Caminhos da escravidão e da liberdade

icone resenha

 


A Grã-Bretanha é repleta de aficionados por trens, não sem razão. A era vitoriana foi marcada por uma expansão sem precedentes das ferrovias por todo o Reino Unido, trazendo mudanças significativas no cotidiano e nos estilos de vida das pessoas das mais diversas classes e grupos sociais. A malha ferroviária britânica alcançou desde importantes cidades portuárias, como Liverpool e Bristol, centros industriais famosos, a exemplo de Manchester, Leeds, Birmingham e Sheffield, passando por uma constelação de vilas e municípios menores que tiveram suas economias dinamizadas, experimentaram um significativo crescimento populacional e foram conectadas a áreas de lazer até então inexploradas. Os trens passaram a transportar uma quantidade inimaginável de pessoas e mercadorias através do país, integrando-o a Londres e a seu antigo sistema de metrô.

Os ingleses se orgulham tanto de seu pioneiro sistema ferroviário que construíram museus ou seções inteiras de museus dedicados aos trens. Como exemplos podemos citar o National Railway Museum, em York, e o Museum of Science & Industry, em Manchester. Nessas instituições, o gênio inventivo e empreendedor dos engenheiros e empresários são glorificados. Os mais diversos tipos de locomotivas e vagões são mostrados a um público (infantil e adulto) que se deleita em ver as maravilhas que essas máquinas fizeram desde o início do século XIX.

Os capitalistas britânicos expandiram esses investimentos para o mundo, inclusive para o Brasil, como mostram várias pesquisas sobre ferrovias em nosso país. Apesar de também contribuir para essa história, o livro de Robério Souza oferece ao leitor algo muito mais importante em meu entendimento. Trabalhadores dos trilhos refaz o percurso de milhares de operários dos mais diversos ofícios, cores, origens, nacionalidades e estatutos jurídicos que trabalharam nas obras de construção da Bahia and San Francisco Railway, a primeira ferrovia baiana, não por coincidência construída por uma companhia inglesa sob a proteção do Governo Imperial brasileiro.

O trabalho de Robério Souza ganha especial importância por revelar que é falsa a contradição entre uma modernidade representada pela ferrovia e a escravidão. Esse mito (algumas vezes reproduzido pela historiografia clássica) é desfeito com base em densa pesquisa histórica, analisada a partir da leitura atenta da história social em sua melhor tradição. O autor recorreu aos documentos da empresa (relatórios financeiros e técnicos, ofícios e correspondências trocadas com as representações consulares e as autoridades ministeriais e policiais brasileiras), assim como fez largo e proveitoso uso dos processos criminais e judiciais e dos relatórios da Presidência de Província.

Robério Souza demonstrou que entre 1858 e 1863, quando as obras de construção da ferrovia foram desenvolvidas, houve uma efetiva convivência de um enorme contingente de trabalhadores livres (brancos e negros) e libertos com os escravizados. Alguns cativos foram deliberada e conscientemente arregimentados pela empresa, enquanto outros eram fugitivos que buscavam colocação na companhia como forma de se misturar aos homens livres, passando-se por um deles. Além disso, a multidão operária era formada por brasileiros (geralmente discriminados pelos ingleses e submetidos a condições de trabalho mais precárias e degradantes) e estrangeiros, em sua maioria, italianos (contratados), enquanto o corpo de engenheiros, gerentes e supervisores compunha-se de cidadãos britânicos.

Em uma interpretação informada pela leitura da obra de E. P. Thompson, Robério sustenta que os operários italianos fizeram greves e alianças com os escravizados, e que esse consórcio entre os imigrantes e as senzalas só foi possível em razão das “experiências comuns de exploração” e das “ambiguidades e precariedade da liberdade” no Brasil do século XIX. Por todos esses méritos, Trabalhadores dos trilhos é obra de consulta obrigatória para aqueles que queiram percorrer os muitos e complexos caminhos que nos levam aos mundos do trabalho.

Aldrin Castellucci é professor titular de História do Brasil da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

Título: Trabalhadores dos trilhos — Imigrantes e nacionais livres, libertos e escravos na construção da primeira ferrovia baiana (1858-1863) Autor: Robério S. Souza Editora da Unicamp Páginas: 272 Preço: R$ 46,00 Área de interesse: História www.editoraunicamp.com.brServiço

Título: Trabalhadores dos trilhos — Imigrantes e nacionais livres, libertos e escravos na construção da primeira ferrovia baiana (1858-1863)
Autor: Robério S. Souza
Editora da Unicamp
Páginas:
272
Preço: R$ 46,00
Área de interesse: História
www.editoraunicamp.com.br