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A falsa simplicidade da poesia bucólica

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Livro da coleção Bibliotheca Latina aborda obras de Virgílio, Calpúrnio Sículo e Nemesiano

O professor Paulo Sérgio de Vasconcellos, coordenador da coleção: panorama de toda a produção literária dos antigos romanos
O professor Paulo Sérgio de Vasconcellos, coordenador da coleção: panorama de toda a produção literária dos antigos romanos

Poesia bucólica: Virgílio, Calpúrnio Sículo, Nemesiano é o novo livro a integrar a coleção Bibliotheca Latina, que trata da literatura latina, separando-a por gêneros. Como nos outros volumes, além de um amplo estudo, constam uma bibliografia comentada e uma breve antologia de textos. A obra, que aborda três grandes nomes da bucólica latina – Virgílio, Calpúrnio Sículo e Nemesiano –, foi escrita por Alessandro Rolim de Moura, doutor em Letras Clássicas pela Universidade de Oxford, e vai além da superficialidade com a qual muitos manuais tratam do tema. “A poesia bucólica contém muita maleabilidade e abriga temas diversos dentro do seu molde de aparente simplicidade”, afirma Moura.

Segundo Paulo Sérgio de Vasconcellos, coordenador da coleção e professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, a Bibliotheca Latina tem como objetivo colocar à disposição do leitor um vasto panorama de toda a produção literária dos antigos romanos. “Pretendemos contemplar todos os gêneros. Estão ainda por vir volumes sobre tragédia, comédia, fábula, oratória, epistolografia etc.”, antecipa Vasconcellos.

O coordenador pontua que os volumes vêm sendo incorporados nas bibliografias de cursos de Letras Clássicas de todo o país, cumprindo uma função didática almejada desde o início pelos mentores da coleção. “Trata-se de um material de concepção inédita no Brasil e com a vantagem de atrair também leitores em geral que apreciam a literatura, estudem ou não Letras, sejam ou não classicistas”, afirma o docente.

Na opinião de Vasconcellos, a coleção preenche uma lacuna bibliográfica nos Estudos Clássicos brasileiros. “As obras oferecem aos leitores não especialistas um quadro completo, rigoroso na fundamentação científica e ao mesmo tempo didático, com todo um repertório de textos fundamentais para compreender a história da literatura ocidental”, finaliza.

Confira, a seguir, entrevista com o autor da obra.

Jornal da Unicamp – No âmbito da ampla gama de textos literários latinos, por que o senhor decidiu especializar-se em poesia bucólica?

Alessandro Rolim de Moura – Interessei-me pela poesia bucólica em primeiro lugar porque venho estudando há algum tempo a poesia antiga em hexâmetros datílicos, um tipo de verso cujo ritmo me atrai. Também a curiosidade pela representação literária da “natureza” foi um grande estímulo, já que a bucólica tem ambientação não urbana, está repleta de árvores e rios e seus personagens são trabalhadores rurais. Havia feito alguma pesquisa sobre o poeta grego Hesíodo, que aborda (de modo diferente do da bucólica) o mundo da agricultura e do pastoreio, e isso me ajudou na transição para esse outro tema. Também gosto muito de Teócrito, o principal poeta bucólico grego, que estou traduzindo atualmente, e de Virgílio. Assim, fui aos poucos me sentindo à vontade no universo da bucólica latina.

JU – Por que a escolha de Virgílio, Calpúrnio Sículo e Nemesiano como “exemplares” da poesia desse período?

Alessandro Rolim de Moura – Eles são os únicos autores latinos antigos com coleções substanciais de poesia bucólica conservadas. Os demais resumem-se a fragmentos ou poemas isolados. Virgílio não só é o grande sistematizador do gênero para toda a tradição posterior mas também um dos melhores poetas de todos os tempos. Calpúrnio Sículo e Nemesiano são pouco conhecidos, mas recompensam o leitor com várias soluções originais para as cenas típicas da poesia bucólica consagradas em Virgílio e em Teócrito. Por exemplo, um tipo de poema bucólico comum é aquele centrado no certame poético entre dois pastores. Eles se encontram, conversam sobre suas habilidades poéticas, às vezes se ofendem mutuamente e, por fim, após a escolha de um árbitro, fazem uma competição poético-musical em que se alternam cantando pequenos trechos, em uma espécie de “repente”. Em um poema de Calpúrnio, dois personagens desse tipo se encontram, e, é claro, o leitor espera que a cena se desenvolva segundo o modelo que descrevi. Mas os dois brigam tanto que o poema termina sem que cheguem à fase da disputa poética. O texto inteiro é uma cômica sequência de discussões infrutíferas e injúrias pitorescas.

JU – Quais as maiores semelhanças e diferenças em relação à poesia épica do mesmo período?

Alessandro Rolim de Moura – A principal semelhança está no tipo de verso, pois tanto a épica heroica como a poesia bucólica utilizam o hexâmetro datílico. As diferenças, no entanto, são muito grandes, a começar pelo próprio manejo do hexâmetro. A épica está centrada em feitos de heróis, guerras, grandes viagens, fundações de cidades, grandes movimentos políticos. A bucólica fala de um mundo mais fechado, de pequenas comunidades. É, digamos, algo mais intimista. Por vezes, contudo, esses gêneros se interpenetram. Há cenas bucólicas na épica. Virgílio tem duas bucólicas em que aborda, por exemplo, o impacto da guerra civil no mundo rural.

JU – Qual a principal contribuição do seu livro para os estudiosos da área?

Alessandro Rolim de Moura – O livro tem um pouco para cada tipo de estudo. Nele, procuro fornecer uma revisão detalhada da poesia bucólica à luz da crítica antiga e da observação da linguagem dos poemas estudados. Também situo a bucólica latina em uma grande extensão temporal, detendo-me com calma nos antecedentes gregos e oferecendo um panorama das manifestações tardo-antigas e medievais, além de fazer alguns comentários sobre a poesia pastoral moderna. O livro demonstra que a poesia bucólica contém muita maleabilidade e abriga temas diversos dentro do seu molde de aparente simplicidade, indo muito além dos estereótipos encontrados em manuais que comentam esse gênero apenas de passagem. Assim, considero que o livro pode ser uma leitura interessante também para os amantes da poesia que não são das áreas acadêmicas de Literatura, pois não economizo na citação dos poemas.


##Título: Poesia bucólica: Virgílio, Calpúrnio Sículo, Nemesiano

Autor: Alessandro Rolim de Moura

Edição: 1ª Ano: 2022

Páginas: 568

Dimensões: 14 cm x 21 cm

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