melhor você fixar uma placa em apenas um ponto que em dois, dado que podemos aproveitar a área onde realmente estão localizados os regimes complexos de forças, que independem da existência das vigas”, detalha o pesquisador. Contribuíram para a pesquisa dois outros docentes da FOP/Unicamp, Alexandre Rodrigues Freire e Ana Cláudia Rossi, que também assinam o artigo publicado pela The Anatomical Record. Na Universidade de Chicago, onde Prado realizou o pós-doutorado, as pesquisas foram coordenadas pelo professor Callum Foster Ross.

Além da Unicamp e da Universidade de Chicago, também participaram do estudo as seguintes instituições: University of New England (Austrália), Washington University (EUA) e College of Dentistry (EUA). O trabalho foi financiado com recursos da National Science Foundation e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


Nova abordagem

A proposição sobre a inexistência de vigas e contrafortes na estrutura óssea craniana tem gerado uma série de questionamentos por parte da comunidade científica, como admite o professor Prado. “Isso é normal e esperado. Afinal, estamos contestando um conceito que vem sendo utilizado há décadas pela literatura e reproduzido em salas de aula. O que os autores do trabalho consideram é que esses novos dados contribuem para melhorar o entendimento sobre a biomecânica do crânio. Futuramente, outras descobertas serão feitas, de modo a também aprimorar o que estamos propondo agora”, pondera.

Conforme o docente, a equipe da FOP/Unicamp já deu início a uma nova pesquisa, utilizando a mesma abordagem, mas agora em relação à mandíbula. Os primeiros ensaios demonstraram que a região segue o mesmo padrão encontrado na área da face. “Obviamente, a região da mandíbula apresenta um grau de complexidade maior, uma vez que o osso é móvel e temos vários músculos envolvidos no processo de mastigação. Em outras palavras, temos que analisar diferentes regimes de forças. Além disso, também temos que considerar o tipo de alimento ingerido hoje, que é diferente do passado. Atualmente, a dieta do ser humano inclui muitos alimentos macios, que exigem menos da mastigação”, analisa o pesquisador.

 

 

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