Referenciando Lélia Gonzalez e convocando luta antirracista, Zezé Motta é aclamada em evento na Unicamp

Zezé Motta durante evento Unicamp Afro
Zezé Motta participou do evento “Minha pele, nossa história: retratos de luta e resistência da cultura afro-brasileira”

“Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo”, disse Zezé Motta na manhã da última quinta-feira (14), em evento que integrou a programação do Unicamp Afro, no Centro de Convenções da Universidade. Diante de um auditório lotado e com uma plateia atenta, ela contou que o chamado foi um dos ensinamentos dados por uma de suas grandes referências, a intelectual e ativista Lélia Gonzalez. "Não há tempo para lamúrias", afirmou, convocando a todos para resistir a cada tentativa de retrocesso e a cada caso de discriminação. 

A artista e ativista, no evento denominado “Minha pele, nossa história: retratos de luta e resistência da cultura afro-brasileira”, promovido pelo Grupo Gestor de Benefícios Sociais (GGBS), também abordou diversos aspectos de sua trajetória. Racismo, representatividade negra e horizontes de luta foram alguns dos temas levantados na fala, que contou com aplausos, comoção e admiração da plateia a todo momento. 

Abriram a programação da manhã o coordenador do GGBS, Airton Lourenço; a responsável pela área de serviço social do GGBS, Selma Silva Cesário; a diretora executiva de Direitos Humanos da Unicamp, Neri Barros de Almeida, e a professora da Faculdade de Educação e presidente da Comissão Assessora da Diversidade Racial, Débora Jeffrey. 

Mesa de abertura
Representantes da Diretoria Executiva de Direitos Humanos e do Grupo Gestor de Benefícios Sociais abriram evento

“A história do Brasil tem que ser reescrita”

Ao falar sobre a importância da luta antirracista, Zezé evidenciou que o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é uma das grandes conquistas do movimento negro, do qual ela fez parte desde os anos 1970. “É uma grande vitória porque, antes dessa conquista, se referiam a Zumbi como um baderneiro. Não era dada a ele a importância que ele teve para o país, que foi a luta pela liberdade, nem o status de herói, e sim de bandido. Então foi uma conquista porque hoje em dia o pessoal vê o Zumbi com outros olhos, conhece a história do Zumbi de outro ângulo, que é o ângulo verdadeiro, de um herói da liberdade”, afirmou. 

O fato de muitos municípios não terem adotado o 20 de novembro como feriado, no entanto, é criticado por Zezé, pois “passam por cima” da lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, que instituiu a data. 

Reescrever a história, através da arte e dos estudantes negros e indígenas que vêm aumentando a presença no ensino superior, é considerado um dos passos na batalha pelo reconhecimento. “Para que se faça justiça com o negro, com o índio, com os quilombolas, a história do Brasil tem que ser reescrita. Tá tudo errado, tudo invertido, tudo misturado, tudo ajeitadinho da maneira que interessa para eles”. 

Bate-papo com Zezé Motta
Auditório do Centro de Convivência lotou para ouvir Zezé Motta, em bate-papo mediado pela jornalista Maria Alice Cruz

 

“Temos muita luta ainda pela frente”

“O negro não incomoda quando ele não compete com o branco. O negro não incomoda, por exemplo, quando ele não tenta entrar na Unicamp”, observou Zezé, referenciando mais uma vez as reflexões de Lélia Gonzalez. A luta antirracista, assim, passa por enfrentar a visão de que negros só podem ocupar determinados espaços, enfrentando as limitações impostas pela discriminação. “A gente não pode se conformar com essa história de que ‘isso é impossível para mim’”. 

Após essa ponderação, a artista lembrou o início da sua trajetória profissional, abordando os obstáculos sofridos pelo fato de ser uma mulher negra. O primeiro episódio marcante, contou, aconteceu logo cedo, quando era adolescente. Uma vizinha perguntou por que andava sumida, e Zezé lhe contou que estava muito ocupada pois vinha ajudando a mãe no ateliê de costura, estudando contabilidade e fazendo curso de arte dramática. A vizinha, recorda, replicou: “eu não sabia que para fazer papel de empregada precisava fazer arte dramática”. Na época, a artista diz que não entendeu bem o comentário, mas a realidade do mercado de trabalho, quando se tornou profissional, a fez compreender o que significava.

Zezé Motta em evento na Unicamp
Para Zezé, o problema não era interpretar empregadas, mas o fato de que essas empregadas não tinham vida e viviam em função de outros personagens

“Eu fiz tantas empregadas domésticas que quando uma escola de samba me homenageou fez uma ala só de empregadas domésticas, cada uma com um uniforme diferente, de cada novela, de cada filme que fiz. Mas o problema não era fazer empregada, o que me incomodava é que a empregada doméstica não tinha pai, não tinha mãe, não tinha filho, não tinha marido, não tinha nada. Vivia ao redor dos outros personagens”, explica.

Para ela, era difícil ter feito um curso de artes cênicas, almejado por muitas pessoas, e ser reduzida a papéis secundários. “Eu fiz um curso que todo mundo que não tem recursos gostaria de fazer, que é o Tablado, e agora estou aqui abrindo porta, fechando porta, servindo cafezinho e dizendo ‘sim senhor, sim senhora, boa tarde, boa noite”, relembra. 

Outro caso recordado foi durante o anúncio dela como a atriz escolhida para interpretar Xica da Silva. “Saiu numa revista que quem tinha passado para fazer a personagem Xica da Silva tinha sido uma negra feia porém exuberante. E eu me olhava naquela foto e pensava ‘mas eu estou tão bonita’”. 

