O meio ambiente como signo negativo da modernidade ou uma alegoria de ultraje à natureza?

Por Dimas Floriani*

O mundo das palavras é a zona da realidade que permite ao escritor ficar prisioneiro delas ou então buscar transpor seus limites, com todos os riscos que isso representa para a imaginação. Entre um limite e outro transita a alegoria que é uma figura de estilo ou recurso de linguagem, espécie de tradutora dos sentidos do mundo ou ausência deles e que pode ser interpretado também como “falar da realidade de outra maneira” segundo a expressão grega allegorein.

Nos diversos usos da escrita e das palavras, o escritor paraguaio Roa Bastos, em seu magnífico romance epopeico Eu o Supremo expressa que “escrever não significa converter o real em palavras, mas fazer que a palavra seja real” (p. 73 na edição de 2003 em espanhol, Editora El Lector, Assunção).

Lembra ainda mais adiante (p. 78) que houve épocas na história da humanidade em que o escritor era uma pessoa sagrada; escrevia livros sagrados, códigos, épica, oráculos, sentenças e inscrições em criptas, pórticos e nos templos. Transmitia seus mistérios de idade em idade, sempre atuais, sempre futuros. De tal maneira que os livros têm um destino mas o destino não tem nenhum livro.

Poderíamos pensar, para nossos propósitos, que esse destino estaria reservado à natureza que pode ser escrita, mas que toda escrita que é feita sobre ela é uma tentativa de religação humana, com seus desígnios, seja de comunhão ou de divórcio trágico como estamos assistindo na atual fase do antropoceno.

Como um de nossos intuitos aqui é de aproximar a produção discursiva como figura de linguagem e seu uso alegórico, associado com a questão ambiental, podemos identificar ainda na literatura dois escritores, José Saramago e Ignácio Loyola Brandão, que nos colocam diante de rupturas da “normalidade” até então pouco plausíveis ou inverossímeis, embora bastante alardeadas pelos escritos de Bauman que se refere a essa normalidade como vidas desperdiçadas.

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Limites humanos e o castigo pela sua violação: uma alegoria ética válida para o presente

Alguns pré-socráticos, como Heráclito (1964), percebiam o pesado sentimento de culpa para a alma humana ao defrontar-se com o desejo e sua proibição. No Banquete, Platão faz referência a Aristófanes que ao tratar dos seres humanos e dos seus poderes exagerados, em suas origens, valeu-lhes ser cortados pela metade pelos deuses, e dessa amputação surgiu o vazio que só pode ser preenchido pelos outros. Daí que cada um de nós é símbolo do outro, sendo que o outro é o ser alheio que rouba meu ser; cada ser humano é o complemento do outro. Uma vez mais a referência ao outro suscita, para os gregos, a ideia de que a virtude ética é sempre realizada em comunidade pelos indivíduos, uma relação com o outro.

A conduta da desproporção, do excesso, do viver sem limites pareceria antecipar o alerta sobre a forma de viver, de produzir e de consumir dos modernos, especialmente se levarmos em conta como vivemos nossas experiências com a natureza usada como recurso produtivo e submetida sem trégua ao mercado.

Pela alegoria de Zeus que ordena que os homens sejam divididos ao meio por querer igualar-se às divindades, poderíamos nos contentar, afinal, com o paradoxo da privação imposta pelos deuses aos seres humanos, uma vez que daquela privação nasce o desejo de cada ser humano completar-se no outro, devolvendo-nos nossa própria condição limitada, dependente e finita!

Assim sendo, entende-se que as questões socioambientais derivam dos problemas vinculados com a maneira de conceber, viver e transformar as condições de vida material e cultural, e que o amálgama desses atributos se remete às concepções e modos de representar a natureza e conviver com ela. Pensar e viver essa dimensão na contemporaneidade, significa conviver com ameaças, riscos, privações e, no limite, promover desastres crescentes, pelo modo de como conduzimos nosso sistema de produção das condições materiais, simbólicas e culturais de vida (estilos de consumo que excedem nossas necessidades essenciais). Note-se aqui que foi esquecido, pelas modernas sociedades, o apelo dos autores clássicos gregos, sobre as virtudes da moderação!

