De volta às pornochanchadas

Obra resgata a importância da Boca do Lixo no cinema nacional

O cinema nacional está em alta, participando de festivais em Lisboa, Berlim e Rotterdam. Nem sempre, contudo, o reconhecimento acompanha a importância das manifestações culturais. Esse foi o caso da Boca do Lixo, polo fundamental para o desenvolvimento da sétima arte no Brasil, com forte expansão no final dos anos 60 e início dos 70. Nascida onde hoje é a “Cracolândia”, na Rua do Triunfo, a Boca lançou nomes como Antonio Fagundes, Tony Ramos e Vera Fischer. Entre seus “clássicos” estão Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), de José Mojica Marins, e O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla.

Felizmente, as contribuições, as principais fases e as grandes marcas do movimento não cairão no esquecimento. Resgatadas pelo pesquisador e cineasta Nuno Cesar Abreu (1948-2016), elas podem ser conhecidas pelo livro Boca do Lixo: Cinema e classes populares (Editora da Unicamp, 2a edição, 2015). Nele, o autor levanta sua história e sua filmografia, além de entrevistar 16 profissionais que integraram suas manifestações.

 Nesse contexto, é importante lembrar que o movimento da Boca do Lixo foi impulsionado por medidas, aplicadas pelo governo militar, que buscavam substituir as importações. Entre elas estava o aumento da obrigatoriedade de exibição do filme brasileiro na década de 70. Em 1979, por exemplo, a reserva de mercado para as produções nacionais compreendia mais de 30% dos dias do ano.

Ao resgatar e reconstruir essa história, Abreu descreve os três períodos pelos quais a Rua do Triunfo passou. O primeiro deles (1970-1975) marca o surgimento da Boca do Lixo, quando aqueles profissionais produziam cinema sem qualquer organização ou burocracia. É nesse período que devemos situar, por exemplo, a rápida carreira de Alfredo Sternheim. Após atuar como diretor assistente em A ilha (1963), de Walter Hugo Khouri, ele chegou a assinar sete filmes como diretor, apenas nos anos 70: “Eu fui pra Boca do Lixo porque meu projeto de vida era fazer cinema, e era lá que se fazia. Era lá que estavam os seus produtores”, conta (p. 48).

É nessa primeira fase que certas características da produção começaram a tomar forma, como a inspiração em formatos de filmes estrangeiros já bem conhecidos – comédias italianas e westerns americanos, por exemplo. A fórmula realização rápida + baixo custo + erotismo também passou a ser largamente reproduzida, com projeções atraindo grandes públicos e geração de um lucro razoável. Um diretor, então, já produzia um filme com o lucro obtido pelo anterior, e assim sucessivamente. Essa possibilidade resultou na produção em escala industrial de filmes made in Boca, organizados a partir de elos entre produção, distribuição e exibição.

Todos esses fatores ajudaram a situar aquele endereço no mapa cinematográfico nacional. Porém, a rápida perda da brasilidade nos enredos acabou se tornando um ponto negativo. Isso porque, inicialmente, havia uma mescla de fórmulas americanas com tipos nacionais, como o caboclo e o sertanejo, dando origem ao que se chamava de “western feijoada” e aos dramas sertanejos. No entanto, quando o ritmo dos lançamentos aumentou, a inserção de ícones nacionais diminuiu e os filmes passaram a ser “cópias malfeitas” do cinema de outros países.

No segundo período do movimento (1976-1982), uma série de mudanças pôde ser identificada. A produção se hierarquizou, alguns produtores ganharam visibilidade e os temas se tornaram mais variados e criativos. Apesar das modificações, certas marcas do chamado “padrão Boca de produção” (p. 101) permaneceram. “Um título apelativo que muitas vezes não tem nada a ver com a trama do filme; um plot inspirado em algum filme, livro ou assunto que traz alguma polêmica; a produção em associação com distribuidores e a filmagem em tempo recorde” (p. 99) continuaram, mas as relações de produção e os temas estavam mais organizados.

Contudo, no começo da década de 80 começaram a surgir alguns problemas: a época do erótico estava passando e a fórmula realização rápida + baixo custo + erotismo já não agradava ao público, que se tornara mais exigente. Assim, o movimento entrou no que o autor descreve como a sua “agonia” (p. 121).

Vários fatores colaboraram para o declínio da Rua do Triunfo. Eles estão relacionados à situação econômica (nacional e mundial) e à mudança no gosto popular. De fato, o fim do prêmio adicional de bilheteria – disponibilizado pelo governo militar para as produções nacionais –, o esgotamento do tema da pornochanchada, as pressões americanas para o término das políticas protecionistas, a mudança das salas de cinema de rua para os shoppings centers e, por fim, a chegada dos filmes de sexo explícito nas telonas acabaram com a produção da Boca do Lixo.

 A entrada brusca do hard core no Brasil – unida à censura do governo militar, que atrasou o contato dos brasileiros com mudanças no cenário cinematográfico internacional – não deu chance para que as produtoras do centro de São Paulo acompanhassem o mercado estrangeiro. Ainda assim, chegaram a sair alguns filmes de sexo explícito, mas com atraso. Estes foram, pois, “os últimos produtos da Rua do Triunfo, agora uma rua qualquer do Bairro da Luz” (p. 137).

Como reforça Abreu, a Boca do Lixo institucionalizou o cinema nacional. Citando a Embrafilme e o contraste de sua produção subsidiada com o capital privado do movimento paulista, o pesquisador destaca o público popular alcançado por esse último. Dessa maneira, aquela produção estigmatizada pelas elites brasileiras ofereceu um cinema popular que se tornou competitivo nas telonas e atingiu grande bilheteria. Assim, quem assistia a esses filmes encontrava uma mistura catártica de exaltações e descobertas sobre o sexo despertadas pelas revoluções sexuais dos anos 60 e 70.

Todavia, é preciso fazer três ressalvas sobre a pornochanchada. A primeira é que suas produções não tinham nada de pornô. Digamos que elas eram comédias eróticas. A segunda diz respeito ao conjunto da produção da Boca do Lixo, que não pode ser englobado por esse único gênero. Por fim, lembramos que, conforme Abreu observa e não é difícil supor, essas pornochanchadas eram machistas. De fato, testemunhos de atrizes e outros profissionais da área confirmam que tais filmes eram voltados para o público masculino e sexualizavam o corpo feminino, mantendo o homem em posição de poder.

Enfim, a Boca do Lixo não foi aclamada pela crítica nem pela classe intelectual brasileira, mas conseguiu ampliar o universo de produtores de cinema e de seu público, além de impulsionar a carreira de muitos atores. A inclusão das entrevistas no livro aproxima o leitor do deboche e da informalidade daqueles filmes. Redigido de modo claro e didático, Boca do lixo resgata e comprova a importância desse movimento para o nosso cinema que, como escreve o autor, “sonhou ser a nossa Hollywood” (p. 22).

 

ReproduçãoSERVIÇO

Boca do Lixo-Cinema e classes populares

Autor: Nuno Cesar Abreu

ISBN: 978-85-268-1305-2

Edição: 

Ano: 2015

Páginas: 224

Dimensões: 16 x 23 cm

Preço: R$ 50,00

 

 

 

Imagem de capa JU-online

Cena do filme “O bandido da luz vermelha”, de Rogério Sganzerla | Reprodução