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Estudo associa herbicida a alterações celulares

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Pesquisa revela que defensivo agrícola à base de glifosato tem efeito tóxico e proliferativo nas células da tireoide

Foto de um homem fazendo uma aplicação de herbicidas em um campo cultivado. Ele aparece de costas, usa calça escura e camisa clara e boné.
Segundo as autoras da pesquisa feita na FCM, estudos recentes detectaram glifosato na urina e no sangue de agricultores (Foto: Reprodução/Pixabay)

Um estudo conduzido no Laboratório de Genética Molecular do Câncer (Gemoca) da Faculdade de Ciências Mé- dicas (FCM) da Unicamp constatou que o Roundup – defensivo agrícola mais comercializado no mundo – apresenta um duplo efeito, tóxico e proliferativo, em células da tireoide humana. Publicados recentemente na revista Frontiers in Endocrinology, os resultados da pesquisa são um alerta dos riscos do uso de herbicidas à base de glifosato para a saúde humana, apontando a necessidade de mais investigações sobre a ação dessas substâncias.

O estudo foi realizado com linhagens obtidas do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), em Portugal, que fez a estabilização das células para que elas continuassem vivas. Apesar de os resultados indicarem o efeito tóxico e proliferador do Roundup na cultura celular – um ambiente controlado –, é preciso ter cautela ao extrapolar seus efeitos para o corpo humano, cujo sistema imunológico pode reconhecer e eliminar células alteradas, ajudando a evitar o desenvolvimento de doenças. O que esses experimentos evidenciam é a necessidade de realizar mais estudos sobre o assunto, incluindo ensaios em modelos animais. Esse é o objetivo da bióloga Izabela Dal’ Bó, aluna do Programa de Doutorado em Clínica Médica na FCM e principal autora do estudo.

Apesar de os principais órgãos regulatórios do mundo, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), considerarem o glifosato um produto pouco tóxico, há muitos anos a comunidade científica vem alertando quanto aos seus potenciais efeitos carcinogênicos e desreguladores endócrinos. Diversos estudos já haviam encontrado uma correlação entre o uso de herbicidas e o aumento na incidência de doenças como câncer e hipotireoidismo, mas, como a associação entre dois fatores não implica, necessariamente, uma relação de causa e efeito, os resultados poderiam significar apenas uma coincidência.

A aprovação das agências reguladoras se por meio de análises feitas diretamente com o glifosato, mas ele não é o único ingrediente na composição dos herbicidas. Como explica Dal’ Bó, o glifosato é combinado com outras substâncias chamadas adjuvantes, que não costumam ser especificadas pelas empresas. Na lista de ingredientes do Roundup, por exemplo, o glifosato representa apenas 25% da composição. Os 75% restantes aparecem sob o rótulo de “outros ingredientes”. “Essas substâncias podem ser mais tóxicas ou modificar a ação do glifosato”, alerta a pesquisadora. “O nosso posicionamento é que as agências devem estudar o herbicida porque é ele que os trabalhadores encontram na prateleira”, esclarece.

O Roundup tem efeitos importantes e talvez maiores do que o glifosato puro na genotoxicidade celular – ou seja, na indução de alterações no material genético – e no estresse oxidativo, quando há um desequilíbrio nos níveis de antioxidantes no organismo e estes não conseguem eliminar produtos tóxicos das células. “Quando isso acontece, as células ficam mais tóxicas, o que pode desencadear sua proliferação, envelhecimento precoce ou tumorigênese”, comenta a biomédica Elisangela Teixeira, que também participou do estudo.

Teoricamente, herbicidas à base de glifosato não são absorvidos pelo corpo humano, mas estudos recentes detectaram a substância na urina e no sangue de agricultores após a exposição, na água e em alimentos. Ao mesmo tempo, organizações como a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, em inglês) já concluíram que o glifosato é um potencial carcinogênico. “E nós não temos fiscais para acompanhar se a pulverização está sendo feita adequada- mente e nem temos como tirar o agro- tóxico de dentro da fruta, do legume. Não é só lavar, porque está lá dentro”, afirma Dal’ Bó.

Composição com as fotos de duas mulheres que aparecem do peito para cima. A da esquerda é branca, tem o cabelo longo, preto e usa óculos. A da direita, tem o cabelo longo, loiro e usa óculos.
A endocrinologista Laura Ward, coordenadora do Laboratório de Genética Molecular do Câncer, e a a bióloga Izabela Dal’ Bó, principal autora do estudo: adjuvantes não são especificados pelas empresas (Fotos: Antonio Scarpinetti)

Quando o pouco é muito

Nas análises, as pesquisadoras constataram uma relação direta entre o uso do Roundup e o crescimento ou morte das células. Para chegar a essa conclusão, elas testaram 15 diferentes concentrações do defensivo, incluindo o Nível de Exposição Ocupacional Aceitável e a Ingestão Diária Aceitável, determina- dos pela Anvisa, em duas linhagens de células tireoideanas: foliculares normais (Nthy-ori 3-1) e de carcinoma papilar (TPC-1), tipo de câncer de tireoide com maior incidência na população.

Como resposta dos experimentos, elas obtiveram um comportamento não-linear: enquanto altas concentrações do herbicida causaram morte significativa de células, baixas concentrações resultaram na sua proliferação. “E um dado interessante do trabalho é que células com anomalias têm mais chances de se proliferar, podendo resultar no carcinoma papilífero ou câncer de tireoide. Se você já tem esse nódulo e tiver uma exposição ao herbicida por um tempo prolongado, há um estímulo maior para desencadear o tumor”, explica a endocrinologista Laura Sterian Ward, que coordena o Gemoca.

Essa ausência de uma dose-resposta linear é uma das principais características dos desreguladores endócrinos – substâncias que imitam os hormônios e se ligam aos seus receptores, bloqueando ou incentivando a produção de mais hormônios. Ao contrário da toxicologia, que preconiza que quanto maior a concentração de uma substância, maior é o seu efeito, com os desregula- dores é comum haver resultados muito importantes com doses pequenas e um efeito menor com doses maiores, o que poderia explicar o porquê de agências como a Anvisa considerarem o uso do glifosato seguro.

Ward alerta que esses resultados são preocupantes, porque as chances de a população desenvolver nódulos já são altas mesmo sem a exposição aos herbicidas. Fatores ambientais como dieta, concentração de iodo, exposição à radiação e obesidade já foram associados a neoplasias e doenças autoimunes da tireoide, mas estudos recentes também demonstraram que aspectos biológicos desempenham um papel importante. Uma investigação com mais de 13 milhões de chineses publicada na Frontiers in Endocrinology mostrou que, enquanto mulheres de 50 anos têm mais de 50% de chances de terem um nódulo de tireoide, aquelas com 70 anos têm mais de 70% de chances.

Segundo Ward, embora menos de 5% desses nódulos sejam malignos, a incidência de câncer de tireoide vem subindo exponencialmente. No Brasil, ele já é o quinto câncer mais frequente entre mulheres. “E o que está acontecendo em paralelo? O aumento do uso de herbicidas à base de glifosato”, finaliza a endocrinologista.

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