A comunicação da universidade e as cantinas

Às vésperas de completar um ano de atividades remotas cheias de reuniões, aulas e eventos virtuais, uma retrospectiva é necessária. Não é um balanço com números, que, sem o “grupo de controle das atividades presenciais”, tendem a ser positivos em onze de cada dez análises rapidamente apresentadas. Nada contra o espaço virtual, afinal, graças a ele, você está lendo este texto. Aliás, isso já era possível bem antes desse nosso isolamento, que já dura um ano, mas começou bem antes de certa forma.

O cenário hoje é de um número crescente de atividades virtuais, que precisam (e querem) ser divulgadas, lotando páginas e portais pela internet e, portanto, sumindo no meio deles. Instaura-se então a disputa pelo destaque, que, ao ser dado a todos que o solicitam, leva-nos simplesmente ao estágio anterior. A isso, soma-se a infindável lista de e-mails[I]. Pode-se, então, perfeitamente estender ao cotidiano da universidade o conceito de infodemia, o excesso de informação, que se tornou popular nos debates relativos à Covid-19. O “estou na rede, logo existo” passou a ser acompanhado do “só se eu bombo na rede eu existo”. Há não muito tempo atrás, na universidade, “bombar” não era um valor tão proeminente, pois não significa necessariamente melhor comunicação com a sociedade. Pensando nisso, lembrei-me de um dos grandes pequenos momentos da minha vida estudantil na Unicamp: um concerto improvisado do Elomar no departamento de Música, que naqueles idos de 1980 estava ainda provisoriamente instalado ainda mais distante do meu então território, o Instituto de Física.  Mesmo assim, sem divulgação numa agenda de eventos nas redes que não existiam, cheguei a tempo de me sentar na sala, todos sentados no chão e apenas Elomar numa cadeira, acompanhado de seu violão. Mas num mundo analógico, como eu e um amigo ficamos sabendo do evento, estando do outro lado do campus? Tomando café em uma cantina, local onde diferentes tribos acadêmicas se encontravam e trocavam ideias e informações.

As cantinas de então já não existem mais pelo campus, algumas poucas que continuam, acertada a documentação necessária, são lotadas na hora do almoço, mas as intensas trocas presenciais durante os cafezinhos no meio da manhã ou da tarde parecem ter desaparecido, substituídas pelas máquinas de café expresso nos departamentos, grupos ou até mesmo em gabinetes individuais de docentes. Nesse movimento, anterior ao ato de tomar um café isolado em casa devido à pandemia enquanto escrevo, pode ser que a eficiência cresça, mas a diversidade e o contato diminuem. Como nos congressos, que no formato virtual são mais baratos e acessíveis a um público maios, mas cadê os intervalos para o café, conhecidos como coffee breaks? É durante esses intervalos que se estabelecem contatos e futuras colaborações, inclusive entre os temas mais distantes. As palestras são os guias para o coffee break, a atividade mais importante dos eventos.

As cantinas de universidades e os coffee breaks de congressos têm sua origem com a própria ciência moderna nos idos do século XVII, quando, na Inglaterra, além da Royal Society[II], surgiram as primeiras casas de café (coffee houses) inglesas, por acaso, ou não, em torno de universidades.  A primeira surgiu em Oxford em 1650, que não existe mais, mas a segunda, de 1654, a Queen´s lane coffee house, funciona até hoje[III]. E depois se espalharam por Londres e outra cidades. No blog The Renaissance Mathematicus[IV] é possível encontrar um resumo dessa história, que pode ser corroborada em detalhes no The Social Life of Coffee – the emergence of the British coffee house[V] de Brian Cowan.

Nessas casas de café encontravam-se as mais diversas tribos, entre elas a dos “virtuosos” em torno de Christopher Wren, importante promotor da chamada República das Letras[VI], e outros membros da Royal Society para discutir a ciência naqueles seus primórdios. A República das Letras era a rede virtual da época (cartas), mas, que, pelo jeito, precisava do café presencial também. Foi em um café londrino que Wren, Robert Hooke e Edmond Halley tiveram uma famosa discussão preliminar sobre a relação entre as órbitas elíticas dos planetas e a lei do inverso do quadrado da distância para a gravitação. Foi Isaac Newton quem, depois, tanto sovou a massa do bolo, quanto pôs a cereja no topo de sua monumental obra sobre os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Aliás, o próprio Newton, quando voltou a Londres, frequentava um desses cafés distribuindo manuscritos não publicados entre alguns fregueses escolhidos.

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Desenho de uma casa de café em Londres, 1690-1700 fonte: British Library[VII]

Esses cafés não são só conhecidos pelas conversas informais entre virtuosos e suas contribuições para a ciência. Os donos dos estabelecimentos passaram a promover palestras e mesmo cursos sobre os mais variados temas ao custo de um penny (o centavo inglês), preço do cafezinho da época. Por isso essas casas de café passaram a ser chamadas de Penny Universities. Acadêmicos importantes das universidades circunvizinhas ofereciam essas palestras e cursos. São talvez a verdadeira origem remota do que hoje chamamos de cursos de extensão universitária. Acadêmicos refugiados de perseguições em outros países também ali encontravam o espaço para difundir conhecimento e se manter. A importância dessas “universidades de tostão” é reconhecida há tempos, não se trata de arqueologia cultural nostálgica. No The Belfast Magazine and Literary Journal, volume 1, número 5, à página 453[VIII], continuação dos “esboços da história de publicações periódicas”, são descritos e lembrados como motivos tanto de censura, quanto apreciação: “por um lado eram reprovados como cenários de confusão, como a arca de Noé, onde puros e sujos eram amontoados juntos. Por outro lado, pela variedade de informações lá obtidas, foram denominados ‘Penny universities’”. As censuras fizeram com que fossem fechados, a conselho de juízes, mas os protestos se avolumaram e logo reabriram.

As casas de café, salvo exceções como aquela na Queen´s Lane em Oxford, entraram em declínio no século XVIII. Mas outras formas de intercâmbio e socialização foram surgindo. Nesse século, surgiram os cafés nas bibliotecas de universidades, mistura impensável até há poucas décadas. São considerados, agora, importantes espaços da vida dos campi, seja nos Estados Unidos, em Hong Kong ou no Japão, segundo estudo recente[IX]. Em um passado recente remoto, havia um café na Biblioteca Central da Unicamp. Visitar as estantes da Biblioteca de Sérgio Buarque de Holanda e depois tomar um café no subsolo amenizava qualquer crise acadêmica.

Essa pequena história nos lembra que diversidade, conhecimento e presença andam juntos. Ao discutir o que virá depois da pandemia, a eficiência de novas ferramentas e conexões é bem-vinda, mas é bom voltar à história para não esquecer coisas importantes pelo caminho.

 

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.


[I] São dez e meia da manhã de uma segunda-feira e já tenho 20 mensagens de hoje não lidas na minha caixa de correio eletrônico.

[II] Sociedade que é um marco na institucionalização da ciência.

[III]https://en.wikipedia.org/wiki/Queens_Lane_Coffee_House

[IV]https://thonyc.wordpress.com/2015/09/29/the-penny-universities/

[V]https://bhsecglobal.files.wordpress.com/2014/03/social-life-of-coffee.pdf

[VI]https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/os-livros-suas-resenhas-e-milhares-de-cartas-na-ciencia

[VII]https://www.bl.uk/collection-items/drawing-of-a-london-coffee-house-c-1690-1700

[VIII]https://www.jstor.org/stable/20495597

[IX]https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0961000617742469