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Manuscrito de um homem pardo (e comum)

Página
12

Historiador revisita vida de personagem que ascendeu à classe média baiana

Antônio Arantes: de servente de pedreiro a administrador de empreendimento agroindustrial
Antônio Arantes: de servente de pedreiro a administrador de empreendimento agroindustrial

“A complexidade da vida humana é maior do que qualquer conceito”, afirma o historiador Lucas Porto Marchesini Torres ao concluir sua tese de doutorado, na qual esquadrinhou a vida pessoal e profissional de Antônio Arantes (1930-2009), um homem pardo com baixo letramento que ascendeu à classe média baiana.

O personagem começou como servente de uma indústria têxtil e chegou ao cargo de administrador de um grande empreendimento agroindustrial na Bahia. No final da vida, Arantes produziu um manuscrito de 14 páginas contando a sua história, o suficiente para Torres dar início à sua pesquisa, por meio da qual dialoga com questões clássicas da História – relacionadas a classe, raça e gênero – e elabora um texto em moldes literários, sem fugir do rigor acadêmico.

Arantes reproduziu dentro de sua família os valores necessários para garantir sua mobilidade social. A vida de um homem comum, que não foi líder sindical ou ativista de movimentos operários, revela como os valores ligados à condição de trabalhador permitiram ao cidadão de origem humilde enfrentar a pobreza, ascendendo socialmente e desafiando hierarquias raciais e sociais.

“O meu esforço foi demonstrar que os sujeitos comuns fazem escolhas dentro de um campo de muitas desigualdades”, explica Torres. “Eu consegui mostrar que a situação dos pardos é muito atípica e não pode ser definida de uma forma única, situando o pardo no grupo dos negros ou como um grupo coeso com identidade própria. A situação racial dos pardos no Brasil no século 20 oscilou profundamente.”

Orientado pelo professor Fernando Teixeira da Silva, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o pesquisador iniciou seu doutorado antes de conhecer o manuscrito de Arantes. Inicialmente, o historiador se dedicava a estudar o comunismo na Bahia. “Mergulhei na história de uma fábrica têxtil e comecei a ver algumas questões de classe e de hierarquia racial que se colocavam no cotidiano fabril, mas o estudo não tinha uma liga. Quando Arantes apareceu, surgiu o contexto”, lembra Torres.

O historiador Lucas Porto Marchesini Torres: “Sujeitos comuns fazem escolhas dentro de um campo de muitas desigualdades”
O historiador Lucas Porto Marchesini Torres: “Sujeitos comuns fazem escolhas dentro de um campo de muitas desigualdades”

O personagem protagonista de sua tese foi descoberto em uma comunidade do Facebook, em um post da filha de Arantes com uma foto de família e a legenda: “A minha avó foi o grande orgulho do meu pai, conforme ele próprio deixou escrito em Memórias de um idoso no século XXI – um breve relato da sua vida”. Segundo Torres, a vida de Arantes concentrava tudo aquilo que sua pesquisa buscava responder.

As primeiras 250 páginas da tese lançam mão de fontes impressas, como documentos de empresas em que Arantes trabalhou, o manuscrito redigido por ele e o seu próprio acervo pessoal. O historiador também fez 50 entrevistas com pessoas que conheceram Arantes e, em seguida, cruzou os dados, analisando o conjunto apoiado em uma sólida base historiográfica.

Graduado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde também fez o mestrado, Torres conheceu seu orientador na Unicamp em 2012, em uma disciplina sobre trajetórias e biografias. “Essa é uma tese criativa e corajosa, que pode inspirar outras pesquisas”, garante Silva. “Torres ouviu os silêncios de Arantes e quais estratégias ele utilizou para superar barreiras”, diz o orientador.

O título do trabalho – “ O perfil do administrador que a empresa precisava’: mobilidade social, escrita de si e marcadores de diferenças na trajetória de Antônio Arantes (Salvador-BA – 1930-2009)” – refere-se a um episódio relatado pelo próprio Arantes em seu manuscrito ao falar de um chefe segundo o qual ele teria o perfil de que a empresa precisava. “A ideia de perfil é relacional, porque tem que interagir com o que a pessoa deseja para si e também com o que os outros esperam dela”, comenta Torres.

Evidenciando a “oscilação da classificação de cor” com a qual Arantes conviveu ao longo de sua vida, há o fato de que, ao nascer, em 1930, ele foi registrado como mestiço. No decorrer da vida, foi classificado como pardo. E, no atestado de óbito, consta a classificação de branco. “Ou seja, a posição social em algum momento da sua vida pode tê-lo embranquecido, o que reduz o peso dos estigmas raciais, mas não os elimina”, analisa Torres, supondo que Arantes, durante toda a sua trajetória, conviveu com a marca do “negro de alma branca”.

“Eu entendia isso sempre pelo inverso, pelo lugar em que ele não estava”, argumenta o historiador. Arantes não foi combativo e sempre fugiu de estigmas. Isso não nega a sua posição de classe. A mãe – matriarca admirada por todos – tinha sido tecelã, pariu Arantes aos 40 anos, ficou viúva muito cedo e enfrentou a pobreza. A família viveu na vila operária da fábrica Boa Viagem, em Salvador (BA), onde todos aprenderam a se proteger. Torres mergulhou nos aspectos mais banais do cotidiano da vila. Tratava-se de uma família católica marcada pelo sincretismo – Arantes usava branco às sextas-feiras e recomendava aos filhos que usassem fitinha do Senhor do Bonfim para proteção.

O professor Fernando Teixeira da Silva, orientador: “Torres ouviu os silêncios de Arantes e quais estratégias ele utilizou para superar barreiras”
O professor Fernando Teixeira da Silva, orientador: “Torres ouviu os silêncios de Arantes e quais estratégias ele utilizou para superar barreiras”

Para Silva, o personagem da tese “era quase um migrante de classe” que, mesmo saindo da condição operária, possuía uma cultura de classe, avalia o orientador. Havia um esforço da parte dele em se adequar aos padrões dos “brancos civilizados”. Torres, no entanto, não se valeu de rótulos reducionistas para classificar Arantes, entre outros motivos porque o racismo que seu personagem enfrentou era diferente, não era declarado.

No final da vida, internado em um asilo que atendia a uma classe média remediada, o reservado Arantes escreveu seu manuscrito valendo-se de muitos silêncios. “A mobilidade dele foi restrita”, diz o historiador. “Arantes foi muito mais um editor que um autor de si”, pontua. Segundo Torres, existe na historiografia um debate muito grande sobre biografias, memórias e autobiografias. O historiador diz também que a discussão racial sobre o lugar dos pardos na história do Brasil tem recebido mais atenção da Sociologia do que da pesquisa propriamente histórica. Torres atravessa essas linhas divisórias, além de quebrar padrões de composição textual com sua tese.

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