Internacionalização ganha foco estratégico na Unicamp

Observação é da Avaliação Institucional 2014-2018, que também aponta desafios em relação ao período de pandemia e crise

audiodescrição: fotografia colorida de estudantes sentados em auditório; dois deles seguram uma bandeira do peru
Estudantes em recepção de alunos estrangeiros organizada pela Unicamp

Nos últimos anos, a internacionalização ganhou um foco estratégico para a Unicamp. A mobilidade de alunos, funcionários e docentes se intensificou e parcerias estratégicas foram firmadas. Com presença internacional forte principalmente nos eixos de pesquisa e pós-graduação, a Unicamp, assim como outras instituições de ensino, agora, tem desafios relativos a orçamento e à limitação da circulação de pessoas, imposta pela pandemia do novo coronavírus. Esses são alguns dos apontamentos da comissão externa que trabalhou na Avaliação Institucional da Universidade relativa ao período entre 2014 e 2018.

A marca da internacionalização na Unicamp vem desde sua criação, em 1966. A preocupação com o aspecto internacional se expressou já nos eixos de fundação, sendo uma das únicas universidades que teve essa preocupação desde sua concepção. Idealizador da Unicamp e reitor pelos primeiros 12 anos da recém criada universidade, o professor Zeferino Vaz contratou mais de 200 professores estrangeiros para atuarem na instituição, ainda na década de 1960, criando já um ambiente de trocas culturais. Desde então, principalmente com o avanço da globalização, a internacionalização vem sendo entendida cada vez mais como forma de qualificar a pesquisa, o ensino e a extensão.

Ciência se torna global

Para o professor do Instituto de Economia (IE) e Diretor Executivo de Relações Internacionais da Unicamp, Mariano Laplane, a internacionalização se tornou imperativa para as instituições ligadas à ciência pelo fato das sociedades se tornarem mais conectadas. Problemas de ordem global fazem que as conexões internacionais sejam necessárias.

“Estamos numa fase da humanidade em que enfrentamos problemas que são de todos. Mudanças climáticas, fenômenos extremos, desastres, gestão dos recursos naturais cada vez mais escassos, doenças que se espalham pelo planeta. A ciência se tornou global porque a sociedade se tornou global e a economia se tornou global - para bem e para mal. Se a universidade quer honrar seu compromisso de transmitir conhecimento à sociedade, precisa ser internacional. Isso não significa deixar de ser brasileira, mas precisa ser internacional”, reflete.

audiodescrição: fotografia colorida da professora Nancy Lopes
Pró-reitoria de Pós-graduação, Nancy Lopes: há problemas globais, que exigem visão internacionais, e problemas localizados

Na avaliação da pró-reitora de Pós-graduação da Unicamp, Nancy Lopes, restringir-se ao local pode também criar uma endogenia. Ou seja, pessoas da mesma instituição ou localidade permanecerem trabalhando ou estudando nessas mesmas localidades pode estreitar e enviesar a compreensão de problemas. “Esse é o grande ponto da internacionalização: ela é importante porque você oxigena a nossa pesquisa aqui trazendo novos temas, novas tecnologias e metodologias e você divulga o que se faz aqui”, aponta.

Publicações em cooperação também são importantes como forma de diversificar o olhar sobre as questões. No entanto, a pró-reitora destaca que há problemas que são de ordem local. Ela lembra, por exemplo, que já escreveu um artigo sobre variações da língua portuguesa e que recebeu críticas por não o escrever em inglês, o que não tinha coerência com o teor da pesquisa “Existem problemas que são muito locais ao Brasil, existem áreas onde é importante que se estude problemas locais, e aí mirar em periódicos internacionais, não vai atingir o público que deve ser atingido”, diz.

O desafio do idioma

Professor desde 1985 na Unicamp, o diretor da Diretoria Executiva de Relações Internacionais (DERI) é um exemplo de como o ensino na Unicamp chama atenção dos países vizinhos. Mariano é natural da Argentina e, além de trabalhar em assuntos de relações internacionais, tem sua trajetória marcada por uma formação em diversos países. Com graduação em Israel, mestrado nos Estados Unidos e doutorado no Brasil, o docente lembra muito bem de como ficou interessado no país.

