Diante da contenciosa relação entre Ideia versus Realidade: Humildade

Se alguém me perguntasse qual virtude é indispensável a um cientista, eu responderia sem titubear: Humildade. Obviamente, não me baseio em nenhuma pesquisa. Respondo a partir de minha própria experiência. Todo dia sigo errando sobre “as partes da natureza que são exploráveis”, como diria Erwin Chargaff. Só muito esporadicamente acerto algo verdadeiramente relevante. No dia a dia, vou colecionando erros ou pequenos acertos incrementais. Chega a ser frustrante. A natureza insiste em não se adequar às minhas mais brilhantes ideias, daí a necessidade da Humildade. E, quem me conhece, sabe que sou prolífico em ideias e, tal qual uma criança, fico entusiasmado com cada uma delas.

Às vezes, ocorrem-me várias num único dia... mas já estou dispersando, volto ao ponto. Sim, não seria correto generalizar a partir da auto-observação. Seria um erro metodológico pueril. Certamente, há pesquisadores mais afortunados e, provavelmente, estes sugeririam outras virtudes, como talvez a Modéstia. Quão representativa é minha experiência? Não sei dizer, mas se o aforismo “conhece-te a ti mesmo”, escrito no pórtico do templo de Apolo, contém alguma verdade, então deve haver quem se identifique comigo, pois, desde a Antiguidade, sabemos que partilhamos a mesma Natureza.

O fato de erros fazerem parte do cotidiano da pesquisa não é novidade, mas pode surpreender os leigos. Alguns destes idealizam a rotina dos cientistas como uma sucessão de “Eurekas”. Isto é parcialmente explicado pelo viés dos trabalhos científicos: só se publicam os sucessos [1]. Ou seja, os fiascos ficam esquecidos no canto escuro da sala. Veja bem: poucos negariam que seria útil à humanidade conhecer os insucessos também; porém, suspeito que não seria factível. No passado, não haveria pergaminho ou papel suficiente; hoje, não há “storage” capaz de guardar “todas as ideias erradas da humanidade”.  E, mesmo que houvesse, quem conseguiria lê-las?

A imaginação humana é infinita em todas as direções. Explico: pode-se imaginar até mesmo o inexistente. Quer um exemplo? Quando escrevo a palavra “Pégaso”, aposto que lhe surge a imagem de um equino alado. Acertei? Pégaso é tão “real” em nossa mente que até mesmo detalhes como a sua cor sabemos. É difícil resistir às perguntas: por que mesmo cavalos não têm asas? Será que, no futuro, a engenharia genética trará à vida este ser mitológico? E, tendo asas, conseguirá voar? Entretanto, estas questões fazem parte de outro problema filosófico que pretendo abordar oportunamente. Hoje, quero refletir sobre outro tema nos próximos parágrafos.

Pintura que mostra à esquerda um cavalo branco com asas e à direita dois homens, o primeiro usa capacete e um manto vermelho e o segundo usa apenas um manto vermelho sobre o corpo.
Pégaso, por Jan Boeckhorst. “O equino alado é tão ‘real’ em nossa mente que até mesmo detalhes como a sua cor sabemos”, destaca Yamagishi (Foto: Reprodução/Museu Nacional de Belas Artes)

Aprende-se errando. Mas o que se aprende? Não apenas sobre o fenômeno em si, mas principalmente sobre a contenciosa relação entre Ideia e Realidade. Muitos cientistas célebres reconhecem uma boa ideia por sua beleza. Por exemplo, Paul Dirac [2], ou o nosso Artur Ávila [3], primeiro medalhista Fields brasileiro. Outros, pela lógica. Porém, nem Beleza e nem a Lógica garantem que uma ideia seja verdadeira. Triste fato.  E não faltam casos históricos para corroborá-lo. O “Diamond code” do físico George Gamow para associar códons a aminoácidos é só uma das memoráveis ideias belas, mas erradas. Já o “Projeto de David Hilbert”, para provar a consistência da matemática, era de uma Lógica irretocável. Nos primeiros anos, obteve avanços significativos, sinalizando um sucesso retumbante. Entretanto, bastou um único trabalho de Kurt Gödel [4] para demonstrar que apesar de todos os resultados até ali publicados estarem corretos [5], o projeto em si estava condenado ao fracasso desde a sua concepção. Hilbert, uma das mentes mais brilhantes da matemática, ficou inconsolável.

A Verdade é assim: insensível aos nossos sentimentos. Se a Beleza e a Lógica não são suficientes para garantir a veracidade de uma ideia, então o que é? A resposta é complexa, mas arriscaria resumi-la assim: o confronto com a soberania da natureza [6], ou com a Realidade. Ninguém sabe responder por que os fenômenos da natureza podem ser lógica ou matematicamente modelados. Poderiam não ser, certo? Do ponto de vista filosófico, não há necessidade epistemológica (razão, motivo) para que possamos “entender” os fenômenos da natureza. Tudo poderia ser caótico (há quem afirme isso). Entretanto, considerando os avanços científicos dos últimos séculos, a natureza parece ser mesmo inteligível (!). Aliás, esta é a premissa magna da própria Ciência, sem a qual não faria sentido aplicar o método criado pelo frade franciscano Roger Bacon durante a Idade Média, hoje popularmente conhecido como Método Científico.  

Concluo. O cientista precisa de Humildade, e, quase esqueci, de Sabedoria. Por favor, não confundir Sabedoria com Conhecimento. São duas palavras muito diferentes. Não há dúvida de que a humanidade nunca acumulou tanto Conhecimento, mas ouso afirmar que nunca precisou tanto de Sabedoria também. Estaria eu - mais uma vez - errado?


 [1] Aviso aos navegantes: escolhi cuidadosamente esta palavra. Sucesso não implica correção. Na verdade, muito do que se publica hoje está completamente errado. Tanto pesquisar quanto revisar são verbos que exprimem ação humana. Ambos estão sujeitos à maldição dos descendentes de Adão. O tempo vai separando “o joio do trigo”.

[2] “A physical theory must possess mathematical beauty” (Paul Dirac)

[3] Perguntado como escolhia seus problemas, ele respondeu: “pela Beleza, mas esta eu não sei definir”. Ainda vou emoldurar esta frase, pois ela é irretocável.

[4] Eis aí um exemplo de resultado que é mais importante pela Verdade trazida à tona do que pela implicação matemática em si.

[5] Essa é a parte mais sensacional. Acreditava-se que, demonstrando todos os teoremas da matemática, conseguir-se-ia provar que a matemática é consistente. Lógico, certo? Gödel mostrou que não importa quantos teoremas fossem provados, sempre existiriam aqueles que não poderiam ser nem provados nem refutados (!). Cuidado: estou “simplificando” a ideia mais genial de todos os tempos!

[6] “On the science of experiments. This part is more valuable than all the others. For this science is more helpful to all the others, than any one of them is to any other. It is both a science in itself and a method applicable to all sciences. Knowing that argument may lead to truth but does not remove doubt, it neglects argument, and both investigates the reasons on which conclusions are based, and tests the conclusions themselves, by experience” [meu destaque] (Pe. Roger Bacon, Opus Tertium - 1267)