Professor da Sociologia é finalista do Jabuti com livro de contos

Mário Medeiros, que já teve obra com sua tese de doutorado indicada na categoria Ciências Humanas, estreia agora na ficção, com Gosto de Amora

Gosto de Amora, livro de contos indicado como finalista da 62ª edição do Prêmio Jabuti, marca a estreia na ficção do professor Mário Augusto Medeiros da Silva, do Departamento de Sociologia da Unicamp. Lançado em novembro de 2019 pela editora Malê, o livro está dividido em duas partes: uma em que os narradores ou situações envolvem personagens infantojuvenis (História de Meninos) e a outra em que os narradores e narrativas estão mais vinculados a um universo adulto (Homem em Janeiro). “Todos os quinze contos se passam em ambientes urbanos, de cidade grande. Os personagens são majoritariamente negros – mas não exclusivamente – e permeados por suas memórias acerca de diferentes situações”, afirma o autor.

Mário Medeiros
Mário Medeiros : sempre gostou de ler e escrever ficção e também, sempre gostou de ser pesquisador, mas as duas preferências não devem se misturar

Mário Medeiros defendeu em 2011 sua tese de doutorado que virou o livro homônimo A descoberta do insólito: literatura negra e literatura marginal-periférica no Brasil (1960-2000). Por esta obra, o professor recebeu em 2013 o Prêmio para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) e, em 2014, foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas. “A tese tratou de escritores autoidentificados negros na história literária recente, que se vinculavam ou não a uma ideia de literatura negra. E também dos escritores que se identificavam mais contemporaneamente com as ideias de literatura marginal, literatura periférica. Foram analisados no trabalho a trajetória, obras e interlocuções de Carolina Maria de Jesus, Oswaldo de Camargo, coletivo Quilombhoje/Cadernos Negros, Paulo Linas, Ferréz, Sérgio Vaz, Allan da Rosa, entre outros.”

Medeiros sempre gostou de ler e escrever ficção, especialmente romances, contos, teatro e quadrinhos. Também, sempre gostou de ser pesquisador, como sociólogo, mas para ele as duas preferências não devem se misturar. “Obviamente, o leitor de ficção é o ponto de partida de tudo, já que leio literatura desde a infância e cresci numa família de leitores. Mas os meus interesses de investigação em sociologia vieram depois e têm um caminho autônomo, em campos separados, que eu me esforço para que permaneçam assim. Em 2017, decidi reunir um conjunto de contos que estavam na gaveta e concorrer ao Prêmio Sesc de Literatura daquele ano. E fui surpreendido por ter ficado entre os finalistas, com os contos reunidos em torno do título Homem em Janeiro, que acabou se tornando parte deste livro de agora.”

O professor da Unicamp é negro, mas adianta que não há nada de autobiográfico em Gosto de Amora, finalista do Jabuti. “É um livro de contos, ficcionais, de invenção. Como todo escritor, é possível que tenha utilizado aqui ou acolá aspectos de algo que eu tenha vivido ou conhecido, que muitas vezes são experiências coletivas, de pessoas negras ou não, em certos tempos e espaços, numa certa extração de classe social. O leitor não precisa saber quem eu sou para ler os contos do livro. E se souber, não vai me encontrar lá. O que é ótimo: o livro segue sozinho.”

Da mesma maneira, segundo o autor, as tramas dos contos diferem das mais frequentes sobre o negro marginalizado, que resiste à violência e ao preconceito racial, tendo como bandeira a busca por justiça social. “Meu livro não é uma obra sociológica, é uma obra de ficção, escrita na forma de contos, que possuem características específicas dentro da forma conto. E neste registro eles tratam da dimensão humana de ser/estar negro no mundo, daquilo que eu consigo fabular enquanto autor. Portanto, nisso está um universo grande de temas, que vão além da violência, marginalidade ou preconceito que fazem parte também, infelizmente, da experiência negra e humana. Mas além deles há memórias, afetos, relações familiares, política, humores etc. Então foi isso que quis fabular.”

O livro está dividido em duas partes: narradores ou situações envolvem personagens infantojuvenis (História de Meninos) e a outra em que os narradores e narrativas estão mais vinculados a um universo adulto (Homem em Janeiro)
O livro está dividido em duas partes: narradores ou situações envolvem personagens infantojuvenis (História de Meninos) e a outra em que os narradores e narrativas estão mais vinculados a um universo adulto (Homem em Janeiro)

Mário Medeiros acrescenta que o livro traz muitos personagens em situações variadas, mas unidos por uma peculiaridade: a de não não serem nomeados, em sua maioria. “Não gosto de dar nomes aos personagens, as narrativas são majoritariamente em primeira pessoa, fragmentadas e sem diálogos. Nisto, há histórias que se passam em arquibancadas de futebol, fábricas de bairro, cinemas pornôs, em metrôs, ambientes escolares ou caminhando por cidades nacionais e estrangeiras. Ou, no mais das vezes, tão somente no 'fluxo de consciência' da personagem que narra, portanto em seus dramas e conflitos internos, em que o leitor está na 'cabeça' da personagem. Não apontam soluções para resistência. Não tenho esta pretensão como escritor. Creio que viver é lutar e resistir, por princípio. E viver como um negro, no Brasil, é resistir acima de tudo e de todos.”

Neste aspecto, o sociólogo foi um dos docentes mais ativos no desenho do programa de cotas da Unicamp, aprovado pelo Conselho Universitário em 2017 e implantado no Vestibular de 2019. “Ser ativo academicamente é o trabalho e dever de todo professor e pesquisador, eu acho. Eu me envolvi junto com outros colegas e especialmente os estudantes nos processo políticos que se iniciaram em 2014 (ano em que comecei a lecionar na Unicamp) e culminaram com a implementação de ações afirmativas na pós-graduação do IFCH, em 2015. Posteriormente, com a grande greve de 2016, as audiências públicas sobre cotas, o Paais e ações afirmativas; a aprovação do Relatório do GT Cotas (do qual também fiz parte) no Consu; as bancas de heteroidentificação ao longo de 2019 e no Vestibular. Eu participei com muitos outros nesses processos recentes. Fui apenas mais um a somar em algo que achava importante ser feito.”

Para adquirir o livro

Os vencedores das 20 categorias do 62º Prêmio Jabuti serão divulgados em cerimônia online no dia 26 de novembro de 2020. Mário Medeiros esclarece que publicou o conto na revista Lavoura em junho de 2019, o que chamou a atenção da Editora Malê e resultou na publicação do livro de contos em novembro do mesmo ano.

O livro físico e o e-book podem ser adquiridos em Editora Malê.

Leia um trecho do conto na Revista Lavoura

 


 

Imagem de capa JU-online

Capa do livro finalista do Prêmio Jabuti