Durante a infância, recorda, ouvia rádios brasileiras durante as siestas argentinas, período de descanso entre o horário do almoço e um período da tarde existente principalmente nas regiões mais quentes. A música o ligou, através do interesse pela cultura, ao país. Anos depois, Mariano veio fazer doutorado em Economia na Unicamp. Ainda tinha planos de voltar à Argentina, mas acabou apaixonando-se pela proposta do Instituto de Economia, assim como pela Unicamp e pelo Brasil e permaneceu. “E eu nunca havia imaginado que eu ia viver grande parte da minha vida aqui e aprender português”, conta. 

Assim como Mariano, diversos estudantes latino-americanos se interessam pela Unicamp e pelo país. Colombianos, equatorianos e peruanos foram as nacionalidades que mais estavam matriculados como alunos em 2018, último da avaliação institucional divulgada recentemente. Nesse mesmo ano, 320 estudantes de graduação estrangeiros e 979 de pós-graduação tinha matrícula na Universidade. A barreira do idioma é mais sutil para os países vizinhos, e a reconhecida pós-graduação da Unicamp acaba atraindo mais os estudantes dessas localidades. É possível notar, no entanto, que chineses e franceses também formam um público expressivo. Mas, como lembram também os avaliadores da comissão externa, no geral há uma barreira mais difícil em relação ao idioma, já que as disciplinas dos cursos são majoritariamente em português.

“O ensino em português não atrai alunos não falantes. Por isso começamos a estimular o ensino de língua estrangeira. Isso também a comissão de avaliação detectou como positivo, mas que precisávamos avançar. Nosso principal desafio é a língua. Se queremos abrir as portas e integrar temos que massificar o uso de uma segunda língua na universidade. Multiplicar as alternativas para que alunos que não falam inglês aprendam. Ou espanhol, francês, italiano...”, diz Mariano. 

audiodescrição: fotografia colorida do professor Mariano Laplane
Diretor de Relações Internacionais da Unicamp, Mariano Laplane aponta que barreira do idioma é um dos entraves quando se pensa em atrair estudantes de outros países

Atualmente, alguns programas de pós-graduação possuem disciplinas ministradas em inglês e um programa, o de Bioenergia, possui seu programa todo em inglês. Mas, na avaliação da pró-reitora de Pós-graduação, Nancy Lopes, para que essa estratégia se fortaleça, é preciso investir no fortalecimento do aprendizado em uma segunda língua para os alunos da Unicamp. 

‘“Precisamos investir para que esse aluno de pós-graduação, quando saia da pós, seja proficiente pelo menos em uma língua. A maior parte da nossa internacionalização é feita do Brasil para fora. Um gargalo disso é que nossas disciplinas quase todas são ministradas em português, então para um programa que queira atrair alunos de fora, é preciso ter mais disciplinas em inglês”, avalia a pró-reitora. 

Para ela, a Unicamp vem avançando nesse ponto. “Muitas unidades têm disciplinas eletivas, disciplinas de verão aproveitando professores visitantes de fora. Esse é um processo de construção”, frisa. Há um esforço, segundo Nancy, por exemplo, de colocar as disciplinas que são ofertadas em inglês neste idioma no catálogo de cursos, o que não era feito antes. Assim, estudantes estrangeiros podem visualizar melhor essa oferta. Concursos em inglês, para atrair professores de outros países, também já são uma possibilidade. 

Redes de cooperação e fomento

O período da avaliação institucional compreendeu ainda alguns anos do Ciência Sem Fronteiras, extinto em 2015. O programa representava um grande aporte de recursos que levou a internacionalização a um patamar destacado nas instituições de ensino brasileiras. Para o diretor da DERI, isso se refletiu no Planes 2016-2020 da Unicamp, que incluiu a internacionalização como uma das linhas de desenvolvimento da Universidade e em função disso colocou recursos para mobilidade de professores, alunos e de funcionários.

Atualmente, dentre os programas de internacionalização aos quais a Unicamp se vincula estão o Programa Institucional de Internacionalização (Print), a rede Santander e a rede da Associação de Universidades Grupo Montevideo (AUGM). 

