Sistema de filtração aprimora produção de medicamento para transplantados

Tecnologia desenvolvida na Unicamp auxilia na obtenção de imunossupressores para tratamento de pessoas transplantadas

A fim de melhorar a produção de medicamentos para pessoas transplantadas, a pesquisadora da Unicamp, Alessandra Bertan desenvolveu um sistema de filtração inserido no processamento de purificação de tacrolimo, um fármaco inibidor do sistema imune, por meio de microfiltração em coluna pressurizada. O objetivo da tecnologia é aperfeiçoar a separação da biomassa, aglomerados de micropartículas constituídos basicamente de células inativas da bactéria Streptomyces tsukubaensis, produzida durante a fermentação para a produção do tacrolimo.

Alessandra é natural do Paraná e realizou parte do mestrado à distância durante a pandemia. Apesar das dificuldades para concluir a pesquisa em isolamento, o sistema de filtração desenvolvido por ela é inovador, com forte compromisso social. A tecnologia despertou a atenção da Agência de Inovação Inova Unicamp, responsável pela gestão e prospecção do Portfólio de Tecnologias da Universidade, e o invento foi protegido. "O sistema de filtração, próprio para a indústria farmacêutica, melhora uma parte importante do processo produtivo. Com ele, conseguimos reter até 97 % da biomassa, facilitando etapas posteriores de purificação do tacrolimo”, conta a pesquisadora.

Segundo dados do Ministério da Saúde, 25 mil pessoas passaram por procedimentos de enxertos de órgãos em 2020 e 2021 e outras 50 mil estão na fila de espera. O tacrolimo é o medicamento mais indicado para a terapia do tratamento de transplantes de rim, fígado e pâncreas. Ele diminui a ocorrência e a gravidade de episódios de rejeição, além de ser recomendado para outras doenças, como artrite reumatoide, asma e vitiligo.

Câmara única

O sistema de filtração consiste em uma câmara única, na qual o caldo proveniente da fermentação via bactéria Streptomyces tsukubaensis é pressurizado. Há uma membrana destinada à microfiltração de biomassa, resultante, também, do processo fermentativo.

Um diferencial do projeto é a configuração do filtro e da membrana filtrante, que apresentam poros menores do que os tradicionais - cerca de 100 vezes menores do que um grão de areia -, e trabalham sob pressão, sem a dependência de uma câmara externa de pressurização. “A tecnologia desenvolvida na Unicamp reúne, no próprio filtro, a câmara pressurizada. Com isso, eliminamos uma etapa do processo, gerando economia de energia e redução de custos”, afirma Marco Aurélio Cremasco, professor da Faculdade de Engenharia Química (FEQ/Unicamp), orientador de Alessandra.

O professor Marco Aurélio Cremasco e Alessandra Suzin Bertan. Foto: Pedro Amatuzzi
O professor Marco Aurélio Cremasco e Alessandra Suzin Bertan. Foto: Pedro Amatuzzi

Os trabalhos de engenharia de processos para o desenvolvimento de uma tecnologia própria de produção de imunossupressores foram iniciados há quase uma década pelo grupo coordenado pelo docente. Primeiramente, os pesquisadores dominaram a técnica de fermentação para a obtenção do tacrolimo. Em seguida, identificaram etapas do processo a serem aprimoradas, pensando na produção de matéria-prima mais apropriada ao processamento do fármaco. “Não adianta pensarmos no desenvolvimento de novos produtos sem novos processos. Esse é um dos atrativos em engenharia de processos. O trabalho da Alessandra mostrou que o caminho pode ser melhorado a partir da microfiltração e remoção de biomassa. É uma tecnologia confiável e replicável que abre novas possibilidades para a área”, disse Cremasco.

O estudo de caso foi realizado com o tacrolimo, mas, segundo a equipe, o filtro pode ser aplicado na produção de outros imunossupressores ou fármacos que apresentem desafios tecnológicos semelhantes: baixo rendimento do processo e purificação complexa. Para a implantação na indústria, são necessárias adaptações e testes de aumento de escala. “Dominamos a ideia, mas não seria possível escalar a produção em laboratório. Para isso precisamos de investimentos e parcerias”, explica Cremasco. A Agência de Inovação Inova Unicamp é a instituição responsável por intermediar as negociações com empresas para contratos de parcerias e transferência de tecnologia. “Temos um compromisso com a sociedade enquanto pesquisadores. Por isso, nosso plano é continuar com as pesquisas. Acreditamos que essa tecnologia ajudará a melhorar a vida de muitas pessoas, aumentando a esperança de acessibilidade e disponibilidade dos imunossupressores para quem precisa", finaliza Alessandra.

Esta reportagem foi publicada originalmente no site da Inova Unicamp

Imagem de capa JU-online

A tecnologia desenvolvida na Unicamp resultou na eliminação de uma etapa do processo de purificação, gerando economia de energia e redução de custos