Sobre balbúrdias, filosofia e universidades públicas

Se não com Paulo Freire, as autoridades poderiam aprender com Zeferino Vaz...

*Tereza Dib Zambon Atvars

Em 5 de julho de 1973 um jornal de ampla circulação nacional publicou um artigo com críticas à Universidade Estadual de Campinas, intitulado Unicamp: uma universidade conturbada. Esse título me remete às atuais críticas à universidade pública brasileira, 46 anos após essa publicação: recentes manifestações públicas de altos dirigentes do País classificaram as universidades públicas como instituições onde impera a balbúrdia.

Em relação ao artigo supracitado, o professor Zeferino Vaz, então reitor da Unicamp, homem de larga experiência acadêmica como docente pesquisador e como gestor, conhecido e respeitado pelas suas posições políticas conservadoras, remeteu uma carta ao editor-chefe respondendo a cada uma das críticas apresentadas.

Em abril de 1971, Zeferino Vaz concedeu entrevista à Revista Bosch do Brasil sob o título Ciência versus Humanismo: um falso debate. Feita a pergunta pelo entrevistador sobre o então “atual debate entre universidades humanistas e universidades científicas ou técnicas”, Zeferino Vaz respondeu: “É incompreensível que haja um debate colocando em posições antagônicas universidades humanistas e técnicas ou científicas, porque, ao meu ver, esse conceito é antiético – contraria frontalmente o conceito de universidade. No meu entender, universidade significa unidade na universalidade dos conhecimentos humanos, isto é, existe um denominador comum, um sentido direcional único, em todas as atividades humanas”. E finalizou: “As técnicas são subordinadas ao bem-estar do homem, e não o homem subordinado à técnica”.

É impressionante que 48 anos depois dessa resposta, altos dirigentes do País voltem ao tema, buscando reduzir a importância da educação humanística na formação dos alunos em todas as áreas do conhecimento e hierarquizar as áreas técnicas como sendo mais importantes do que as humanidades. Esse debate somente pode fazer sentido entre leigos ou entre pessoas pouco afeitas à área da educação e à complexidade dos problemas sociais, econômicos e tecnológicos do País.

Em outro discurso, proferido em 15 de maio de 1970, por ocasião da inauguração dos edifícios da Faculdade de Engenharia de Limeira, na presença do governador Roberto Costa de Abreu Sodré, Zeferino Vaz manifestou-se: “A Universidade Estadual de Campinas, pela palavra do seu reitor, rejubila-se pela oportunidade de externar ao público, com a autoridade de organismo científico e a objetividade de órgão apolítico (...)”. E mais adiante continuou: “Um velho educador, porém, lamenta dever registrar que a grande maioria dos que a proclamam (sobre as questões educacionais) tem do problema educacional compreensão superficial, apenas epidérmica. Limitam-se à catarse vocálica e repousam de consciência tranquila. (...) Raros, infelizmente raros, são os homens públicos que compreenderam profundamente, visceralmente, aquela verdade, assumiam-na como atitude de alma e passaram à ação construtiva, dedicando à educação, prioritariamente, inteligência para planejar e recursos abundantes para executar”. Novamente, nesses extratos de fala, manifestações da mais atual pertinência e relevância, em particular no que se refere aos profundos cortes de financiamento propostos pelo atual governo, como se a Educação fosse apenas mais simples uma atividade econômica.

E sobre a educação superior brasileira comentou Zeferino Vaz: “No que se refere às profissões clássicas, formam estas números insuficientes de profissionais de todas as categorias, para atendimento das necessidades presentes da nação. Há notória carência de médicos, engenheiros, agrônomos, veterinários, dentistas, farmacêuticos, bioquímicos, artistas, filósofos, literatos, matemáticos, físicos, biólogos, geólogos, mineralogistas, economistas, administradores, sociólogos e psicólogos”. Vejam que, de modo direto e objetivo, não se hierarquizam áreas do conhecimento ou do pensamento, dá-se a todas a importância devida, pois se completam e se complementam. E mais importante, compõem a universalidade que uma boa universidade deve conter.

E por que rememorar esses excertos de quase 50 anos atrás? Resposta simples: pela atualidade dos temas que abordam. E por que citar Zeferino Vaz, e não outros pensadores sobre a educação brasileira, como Paulo Freire, Anísio Teixeira e muitos outros? Porque fiz opção por trazer opiniões de alguém que não pode ser classificado simploriamente de “esquerdista”. Zeferino Vaz não foi um esquerdista, foi um conservador, idealizador de uma universidade pública que é hoje uma das melhores da América Latina. Uma universidade pública, gratuita e de qualidade, que responde por quase 10% da pesquisa acadêmica produzida no País, 12% da pós-graduação nacional e mantém a liderança entre as universidades brasileiras no que diz respeito a patentes e ao número de artigos per capita publicados anualmente em revistas indexadas na base de dados ISI/WoS. Uma universidade que continua reconhecendo a importância das diversas áreas do conhecimento, continua comprometida com a educação pública brasileira e tem a mais absoluta certeza de que sem uma educação de qualidade em todos os níveis não há futuro promissor para o Brasil.

Nós que atuamos comprometidos com o modelo plural de universidade, que respeita a liberdade de cátedra, não podemos aceitar o rótulo de universidade da balbúrdia e esperamos que as autoridades do País aprendam, se não com Paulo Freire, pelo menos com Zeferino Vaz, que o problema educacional brasileiro é enorme, complexo e exige profissionalismo e comprometimento na busca de soluções. E que nossos dirigentes substituam a “catarse vocálica” pela “atitude de alma e passem à ação construtiva, dedicando-se à educação, prioritariamente, inteligência para planejar e recursos abundantes para executar”. 

*VICE-REITORA E COORDENADORA-GERAL DA UNICAMP 

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O Estado de S.Paulo, Espaço Aberto, 13 de maio de 2019

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