Outras reações racistas aconteceram quando ela interpretou um casal com Marcos Paulo na telenovela “Corpo a corpo”, em 1984. Na época, a emissora de televisão realizou uma pesquisa de opinião sobre o enredo e o casal sofreu grande rejeição. Alguns comentários chegaram a afirmar que o ator deveria lavar a boca com água sanitária após beijar Zezé.  

Apesar de todas as experiências dolorosas de preconceito, a artista diz que não tem mais tempo para sofrer. “Eu fui tomando consciência, lutando, e hoje em dia eu recebo cartas e e-mails de pessoas dizendo ‘eu não tinha esperança, mas vendo que você chegou lá, eu vejo que também posso chegar’. Isso me enche de orgulho, eu me sinto realizada, mas acho que meu trabalho ainda não terminou. Temos muita luta ainda pela frente”.

Enquanto houver racismo, é necessário combatê-lo

Zezé Motta em evento do Unicamp Afro
Zezé Motta, além de falar sobre resistência e luta contra o racismo, interpretou canções como "Postal de Amor", "Senhora Liberdade" e "Minha missão"

“Enquanto houver racismo, a gente tem que se encontrar, discutir, denunciar, dar cotovelada e tentar combatê-lo”, apontou Zezé, que foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNU). Reforçando a importância de se organizar, ela contou que, no início do MNU, parte da sociedade dizia que os militantes estavam criando uma “discriminação ao contrário”. “Quando o movimento negro surgiu, nos anos 1970, nós fomos acusados de estar importando um problema que não tínhamos no Brasil e que só existia nos Estados Unidos”. 

Outra diferença daquela época para hoje, para ela, é nas formas que o racismo se expressa. “Assim que eu passei a participar dessa luta, o racismo era uma coisa velada no país, ninguém se assumia como racista. Hoje em dia, com a tecnologia, com as redes sociais, o racismo deixou de ser velado. As pessoas podem falar abertamente, sem mostrar o rosto na maioria das vezes. Vejo com grande tristeza ter um presidente que compactua com isso”. 

A arte enquanto instrumento de luta também foi lembrada por Zezé como um mecanismo importante, que não por acaso vem tendo importantes organismos de fomento desmontados. 

“Sempre foi difícil fazer arte no Brasil, mas agora está muito pior e é lamentável. Um país sem educação, sem arte, não pode ser considerado uma nação. Então estamos num momento crítico e temos que resistir e lutar, ter esperanças, orar. Mas principalmente não desistir da luta, ser perseverante”.

Ao fim da sua fala, Zezé convidou a todos para cantar as músicas “Senhora Liberdade” e “Minha Missão”. A primeira, um samba de Nei Lopes e Wilson Moreira, possui um significado importante, já que foi cantada durante a ditadura militar, para amigos que estavam exilados, e no mesmo período durante a campanha pelas eleições diretas. “Ultimamente eu tenho convocado o público a cantar comigo essa música para que a gente atravesse esse movimento tão difícil que o Brasil está passando e que, na verdade, é um fenômeno mundial. Sempre convoco o público cantar em forma de oração para que nos liberte desse momento que parece, infelizmente, de retrocesso”. 

Já “Minha Missão”, escrita por João Nogueira, foi oferecida em homenagem a todas as pessoas empenhadas na luta contra o racismo. Os versos de luta e de esperança ecoaram pela plateia e finalizaram o bate-papo.

Canto para anunciar o dia

Canto para amenizar a noite

Canto pra denunciar o açoite

Canto também contra a tirania

Canto porque numa melodia

Acendo no coração do povo

A esperança de um mundo novo

E a luta para se viver em paz!

A programação, após a fala de Zezé, seguiu com a apresentação cultural do Núcleo Cupinzeiro de Samba. 

Núcleo Cupinzeiro de Samba
Núcleo Cupinzeiro de Samba fechou evento

“Para não passar em branco”

Jornalista aposentada da Unicamp, Maria Alice Cruz
Jornalista aposentada da Unicamp, Maria Alice Cruz lançou vídeo intitulado "Para não passar em branco" e recebeu homenagem durante evento

O evento com Zezé Motta foi mediado pela jornalista aposentada da Unicamp, Maria Alice Cruz. Durante o evento, Maria Alice lançou documentário sobre a trajetória de negros e negras na Unicamp, chamado “Para não passar em branco”, em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) e o GGBS. A jornalista também recebeu uma homenagem pelo trabalho desenvolvido na Universidade. 

O vídeo, conta Maria Alice, foi inspirado na coluna “Para não passar em branco”, publicada no Jornal da Unicamp no ano de 2017, durante as discussões sobre o processo de cotas étnicorraciais. Colunistas que assinaram artigos no período foram convidados a dar seus depoimentos para o documentário, adaptando o conteúdo escrito ao formato audiovisual.

“A proposta é evidenciar a contribuição de personalidades negras na construção da história da Unicamp porque muitas vezes, até pelo número de docentes e estudantes, que era bem menor antes do sistema de cotas, a produção deles acabava não aparecendo tanto como a produção de outras pessoas”, afirma.  

Foram seis entrevistados para o vídeo: as docentes Lucilene Reginaldo e Débora Jeffrey, os funcionários Aparecida do Carmo e Maria Ester Januário e Carlos Roberto de Souza e a estudante Milena de Oliveira Santos. 

Assista:

Imagem de capa

Zezé Motta interpreta "Senhora Liberdade" durante evento do Unicamp Afro
Zezé Motta interpreta "Senhora Liberdade" durante evento do Unicamp Afro