Pela AUGM, da qual Unicamp participa desde sua criação, e 1991, fomenta-se a mobilidade entre universidades da América Latina, fortalecendo um espaço de integração acadêmica regional. Mariano pontua que há um esforço da Unicamp por dar visibilidade às bolsas oferecidas por essa rede, já que muitas vezes estudantes voltam-se aos países do Norte Global e desconhecem as oportunidades de estudar na América Latina.

“Apesar da proximidade a gente se conhece muito pouco. Nós temos através dessas redes bolsas que os alunos podem fazer a mobilidade. Temos muito que gostariam de ir para Espanha, Itália, Portugal, mas os recursos são escassos. Mas por que não ir ao México, ao Peru, que tem as universidades mais antigas das américas? Fizemos um esforço grande para que alunos descobrissem”, ressalta, mencionando também a Feira Latino-Americana de 2019, realizada com esse objetivo.

audiodescrição: fotografia colorida mostra banquinhas de diversos países latino-americanos na unicamp
Feira Latino-Americana buscou expor para estudantes da Unicamp oportunidades de estudar nos países vizinhos

O Print, programa da Capes, é voltado à pós-graduação e tem majoritariamente países do Norte Global como prioridade. Entre seus objetivos está a formação de redes de pesquisas internacionais com a intenção de aprimorar a qualidade da produção acadêmica. O Print financia doutorandos, pós-doutorandos e docentes para missões no exterior e bolsas sanduíche, aloca recursos para professores visitantes e concede outros tipos de bolsa, como de pós-doutorado. Já pela rede do Santander, são enviados cerca de 200 alunos de graduação por ano para mobilidade internacional. Editais para parcerias estratégicas também são contemplados.

Além destes programas e redes, destaca-se também o fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), órgão que destina recursos a pesquisas feitas de forma colaborativa. Outras iniciativas referem-se a acordos diretamente com universidades estrangeiras e a iniciativas como a Cátedra Sérgio Vieira de Melo que, entre diversas ações de ensino, pesquisa e extensão, inclui estudantes em situação de refúgio na Unicamp.

Desafios

Se internacionalização avançou nos últimos anos, é evidente que a pandemia trouxe prejuízos, seja pela restrição da circulação de pessoas, seja por agravamento de questões orçamentárias. Para responder aos desafios, os membros da comissão de avaliação externa indicam algumas estratégias que podem ser pensadas. 

Com a migração para o ensino remoto, uma das possibilidades levantadas é a oferta de disciplinas em conjunto com outras universidades. Essa modalidade já existe em algumas áreas na Unicamp, como na Engenharia Mecânica, onde há disciplinas compartilhadas com universidades japonesas. Mas a ideia, segundo o diretor da DERI, é que isso possa ser ampliado.

“Precisamos encontrar uma maneira que tenham algum tipo de experiência internacional educativa e formativa, nem que seja sem sair de casa. Isso pode ser feito trazendo mais próximo do aluno de graduação a vivência e experiência do que é estudar em outra universidade estrangeira. Nem que seja assistindo aulas virtualmente, cursando disciplina onde há alunos de outros países. Tem várias maneiras de fazer isso, já vínhamos estudando opções na Unicamp e isso se torna urgente”, conclui.

A chamada "internacionalização em casa", que envolve estratégias como a oferta de disciplinas em cooperação com outras universidades; oferta de cursos abertos a matrículas de alunos estrangeiros, com proposta pedagógica que faça com que os estudantes interajam, é um dos caminhos. Não irá substituir a experiência cultural de conhecer outro país e outras culturas, como apontam tanto Mariano como Nancy. No entanto, se apresenta como forma de massificar algum tipo de experiência internacional aos estudantes.

Avaliação institucional

O relatório de Avaliação Institucional 2014-2018 foi divulgado em setembro. No processo de avaliação, uma equipe de profissionais externos à Universidade se debruçou sobre os pontos fortes e fracos da instituição, indicando também recomendações. Dentre os eixos destacados estão: as pesquisas modernas e inovadoras, a inclusão social e étnico-racial e o fortalecimento da internacionalização, que são temas dessa série de matérias em torno da avaliação. Confira as primeiras reportagens:

Pesquisas modernas, inovadoras e orientadas são eixos que proporcionam destaque à Unicamp

Inclusão social e étnico-racial na Unicamp avança nos últimos anos

Imagem de capa JU-online

audiodescrição: fotomontagem com estudantes de diversas etnias e nacionalidades