Grupo de pesquisa e ação preocupa-se com barragens hídricas de Pedreira e Sousas

O Grupo de Pesquisa e Ação em Conflitos, Riscos e Impactos Associados a Barragens (CRIAB) da Unicamp, após iniciar as atividades em 2019 direcionado ao rompimento da barragem de Brumadinho (MG), volta-se agora também à região de Campinas (SP). A partir do estreitamento de laços com o Fórum Popular da Natureza (FPN), o grupo vem fortalecendo a discussão acerca das barragens de Pedreira e de Sousas, a partir da criação do Núcleo PCJ, direcionado à Bacia Hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari, Jundiaí.

audiodescrição: fotografia colorida de auditório com pessoas assistindo à fala de talita, que está em  primeiro plano falando em microfone
Ocasião de lançamento do Núcleo PCJ; à frente, Talita Gantus

Diferente da barragem de Brumadinho, construída para armazenar rejeitos decorrentes de processos de mineração, as barragens Pedreira e Sousas são barragens hídricas. Talita Gantus de Oliveira, doutoranda do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e integrante do CRIAB, analisa que o grupo se preocupa não apenas com um possível rompimento, que seria catastrófico pela proximidade com a população, mas também com os transtornos psicossociais que a presença de uma barragem de grande magnitude pode trazer aos moradores que conviverão permanentemente com a iminência de um desastre. “O problema da barragem hídrica não é simplesmente romper, mas qualquer operação inadequada em uma barragem que armazena milhares de metros cúbicos de água pode inundar a cidade inteira junto com a população”, afirma.

No entanto, não só isso está em jogo. No caso da barragem Pedreira, a pesquisadora pontua que há um desnível em relação à população que seria abastecida pela água. “O estudo locacional para realização das obras foi elaborado em 2008, visando o aumento da disponibilidade hídrica à montante (acima) do ponto de captação de águas superficiais. Se você não coloca um sistema adutor, que é como se fosse uma bomba hidráulica para lançar a água da barragem para a população que está em cima, com um desnível de cerca de 200 metros, a água não chega. Se a água não chega para a população, qual a necessidade da barragem?”, questiona Talita.  

Já no caso de Sousas, o grupo indica que a barragem está na iminência de ser construída numa Área de Proteção Ambiental (APA), que protege parte dos remanescentes da vegetação nativa do município. A APA deixaria de existir para dar lugar ao barramento. Nesse processo, parte da mata que protege 2.474 nascentes seria derrubada. “Uma área menor de mata implica em uma recarga menor do aquífero, o que coloca as nascentes em situação de vulnerabilidade. Além disso, a APA abriga uma enorme biodiversidade de fauna e flora, são 250 espécies de aves, 68 de mamíferos, 45 de anfíbios e 40 de répteis.”

A integrante do FPN e doutoranda em Ecologia Aplicada na Universidade de São Paulo (USP), Isabela Kojin Peres, também indica que no debate sobre a água, é preciso se ter em conta todo o ciclo hidrológico, o que inclui a preservação das florestas. “Quando a gente pensa em água a gente precisa pensar no ciclo hidrológico, incluindo a relação da água com a floresta. Em Campinas nós temos apenas 2,6% de cobertura vegetal e parte da mata está nessa floresta que estão destruindo por interesse especulativo da terra. E essa lógica é o que também acontece no Brasil em nível macro”, diz. 

Para ela, é necessário ver a água não só como um recurso de abastecimento. Por isso, Isabela aponta que é necessária uma gestão integrada da água, já que, além dos impactos de risco, os grandes empreendimentos como as barragens trazem impactos socioambientais e ecológicos que muitas vezes não são levados em conta. 

audiodescrição: fotografia colorida da zona de mata atlântica de sousas
Região da Mata Atlântica de Sousas já foi impactada. Foto: APA Viva

Publicação aborda alternativas a barragens

Os conflitos s ocioambientais envolvidos em torno da construção de barragens hídricas foram tema de revista elaborada em parceria entre a_Ponte, organização não-governamental cujo foco se dá na mediação de conflitos provenientes da gestão do espaço e do manejo dos recursos naturais, e o FPN. A edição, lançada nesta segunda-feira (31), aborda temas como o direito à água, a insegurança hídrica e a importância das florestas urbanas, além de explicar o contexto por trás desses empreendimentos. “É preciso levar em conta que precisamos pensar alternativas ecologicamente equilibradas e sustentáveis, para o bem do planeta e das gerações futuras. Inúmeros cientistas ao redor do mundo alertam para as consequências das mudanças climáticas. As florestas contribuem para a captura de carbono e a regulação do microclima, tornando, inclusive, as cidades mais respiráveis”, acrescenta Talita. Acesse aqui

A discussão contempla alternativas sustentáveis em oposição às barragens que, para Isabela, poderiam focar-se em reflorestamento e em restauração, protegendo nascentes e matas ciliares. “Isso também aumentaria a quantidade de água disponível superficialmente e aumentaria a qualidade da água. Ainda se poderia investir em agrofloresta, em produção de alimentos associada a essa restauração, garantindo alimento e permanência de famílias agricultoras”, analisa.

As pesquisadoras destacam que tanto o CRIAB quanto o Núcleo PCJ e o Fórum Popular da Natureza são espaços coletivos, transdisciplinares e abertos à participação. Interessados em participar, podem entrar em contato com Talita através do e-mail tgantus@gmail.com

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audiodescrição: fotografia colorida de barragem em pedreira
Impactos de barragens envolvem mais que possível rompimento. Foto: APA Viva