Pensar eticamente a comunidade hoje envolve uma ética global já que administrar um sistema de justiça ambiental implica em uma espécie de proclamação de mandamentos, preceitos, leis e normas que regulem mundialmente os mecanismos de controle e que penalize os excessos cometidos pelas ações implementadas no âmbito dos usos e abusos dos recursos naturais disponíveis.

Com Sísifo, para insistir nas analogias, se sua tarefa é inútil e absurda, não deixa de revelar o que a modernidade ocidental instaurou como normalidade repetitiva e que embora destituída de sentido, continua executando sua tarefa diária. Ora, essa normalidade pareceria que está prestes a terminar se é que já não terminou, com o aparecimento letal de um vírus que desafia a toda a humanidade.

A questão que é necessário reformular a partir dessa ruptura é se de fato estamos varrendo de vez o imaginário de Sísifo, como inexorável repetição, e o que advirá a partir de sua ausência: um vazio absoluto ou a necessidade de criarmos outras alegorias para representar o que todavia não se esboça como visível? No dizer de Edgar Morin, o improvável cede lugar ao involuntário e ao inesperado! Esse inesperado como anúncio de alerta do perigo totalitário que é bem diferente daquele do século XX parece profetizar que a paz e a segurança poderão, infelizmente, se estabelecer em pequenos oásis cercados pela aridez de um grande deserto.

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O que o inesperado reserva para a atual crise socioambiental

Em um de seus capítulos do livro Para Além da Esquerda e da Direita, Anthony Giddens (1996) designa a crise ambiental atual como signo negativo da modernidade, em oposição à visão radiante do progresso e das promessas de uma sociedade afluente para todos os seres humanos que habitam o mesmo Planeta, desde as revoluções industriais até o final do século XX.

O fim da natureza como entidade independente da ação humana, o impacto da globalização, a eclosão do fundamentalismo, a persistência da dimensão de gênero e a necessidade de uma teoria normativa da violência aparecem neste livro como alguns dos elementos relevantes para a implementação de uma nova política verdadeiramente democrática.

Contudo, com a eclosão do neoconservadorismo, a ressurgência e insurgência de forças proto autoritárias, encarnadas em populistas da extrema-direita, os anseios por uma terceira via parecem ter ficado estagnados, para não dizer enterrados, diante das expectativas otimistas sobre as promessas da globalização dos mercados; não se confirmaram as profecias de que essa globalização pudesse trazer esperanças de um novo modelo de cooperação internacional, com regimes políticos democráticos e um novo modelo normativo de gestão compactuada entre as nações sobre o meio ambiente.

Da mesma maneira, temos que buscar substituir as ingenuidades sobre a trajetória da história das sociedades humanas, que vai do inferior ao superior, do atrasado ao adiantado, da tradição à modernidade e de levar a sério a forma de como os sistemas de super exploração da natureza acabará provocando a ira do inesperado conforme Morin.

É hora então de retornarmos aos autores e autoras que em determinados momentos foram considerados catastrofistas ou descontextualizados. Carl Sagan com suas reflexões sobre vida e morte na virada do milênio diz que no século XXI serão os tônicos e tóxicos que causarão danos no mundo despreparado. Para contrapor-se a essa inércia, segundo ele, seria necessário expandir o campo da saúde pública de forma que inclua a saúde cultural; premonitoriamente, cita o poeta inglês John Donne, em poema de 1611, com o verso: “Este novo mundo pode ser mais seguro, se for informado sobre os perigos das doenças do antigo”.

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É possível ainda acreditar piamente no desenvolvimento como crescimento econômico?

Como já é por demais conhecido, as teorias do desenvolvimento foram elaboradas por teóricos comprometidos com a centralidade do modelo capitalista hegemônico e posteriormente transplantadas, adaptadas ou assimiladas a contextos histórico-sociais e culturais bem diversos, sobretudo em situações coloniais como da África ou de dependência como da América Latina.

Perguntas a se fazer para a busca por soluções, dentro dos limites históricos do desenvolvimento e de suas contradições ou então desde as margens do sistema, é se ambas as possibilidades (alternativas de desenvolvimento x alternativas ao desenvolvimento) são antagônicas ou complementares; mais ainda, se aparecem como antagônicas, as possibilidades de coexistência é da ordem estrutural (sistêmica) do modelo neoliberal? Ou se a possibilidade de outra matriz hegemônica ( por exemplo, a desenvolvimentista, estatista, social democrática, etc.) poderia promover algum tipo de coexistência?

