Foto: Antoninho PerriJosé Alves de Freitas Neto - Professor livre-docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e coordenador executivo da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest). Autor de “Bartolomé de Las Casas: a memória trágica, o amor cristão e a memória americana” (Annablume) e coautor de “A Escrita da Memória” (ICBS) e “História Geral e do Brasil” (Harbra). É autor de diversos artigos e capítulos sobre cultura e política na América Latina (séculos XIX e XX).

 

Só houve uma Heley e são muitas Heleys

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Ilustra: luppa Silva Só há histórias particulares e estas, entretanto, são de todo um povo. A tragédia de Janaúba (MG), no último dia 5 de outubro, vitimou crianças e a professora Heley de Abreu Silva Batista, de 43 anos. No mês dos professores e das crianças, o luto no lugar da alegria; o desconsolo, no lugar da esperança. Na sequência de abalos cotidianos que passamos no Brasil, a história da professora Heley e das crianças tende a ser esquecida em alguns dias ou semanas, somando-se à nossa naturalização e descaso diante do viver. Mas, antes disso, é preciso registrar que o episódio na creche de Janaúba poder ser a morte de um pouco da humanidade existente em cada um de nós ou, quiçá, uma oportunidade para despertarmos dessa letargia que vivemos.

Tudo o que se manifesta de particular é representativo da totalidade. No caso da Heley e seus gestos vimos o retrato pleno da educação no Brasil: doação e descaso. A professora foi a primeira a perceber o ato criminoso do vigia contra as crianças. Ela retirou as crianças pela janela e lutou corporalmente contra o homem que ateou fogo à creche.

Pelos relatos da imprensa e pela observação das pessoas que conviveram com Heley, ela era uma colega com as mesmas agruras de milhares de outras. Sua tragédia pessoal anterior, a perda de um filho de 4 anos por afogamento, estava com ela em todos os instantes de sua atuação com crianças e a esperança não lhe faltava. Mãe, deixou 3 filhas, enquanto buscou salvar aqueles que estavam à sua frente. A doação final de Heley é uma tragédia em meio ao descaso corriqueiro de uma creche que não tinha, sequer, um extintor de incêndio.


Uma vida ilustra um contexto

Ser professora ou professor no Brasil é uma tarefa paradoxal: o desprestígio social e econômico convive com adjetivações e valores que os docentes atribuem a si e, em linhas gerais, são reconhecidos por estudantes e integrantes das comunidades escolares. O idealismo dos jovens que frequentam as licenciaturas é uma quimera de esperança e encantamento com a construção do futuro. As boas memórias em relação a docentes que marcaram nossas vidas e o caráter inevitável de se perceber que sem professoras e professores estaríamos muito piores do que estamos, conferem a imagem de que dedicar-se ao magistério é uma tarefa preciosa, mesmo sem o devido reconhecimento salarial e de condições de trabalho adequados.

Nesse sentido, são muitas Heleys. Pessoas que enfrentam salas superlotadas, dificuldades para comprar um livro ou frequentar um museu ou cinema, que veem suas vozes sucumbirem após jornadas extensas e, apesar disso, confiam em seu trabalho e oferecem o melhor de si para crianças, jovens e adultos. A generosidade do ensinar, de demonstrar como podem ser sedutores o encanto com as palavras, descobertas científicas, obras literárias, processos históricos e o raciocínio lógico-matemático, é atributo imprescindível das educadoras e educadores.

Heley era professora que estudou e se dedicou à inclusão das pessoas com deficiência. Assim, tantas e tantos professores se dedicam a questões que extrapolam seus campos de conhecimento. As pautas sociais, coletivas, do momento presente ou das grandes questões gerais são outros aspectos da vida de docentes que, superando a burocracia de preencher diário, fazer chamada e participar de muitas reuniões inócuas, compartilham uma expectativa de mundo com suas e seus estudantes.

Heley deve ter pensado em desistir várias vezes, mas não naquela hora final. A sucessão de alegrias e amarguras no cotidiano de professoras e professores são infinitas como são infinitas as possibilidades de um ser humano. As tensões de uma sala de aula, incluindo a ameaça de violência física que frequentemente lemos, já seriam motivações suficientes para fazer a pergunta: por que devo continuar? A cada relatório, mudança de plano de carreira, a cada desestímulo profissional emergia a dúvida: ainda faz sentido? A cada encontro na sala de professores com aquele colega que desistiu da educação, mas infelizmente permanece ali como um moedor de expectativas a vociferar contra a vida, deve ter aparecido indícios: um dia eu também sucumbirei, desistirei e, sobretudo, tentarei que outros percam seus sonhos?

Heley deve ter enfrentado várias condições adversas. O salário talvez nunca tenha sido condizente com tamanha responsabilidade. As condições inóspitas de salas de aula e de escolas que se assemelham a presídios são um dado para o cotidiano de milhares de docentes que, apesar da energia e do sentido de urgência da vida de crianças e jovens, parecem ignorar que aquela jornada se realiza em lugares que não possuem uma arquitetura para a liberdade, para o sonho e para a criatividade. A maior parte das escolas, públicas e particulares, reproduz um esquema disciplinar de tempos fracionados e de percepção espacial que não condizem com a alegria e o desejo de derrubar barreiras e ser dono da própria vida. Mas, mesmo nesses ambientes, professoras e professores conseguem transcender o espaço em que, muitas vezes, falta o básico conforto e inserir uma imagem, despertar a curiosidade e desejar a vida.

Heley deve ter tido muitas inseguranças e medos. A cada novo ciclo escolar ou a cada estudante que entra na sala de aula há perguntas e vidas entrelaçadas ao ponto de se perguntar sobre a utilidade do que fazemos. O medo de que os fracassos superem os sucessos, de que minha postura didática e profissional não promova a autonomia daquelas pessoas que, aleatoriamente, estão sentadas ali na 6ª A, no 2º C e naquela sala que faz algazarra e que pouco se interessa pelo que cada professora e professor preparou para aquele dia. Sempre temos o medo de sermos vistos como obsoletos. Notem, nos dias que seguem, nem nos medimos perguntando se somos bons ou não, mas se já estamos ou não ultrapassados em nossas tarefas docentes. Mas, também sabemos que a nossa experiência nos coloca um passo adiante e, se ainda nos perguntamos sobre nossas práticas e inseguranças, é porque não nos tornamos insensíveis diante do que fazemos e nem das vidas que nos cercam.

Entre a doação plena e o descaso, tantas Heleys, de todos os gêneros, povoam as salas de aula e naquela Heley, a de Abreu Silva Batista, nos identificamos todos e nos incomodamos com o resultado de outra tragédia ocorrida no Brasil de 2017. Para nós que permanecemos, a dica de Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, “Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero”.

Descanse em paz, Heley!

 

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