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'Ciência cidadã' a serviço da saúde

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Unicamp integra rede de laboratórios que investiga fungo resistente aos azóis; coleta é feita por voluntários

Foto que mostra uma mão segurando uma placa de vidro com manchas escuras espalhadas.
Amostras de fundo no Laboratório de Epidemiologia Molecular e Doenças Infecciosas: estudos envolvem 26 laboratórios de 12 países da AL, além de grupos da Austrália e da França (Foto: Antoninho Perri)

A Unicamp integra um grupo de instituições de pesquisa que estão investigando a ocorrência de cepas do fungo Aspergillus fumigatus resistentes aos azóis, classe de medicamentos antifúngicos utilizados também como pesticidas. A LatAsp (Pesquisa Latino-Americana de Resistência aos Azóis em Aspergillus fumigatus) é conduzida pela Rede Latino-Americana de Micologia Médica (LAMMN), composta por 26 laboratórios de 12 países da América Latina, além de grupos da Austrália e França. O projeto conta com um financiamento de 753 mil dólares, oriundos dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. Um diferencial do projeto é a participação da comunidade por meio da coleta de amostras do fungo, dentro do conceito de “ciência cidadã”.

O objetivo da pesquisa é identificar a presença de cepas do fungo resistentes aos azóis e comparar a sua ocorrência em áreas urbanas e rurais, onde a atividade agrícola e a tendência de uso de pesticidas são maiores. Na primeira etapa do estudo, haverá a coleta de amostras tiradas do ar, das quais serão isolados os fungos

A. fumigatus. É dessa fase que a comunidade participa. Voluntários dos países latino-americanos envolvidos, também chamados “cientistas cidadãos”, recebem tiras de plástico adesivo que devem ser deixadas ao ar livre por cerca de dez horas, para que os esporos de fungos e outros micro-organismos que circulam pelo ar fiquem aderidos a elas. Após a coleta, eles são encaminhados aos laboratórios integrantes da LAMMN. “Não é a primeira vez que projetos como esse se uti- lizam da “ciência cidadã”. Com ela, chegamos a muito mais pessoas. A sociedade tem alimentado um interesse maior por temas relacionados à saúde e as pessoas ficam ansiosas por contribuir”, avalia Wieland Meyer, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Micologia Molecular (MMRL), ligado à Universidade de Sydney, na Austrália, e pesquisador convidado da Fundação Oswaldo Cruz (Fio- cruz), ambas ligadas à LatAsp. A meta do grupo é chegar a um mínimo de 1.600 voluntários. Interessados podem se inscrever no site www.latasp.com.

A abordagem oferecida pela “ciência cidadã” traz ganhos sociais importantes não apenas para o projeto. “Temos a oportunidade de discutir a questão da resistência a antifúngicos com a comunidade, não só com pesquisadores, e esclarecer as pessoas sobre as razões que causam essa resistência”, comenta Plínio Trabasso, professor associado da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e pesquisador do projeto. Outra vantagem é a possibilidade de gerar mudanças de comportamento. “Como as pessoas estão envolvidas no processo, é mais fácil que elas percebam os riscos de usar um de- terminado tipo de antifúngico, algo mais difícil de ocorrer se, simplesmente, recebessem a recomendação de forma aleatória”, analisa Luciana Trilles, pesquisadora da Fiocruz ligada ao projeto.

Na segunda etapa, as amostras coletadas serão enviadas a laboratórios no Brasil, Peru, Colômbia e México e passarão pelo processo de isolamento, identificação morfológica e confirmação do A. fumigatus por meio de análise de biologia molecular, além da triagem para verificar a existência de cepas resistentes aos azóis. Os pesquisadores também investigarão as causas da resistência nas amostras isoladas. Atualmente, ela é associada a uma mutação no gene CYP51A, mas rearranjos em outras partes do genoma do fungo também podem estar associadas ao fenômeno.

Outra preocupação é identificar relações entre as cepas resistentes encontradas em locais diferentes. As amostras serão submetidas a uma análise filogenética seguida de um estudo de parentesco georreferenciado. “Vamos comparar se a resistência é identificada apenas em áreas de produção agrícola intensa ou também em regiões como a Amazônia, em áreas de altitude do Chile e da Argentina, onde não há uma grande produção agrícola”, comenta Meyer. O georreferenciamento das amostras de toda a América Latina será feito pelo grupo de geoprocessamento da Diretoria Executiva de Planejamento Integrado (DEPI) da Unicamp, sob coordenação de Vanderlei Braga. “Pelo histórico de pesquisas já realizadas, esperamos encontrar menor resistência em amostras de áreas urbanas. Mas não sabemos o que será encontrado porque não é possível prever quão longe os esporos conseguem viajar”, explica Luciana Trilles.

Mapa da América do Sul marcado com pontos.
Pontos de coleta na América Latina (Reprodução)

Mapas da resistência fúngica

Ao final do projeto, a LatAsp pretende oferecer dados que auxiliem na elaboração de diretrizes capazes de minimizar os efeitos que a resistência azólica do A. fumigatus pode provocar. “Queremos aconselhar sobre a forma de utilizar antifúngicos se a resistência for identificada, e quais políticas públicas podem ser adotadas para isso”, pontua Meyer.

Os estudos sobre a resistência azólica do A. fumigatus integram uma iniciativa global de mapear as áreas onde o fenômeno ocorre com mais frequência, seus motivos e as estratégias adequadas de enfrentamento. As primeiras pesquisas ocorreram nos Países Baixos e no Reino Unido. Na América Latina, já havia uma integração entre laboratórios que trabalham com micologia para a realização de pesquisas com outros fungos, como os do gênero Cryptococcus.

No Brasil, aspectos físicos e econômicos interferem na dinâmica estabelecida entre o fungo, espécies vegetais e a população humana, o que amplia a importância de se investigar a resistência azólica. “Quando apenas uma espécie é cultivada em uma região, como é o caso da soja e outras monoculturas de alto impacto, todas as plantas replicam as mesmas características genéticas. Se um grão de soja acaba contaminado por um desses fungos, por exemplo, toda a plantação é afetada. Por isso, há tanto uso de antifúngicos nas plantações”, argumenta Trabasso. Segundo ele, a pesquisa também tem o potencial de incentivar mudanças nas práticas agrícolas. “Aqui no Brasil, qualquer pessoa pode comprar fungicidas em lojas de varejo, sem a prescrição de um engenheiro agrícola. O projeto pode servir de base para mudarmos essa política.”

Já no campo da medicina, a escala continental do projeto é um indicativo dos riscos das infecções fúngicas. “Os fungos estão muito próximos das pessoas, sua estrutura celular é muito parecida com a das células humanas. Por isso, o trata- mento de doenças causadas por eles é complexo. Leva tempo para diagnosticá-las, o que afeta a saúde das pessoas, especialmente as imunodeprimidas”, alerta Meyer. Segundo ele, com uma dimensão concreta da resistência aos azóis, será possível reduzir esses problemas. “Se pudermos nos antecipar e conhecermos todas as áreas do genoma do A. fumigatus em que há essa mutação, que causa a resistência a antifúngicos, poderemos oferecer tratamentos mais eficientes doenças causadas por eles”, finaliza.

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