Pensar em alternativas ao desenvolvimento requer, portanto, não apenas conceber de outra forma mecanismos que permitam a uma organização social ser capaz de reproduzir-se materialmente, mas também de engendrar instituições em que a gestão, as normas, e os valores que regem as estratégias de sociabilidade se desloquem do atual sistema de racionalidade capitalista para outras racionalidades, com possibilidade de se sobreporem ou então de coexistirem com a atualmente vigente.

Essa questão não é apenas de ordem epistêmica, mas se refere ao domínio das experiências concretas, isto é, de como são construídas alternativas políticas e culturais autônomas. A modernidade periférica, com seu processo de modernização econômica e tecnológica e a consequente segmentação de classes sociais, conduz esse processo aos limites da injustiça ambiental, uma vez que combina elementos de herança colonial com uma crescente mercantilização da natureza, em diversas modalidades: produção e expansão do espaço do capital pelo agronegócio, pelo neoextrativismo e pela apropriação dos territórios pertencentes aos povos indígenas e às populações tradicionais.

A produção de uma nova semântica pelos sujeitos sociais subalternos, historicamente invisibilizados e silenciados só é possível pelo trabalho de ressemantização de sua condição identitária, cultural e política, em uma perspectiva plural. Esses novos-antigos sujeitos se redefinem ao politizar seus agenciamentos frente ao modelo hegemônico de desenvolvimento periférico e ressignificam suas estratégias em busca de alternativas ao desenvolvimento, no lugar de reafirmar as propostas de alternativas de desenvolvimento.

Mudanças climáticas: teoria conspiratória dos globalistas?

Com a grande onda neoliberal dos últimos anos, o que se observa por parte de governos populistas de direita no Brasil e nos EUA, até o fim do mandato de Trump, é o negacionismo em relação às mudanças climáticas – o aquecimento global junto com a referência a gênero tornaram-se palavrões ideológicos –, ou seja, uma aposta para enfraquecer os mecanismos das agências multilaterais de negociação sobre políticas de mitigação dos danos provocados pelas mudanças climáticas e de recusa de novos tipos de cooperação em pesquisa para gerar a produção de energias alternativas, por exemplo, frente à matriz fortemente apoiada na exploração de combustíveis fósseis.

Provavelmente, com a crise do Covid19, se a humanidade aprender alguma coisa com ela e se a aventura neoliberal for derrotada, poderão abrir-se novos cenários para a prevenção de um futuro mais seguro e o combate às mudanças climáticas entrarão na linha de mira das prioridades, bem como as políticas de prevenção sanitárias frente às pandemias.

Considerar medidas relativas à crise mundial atual é buscar então associar a estreita relação que existe entre a coevolução do sistema natureza e o sistema societal, e que merece ser abordada sob uma ótica integradora. Não há como abordar a natureza sem levar em conta a forma de como tem sido apropriada na modernidade pelos mecanismos econômicos, tecnológicos e culturais impostos pela lógica do mercado. A tarefa dos pesquisadores e dos agentes políticos é de buscar identificar os impasses criados pelo frenético sintoma de Sísifo de produzir, consumir e explorar os recursos da natureza para então desviar buscar evitar o ponto de não retorno.

Para resumir os propósitos do texto: é possível aproximar alegoricamente o alerta feito pelos gregos antigos e pelos indígenas contemporâneos sobre a questão da transgressão aos limites da natureza pelos humanos, muito mais visíveis no antropoceno do que em outras eras; essas violações representam sérios desafios para a manutenção e reprodução das condições de vida no Planeta. Exemplo disso é a atual pandemia e os reflexos das mudanças climáticas sobre o ambiente, tornando inviáveis as situações de vida para imensas parcelas da população.

Vivemos restrições dramáticas, oriundas de contextos pouco favoráveis, para a manutenção de um padrão de diálogo democrático entre as diversas forças políticas e ideológicas que disputam a condução dos destinos das nações. Mas existe a possibilidade de que a inteligência prevaleça sobre a ignorância deletéria que contaminou os espíritos e as mentes dos defensores da morte.

* Dimas Floriani é professor titular sênior – PPGMADE e PPGSOCIO – UFPR. Pesquisador CNPq e Coordenador Acadêmico da Casa Latino-americana (CASLA) de Curitiba.